Neemias Queta assina extensão de quatro anos com os Boston Celtics
Poste português chega a acordo por 56 milhões de dólares, mas o negócio só será oficializado na próxima semana e a titularidade no cinco inicial continua em aberto.
Neemias Queta chegou a acordo com os Boston Celtics para uma extensão de contrato de quatro anos, no valor de 56 milhões de dólares (cerca de 47,5 milhões de euros) — o primeiro grande contrato da carreira do poste português —, a poucos dias de completar 27 anos. O vínculo, totalmente garantido, foi avançado por Shams Charania, da ESPN, a partir de informação prestada pelo agente do jogador, Bill Duffy, da agência WME.
A extensão só entra em vigor em 2027/28 e fixa Neemias na NBA até ao final da época de 2030/31, com um valor médio a rondar os 14 milhões de dólares (12,2 milhões de euros) por temporada. O processo teve dois passos: a 29 de junho, os Celtics tinham já acionado a opção de equipa para 2026/27, que garante ao poste cerca de 2,7 milhões de dólares na próxima época; sobre esse ano acrescentaram agora os quatro de extensão. O acordo só poderá ser anunciado oficialmente na próxima segunda-feira, pelo que a formação de Boston ainda não o confirmou.
Nos termos em que foi fechado, o negócio é claramente favorável a Boston. Como sublinhou Bobby Marks, especialista em contratos da ESPN, acionar a opção era o passo óbvio — abria caminho a uma extensão de até quatro anos e 93 milhões de dólares —, e os 56 milhões acordados ficam bem abaixo desse máximo a que Neemias era elegível. Para o poste, o significado é outro: é a garantia do maior contrato da carreira, assinado pela mesma organização que apostou nele quando foi dispensado e o ajudou a tornar-se num dos postes mais valorizados da liga.
O acordo com Neemias é uma das poucas notas de continuidade num defeso movimentado. Em poucos dias, os Celtics trocaram Jaylen Brown para os Philadelphia 76ers — a troco de Paul George e de quatro escolhas do draft —, contrataram o poste Mitchell Robinson (três épocas, 47,4 milhões de dólares) e o base Mike Conley, e viram Nikola Vučević rumar aos Orlando Magic. Com dois postes de nível de titular na rotação, não é certo quem o treinador Joe Mazzulla vai colocar no cinco inicial em 2026/27.
A renovação premeia a melhor época da carreira de Neemias, o primeiro ano como titular a tempo inteiro, depois das saídas de Kristaps Porziņģis, Al Horford e Luke Kornet no defeso anterior. Foi titular em 75 dos 76 jogos que disputou na fase regular, com máximos pessoais de 10.2 pontos, 8.4 ressaltos, 1.7 assistências e 1.3 desarmes de lançamento, e 65.3% de eficácia nos lançamentos de campo. Terminou em quarto na votação para Most Improved Player e recolheu votos para o Cinco Ideal Defensivo.
A progressão dos vencimentos na NBA
Se o valor da extensão impressiona, é sobretudo pelo contraste com o que Neemias recebeu até aqui. Escolhido no draft de 2021 na 39.ª posição, pelos Sacramento Kings, saído de Utah State, arrancou a carreira com dois contratos de duas vias (two-way), então indexados a valores fixos: cerca de 463 mil dólares em 2021/22 e 509 mil em 2022/23 — pouco mais de metade do salário mínimo de um estreante fora das primeiras escolhas —, ao longo dos quais somou apenas cerca de 20 jogos pelos Kings.
Dispensado em setembro de 2023, assinou de imediato um two-way com Boston, convertido num contrato padrão no final dessa época, a tempo de ser campeão. Seguiu-se, no verão de 2024, uma renovação por três épocas e cerca de 7,18 milhões de dólares, que lhe garantiu 2,2 milhões em 2024/25, 2,35 milhões em 2025/26 e os 2,7 milhões da opção agora acionada para 2026/27, segundo o Spotrac. Ou seja, em cinco épocas na liga, Neemias nunca recebeu mais de 2,7 milhões de dólares num único ano e é esse o valor que os 56 milhões da extensão vêm multiplicar por várias vezes.
«Foi surreal», resumiu recentemente o próprio Neemias a Adam Himmelsbach, do Boston Globe. «A vida muda mesmo num ano ou dois.» Para dimensionar o salto, o valor médio do novo contrato (cerca de 14 milhões por época) aproxima-se do salário de estreia da primeira escolha do draft de 2026, AJ Dybantsa (cerca de 14,8 milhões de dólares), e deverá fazer Neemias saltar da 14.ª para a quinta posição entre os mais bem pagos dos Celtics, num escalão liderado por Jayson Tatum, que só em 2027/28 vai receber cerca de 62,8 milhões.
ESPN avalia extensão de contrato com A-
A leitura analítica do negócio é entusiástica. Na coluna de atribuição de notas da ESPN, Zach Kram classificou a extensão com A- e sublinhou que os mesmos números avançados que alimentam o ceticismo de parte dos adeptos em relação a Jaylen Brown são generosos com Neemias: o poste surge no 96.º percentil da liga em impacto por posse de bola (xRAPM) e no 95.º em estimated plus-minus, e Boston teve um net rating de +13.2 com ele em campo, o melhor registo da equipa.
Kram valoriza ainda a manobra em dois tempos — acionar a opção barata para libertar margem salarial e assinar Robinson — e recorda que tudo isto vem de um antigo jogador com contratos two-way que, antes de 2025/26, nunca tinha atingido os 1.000 minutos numa época. Os dois reparos que impedem uma nota mais alta são o historial ainda curto neste nível de exigência e a quebra nos playoffs, com Neemias a render aquém na eliminatória perdida frente aos 76ers. Kram fecha com uma dúvida: se o poste rende sobretudo como titular de fase regular ou se pode ser peça determinante num candidato ao título.
Dez anos de serviço no horizonte
Há ainda uma leitura de médio prazo que o contrato torna possível. Neemias leva cinco épocas cumpridas na NBA; com a opção de 2026/27 e os quatro anos de extensão, o vínculo pode levá-lo à décima época na liga, precisamente em 2030/31. Chegar às dez épocas de serviço não é um pormenor: é o patamar que desbloqueia os benefícios mais altos do acordo coletivo.
A pensão da NBA, que fica adquirida ao fim de três anos, só atinge o valor máximo com dez ou mais épocas — um antigo jogador nessas condições pode receber, aos 62 anos, mais de 215 mil dólares anuais, contra cerca de 57 mil de quem tem apenas três anos de serviço. A partir das dez épocas, a cobertura de saúde vitalícia deixa de abranger só o jogador e passa a incluir cônjuge e filhos, e o salário mínimo sobe para o escalão mais elevado da tabela (cerca de 3,2 milhões de dólares na época 2023/24).
Fica assim assegurado o futuro de Neemias na NBA até, pelo menos, aos 31 anos. A confirmação de que consegue repetir na primavera o rendimento da fase regular será o próximo capítulo de uma carreira que, em dois anos, o levou de dispensado pelos Kings a peça garantida do projeto dos Celtics.






