Contrato de Neemias Queta eleito o melhor negócio do verão
O modelo salarial de Stephen Noh do The Sporting News, dá à extensão o maior excedente de valor do defeso, mas o rendimento nos playoffs e a titularidade no cinco continuam por confirmar.
O melhor negócio de todo o mercado de 2026 na NBA é a extensão de contrato que Neemias Queta assinou com os Boston Celtics. A conclusão é de Stephen Noh, do The Sporting News, que colocou o vínculo do poste português — quatro anos, 56 milhões de dólares — no topo da lista das melhores contratações da primeira semana da free agency.
Noh recorre a um modelo salarial próprio para avaliar cada contrato através do seu «valor excedentário» (surplus value), que calcula a diferença entre o rendimento desportivo de um jogador e aquilo que a equipa lhe paga. Por essa métrica, a extensão de Neemias não só encabeça a lista como o faz com enorme folga: um excedente estimado de 96,7 milhões de dólares, contra os 60,2 milhões do segundo melhor negócio do defeso, a renovação do base Collin Gillespie com os Phoenix Suns. Convém sublinhar que se trata de uma estimativa baseada num modelo analítico proprietário, e não de um dado oficial.
Um titular por metade do preço
Esta leitura assenta no salto competitivo do poste na última época. Aos 26 anos — faz 27 na próxima segunda-feira —, Neemias foi titular em 75 dos 76 jogos que disputou na fase regular e afirmou-se, na descrição de Noh, como um titular acima da média na posição cinco: um ressaltador ofensivo, defensor e finalizador eficaz. Os 65,3% de eficácia nos lançamentos de campo (o terceiro melhor registo da liga) dão corpo a esta última faceta.
O argumento de Noh é, sobretudo, económico. Neemias valia muito mais do que os 2,7 milhões de dólares da opção de equipa que Boston tinha para a temporada, e a nova extensão — com um valor médio de 14 milhões por época — garante ao franchise um titular para a posição de poste por cerca de metade do preço habitual no mercado.
Os números avançados reforçam este retrato defensivo. Numa comparação partilhada esta semana nas redes sociais com Walker Kessler — que acaba de assinar um contrato de quatro anos e 130 milhões de dólares com os Los Angeles Lakers —, Neemias surge no percentil 97,8 da liga na métrica D-LEBRON e no percentil 98,7 em defensive optimization do BBall Index, considerando todos os postes de rotação desde 2013. Estes dados ajudam a explicar o impacto que a análise de Noh procura captar
O rosto do novo modelo de Boston
Que um contrato com esta relação qualidade-preço lidere a lista diz tanto sobre Neemias como sobre o atual momento da NBA. Na era das restrições salariais impostas pelo novo acordo coletivo (CBA), que prevê penalizações pesadas para os plantéis mais caros, o custo-benefício deixou de ser um luxo para passar a ser o eixo central na construção das equipas. Foi esta lógica que levou Boston a trocar Jaylen Brown para os Philadelphia 76ers poucos dias antes de renovar com o gigante do Vale da Amoreira: os Celtics já não conseguiam sustentar o facto de terem cerca de 70% do seu teto salarial, e uma fatia enorme do volume ofensivo, concentrados em apenas dois jogadores (Brown e Jayson Tatum).
Foi assim que Brad Stevens, presidente de operações de basquetebol dos Celtics, justificou a troca em conferência de imprensa:
«O caminho parecia-me um pouco mais desafiante, com 70% do nosso teto salarial e uma percentagem tão alta do nosso volume de jogo concentrados em dois jogadores. Tem de se fazer um excelente trabalho a construir profundidade capaz de, idealmente, substituir o indivíduo insubstituível.»
Ben Golliver, da ESPN, faz a mesma leitura. Numa análise às reações do defeso, incluiu Neemias na lista de ativos rentáveis que sustentam o novo rumo de Boston, ao lado de Payton Pritchard, Hugo González e Baylor Scheierman. O modelo de 2024 — pagar a peso de ouro a vários veteranos All-Star — deixou de ser sustentável. A estratégia atual passa por garantir jogadores determinantes através de contratos comportáveis, à imagem do que já fazem os Oklahoma City Thunder ou os San Antonio Spurs. Com contratos de valor máximo no topo da folha salarial, sobra pouca margem para preencher os restantes lugares do plantel sem esbarrar nas severas penalizações da liga.
O reparo nos playoffs e o cinco em aberto
Contudo, nem tudo são elogios. O próprio Noh admite que Neemias não rendeu nos playoffs ao mesmo nível da fase regular — a mesma reserva que Zach Kram, da ESPN, já havia apontado ao atribuir a nota A- à extensão.
Para além disso, há uma incógnita imediata: a titularidade na posição cinco não está garantida. Boston contratou Mitchell Robinson (três épocas, 47,4 milhões de dólares), poste que se sagrou campeão pelos New York Knicks, pelo que o treinador Joe Mazzulla poderá alternar entre os dois consoante o adversário. Ainda assim, o português parte em vantagem face à experiência que já acumulou no sistema dos Celtics.
Fica assim reforçada a tese de que, face aos contornos em que foi fechado, este é um negócio claramente favorável a Boston. O próximo capítulo escrever-se-á nos playoffs de 2027, altura em que Neemias terá a oportunidade de provar no maior palco o impacto que já demonstrou ter na temporada regular.




