Neemias Queta fala do novo contrato e da concorrência de Mitchell Robinson
Com a extensão de vínculo por quatro temporadas, o poste português é um dos poucos alicerces de uns Celtics que, sem Jaylen Brown, ainda procuram a sua identidade.
Neemias Queta chegou à Summer League de Las Vegas com o maior contrato da carreira já assinado, o futuro na NBA garantido e num papel novo: o de rosto de continuidade de uns Boston Celtics que, no mesmo defeso, se desfizeram de Jaylen Brown. Entre os jogos dos mais novos, o poste português falou aos jornalistas de Boston, e a mensagem foi de quem chegou para ficar.
«Há muito tempo que desejava que algo assim acontecesse, e vê-lo concretizar-se neste momento é muito especial. Não podia estar mais feliz por continuar em Boston por muito mais tempo. Isto é a minha casa, por isso estou entusiasmado com o futuro.»
De dispensado a peça garantida
O primeiro grande contrato da carreira, assinado a dias de completar 27 anos, fixa Neemias na NBA até ao final da época de 2030/31, com um valor médio a rondar os 14 milhões de dólares por época. É o desfecho de uma trajetória improvável: escolhido apenas na 39.ª posição do draft de 2021 pelos Sacramento Kings, passou os primeiros anos entre contratos two-way e uma dispensa, antes de Boston o recuperar em 2023 e o ver crescer, depois de ter acionado no final de junho a opção que o garantia para 2026/27, até ao cinco inicial. O poste apontou o momento em que a permanência começou a parecer possível.
«Tem mais que ver com a confiança em nós próprios, com a crença e a ética de trabalho, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, tudo se resolve. Mas acho que foi a partir do momento em que percebi que ia ser titular e que ia jogar minutos importantes noite após noite. Estava convicto de que isso chegaria com a quantidade de trabalho e com a ajuda que os meus companheiros me deram, por isso sentia que acabaria por acontecer.»
A leitura analítica deu-lhe razão. Stephen Noh, do The Sporting News, elegeu o vínculo como o melhor negócio de todo o mercado de 2026, e Zach Kram, da ESPN, atribuiu-lhe a nota A-. Depois de uma época a titular em 75 dos 76 jogos que disputou — com máximos de carreira de 10.2 pontos e 8.4 ressaltos e 65.3% de eficácia nos lançamentos de campo, o terceiro melhor registo da liga —, Neemias garante ao franchise um titular na posição de poste por cerca de metade do preço de mercado.
O verão da rutura
Nem tudo, porém, correu como planeado. A época terminou com uma eliminação na primeira ronda frente aos Philadelphia 76ers, numa eliminatória que se estendeu ao sétimo jogo, e Neemias não escondeu a frustração.
«Obviamente, não foi o desfecho que esperávamos. Perder na primeira ronda não é aceitável para os Boston Celtics, e sabemos aquilo que queremos alcançar nos próximos anos. Conseguir parar, descontrair e organizar as ideias, e depois voltar ao trabalho sobre as várias coisas em que poderíamos ter estado melhor durante a série, é fundamental. E é isso que tenho feito desde que voltei a pegar na bola.»
Foi esse desfecho que abriu um verão de mudanças. Poucos dias antes de renovar com Neemias, Boston trocou Jaylen Brown para os Philadelphia 76ers, a troco de Paul George e de quatro escolhas do draft, num dos maiores negócios do defeso. Para Neemias, agora um dos elementos de continuidade no balneário, a saída de um companheiro de três épocas em Boston não foi simples.
«Não é fácil. Custa-nos por ele. Obviamente, também não foi fácil para ele. Mas, ao fim e ao cabo, faz parte do negócio. Sabíamos o que se estava a passar. Pode acontecer a qualquer momento, mas o Jaylen é alguém que não se substitui na cidade. E é muito difícil de substituir também dentro de campo. Fez imenso por Boston e vai deixar muitas saudades. [...] Acho que ele me obrigou a ser melhor todos os dias, pela sua garra e intensidade. E a forma como conseguia unir-nos como grupo era algo muito especial.»
Do lado da equipa técnica, Joe Mazzulla não fugiu à dimensão da perda, nem à necessidade de reinventar a equipa em torno do que resta.
«Uma das grandes questões é como se vai substituí-lo e não se vai. Não só pelo que fez ao longo da carreira, mas pelo que fez este ano; isso não se substitui. [...] Temos de perceber que não estamos a pedir a ninguém que chegue — seja pela free agency, seja quem for — para ser aquilo que ele era, porque não vamos fazer isso. Têm é de ser a melhor versão de si próprios e trazer coisas à nossa equipa para nos ajudarem a ser melhores.»
O treinador assumiu que a própria identidade dos Celtics terá de mudar.
«Temos um plantel diferente. Temos agora uma identidade diferente. Nos últimos dez anos houve uma identidade clara, com o plantel que tínhamos, sobretudo com os pilares da organização. Agora, essa identidade é um pouco diferente. Portanto, o desafio está em como criar essa identidade, como consolidá-la e, depois, como terminar a época com uma vitória.»
O cinco em aberto
Parte dessa reconstrução mexe diretamente com Neemias. No mesmo dia da troca de Brown, Boston contratou Mitchell Robinson, poste campeão pelos New York Knicks, por três épocas e 47,4 milhões de dólares, através da mid-level exception, o que reabre a dúvida sobre quem será titular no cinco em 2026/27. Questionado sobre o novo companheiro, Neemias não mostrou qualquer desconforto.
«Adoro ter bons postes para defrontar. Adoro a competição que podemos vir a ter, mas, ao fim e ao cabo, é só basquetebol. Quem jogar, quem não jogar... Falo por mim: ainda não o conheci pessoalmente, mas sei que ambos procuramos a excelência e queremos dar à equipa as vitórias que desejamos.»
Sobre a forma como os dois se vão puxar mutuamente, foi direto: «Vamos ensinar um ao outro um pouco daquilo que fazemos melhor.» E quanto à hipótese de perder a titularidade, remeteu a decisão para o treinador: «Isso é hipotético. O Joe é que manda, ele é que decide. Eu meto a bola no cesto e tento ajudar a equipa a ganhar.»
A relação com Mazzulla
Se há algo que sustenta a confiança de Neemias, é a relação que descreve com o treinador, que este verão o foi visitar a Portugal, ao pavilhão da sede do Barreirense onde aprendeu a jogar.
«Surreal. Há uns anos, se me dissessem que um treinador da NBA ia àquele pavilhão específico só para me ver e me conhecer, eu teria pensado que estavam a brincar comigo. E o Joe fez questão — quer dar esse passo extra, esse esforço extra, só para nos fazer sentir confortáveis. Acho que é uma das razões pelas quais é um treinador tão bom: preocupa-se com as pessoas. E é por isso que dou tudo por ele.»
Entre os jogos da Summer League, Neemias assumiu também o papel de veterano à-vontade com os mais novos. Questionado sobre a exibição do jovem Hugo González, escolha de Boston no draft de 2025, respondeu em castelhano, a sorrir: «El Tío está muy bien.»
Falta saber se este Neemias segura a titularidade perante Robinson e se a equipa que o rodeia, agora sem Brown, encontra a identidade que Mazzulla admite ainda estar por construir.



