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Becca Wann-Taylor: “Não estaria aqui sem a minha família”
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Becca Wann-Taylor: “Não estaria aqui sem a minha família”

A história de Rebecca Wann-Taylor é feita de obstáculos e mudanças: o basquetebol e o futebol eram o centro do plano inicial, mas as lesões empurraram um dos sonhos para pausa forçada, com o risco de nunca se concretizar.

Há duas temporadas a jogar fora dos Estados Unidos, a jogadora de 31 anos do Basquete Clube de Barcelos falou ao Borracha Laranja sobre a chegada a Portugal, a realização do sonho no basquetebol, a importância da família e até a presença num Mundial Sub-20 de futebol.

Basquetebol e futebol, duas paixões que sempre se cruzaram

Nascida e criada no estado da Virgínia, Becca sempre gostou de desporto, de brincar e jogar com os irmãos, e encontrou no basquetebol e no futebol as modalidades com que mais se identificava. Sendo a “bebé” da família, com um irmão 10 anos mais velho e outro 2 anos mais velho, era no exterior que se sentia bem.

“Crescendo com dois irmãos mais velhos, estava sempre lá fora a jogar com eles, habitualmente num desporto que envolvesse uma bola. Sempre estive melhor lá fora do que a fazer alguma coisa dentro de casa”, diz a jogadora barcelense, que cedo percebeu quais eram os desportos que preferia.

A partir dos 7 anos, Becca começou a jogar basquetebol e futebol, e foi sempre essa a realidade durante a juventude, com o foco direcionado para a modalidade que estivesse a praticar naquela altura do ano.

“As épocas de basquetebol e futebol disputavam-se sempre em alturas diferentes, por isso nunca parava, mesmo quando cheguei à Universidade de Richmond. Quando era altura de jogar basquetebol, só jogava e treinava basquetebol. Depois, quando começava a temporada de futebol, virava todas as atenções para isso”, revela Wann-Taylor, que vivia constantemente em torno dos dois desportos.

Apesar de não treinar especificamente para uma modalidade, Becca sentia que tinha a capacidade atlética necessária para ter sucesso, mas cedo percebeu que tinha mais possibilidades no futebol. Muito ao estilo de Mário Jardel, foi com cabeceamentos certeiros que construiu reputação nos relvados, o que lhe valeu uma bolsa para a Universidade de Richmond, onde marcou 34 golos, segundo melhor registo de sempre, acabando também por jogar basquetebol nesse período.

Chegar ao Japão e vencer: um Mundial Sub-20

Perto de completar 20 anos, surgiu uma oportunidade única: representar os Estados Unidos num Mundial Sub-20, algo que a surpreendeu.

“Fui convidada para um estágio na Califórnia, em maio (2012), e não estava na melhor forma física. Dei o meu melhor, sabia que tinha algumas qualidades diferentes das outras jogadoras; mesmo não estando bem conseguia cabecear, era forte, tinha facilidade em fazer lançamentos laterais longos. Mas, como não fui chamada para o segundo estágio em junho, pensei que não ia ser chamada para o último estágio em julho”, conta Becca.

Devido a várias lesões no plantel, foi chamada para o derradeiro estágio e, desde logo, lhe disseram que, se fosse convocada para o Mundial, seria como opção de recurso para os minutos finais, caso a equipa precisasse de um golo e de alguém forte no jogo aéreo e nas bolas paradas.

Num treino simulado, marcou um golo e mostrou que podia ser opção. Foi convocada para o Mundial Sub-20 no Japão, onde partilhou seleção com futuras estrelas do futebol mundial como Julie Ertz, Crystal Dunn e Samantha Mewis.

Apesar de ter jogado poucos minutos, o nome “Becca Wann” fica para sempre na história do futebol feminino norte-americano. O passo seguinte parecia óbvio. Com a criação da NWSL (National Women’s Soccer League) em 2012, o caminho parecia escrito para uma carreira profissional, mas houve desvio.

Das lesões à família, do inferno ao céu

A pensar num futuro Draft da NWSL, depois de exames médicos em Richmond foi informada de que, após várias concussões, não devia jogar mais futebol. Sendo o jogo aéreo o seu prato principal, o sonho da menina que brincava com os irmãos caiu num piscar de olhos, lembrando a efemeridade da vida.

“Tinha jogado durante 15 anos e, na altura de dar o passo mais importante, dizem-te que não podes jogar mais”, recorda Wann-Taylor, que nunca pensara numa carreira profissional no basquetebol, vendo-o como algo “mais para descontrair”.

Aos 21 anos, depois de terminar os estudos em Richmond, não havia plano B imediato. Surgiu a oportunidade de ser árbitra. Durante sete anos, continuou no desporto universitário norte-americano, desta vez do outro lado, a arbitrar jogos de basquetebol da Divisão I da NCAA. Gostava, mas o bichinho da competição não a largava.

Casada com Dan Taylor, jogava em ligas amadoras com o marido e chegava a casa com a mesma ideia: “Sou bem melhor a jogar basquetebol do que era na universidade. Se me dedicar 100% a isto, ainda consigo ter uma carreira a jogar?”

Com o tempo, as prioridades mudaram. A de Dan e Becca passou a ser serem pais. Depois de dificuldades, o sonho tornou-se realidade em 2020, com o nascimento da filha, JoJo.

No momento mais feliz, Becca decidiu perseguir o caminho do basquetebol como jogadora. Pela primeira vez teve sessões individuais com um treinador, algo que nunca fizera. Ainda em plena pandemia de COVID-19, surgiu a oportunidade de integrar o programa Athletes Unlimited, encorajada por Amber Nichols, antiga colega na Universidade de Richmond e GM da equipa da G League, os Capital City Go-Go.

Na semana do 6.º aniversário de casamento, a família viajou para Atlanta para os tryouts da liga profissional de basquetebol da Athletes Unlimited. Foi uma das selecionadas.

Rodeada de atletas com experiência profissional na Europa e ex-jogadoras da WNBA, Becca sentiu-se quase como uma criança num mundo novo. E tinha a família ao lado.

Chegar, ver, vencer e ficar em Barcelos

Aos 29 anos, e sem qualquer experiência profissional fora dos Estados Unidos, surgiu a oportunidade de representar o Basquete Clube de Barcelos. Tal como na Athletes Unlimited, a prontidão do marido foi crucial. A trabalhar remotamente desde 2020, Dan foi a voz de apoio aos sonhos de Becca, com JoJo sempre de mão dada.

“Desde o início ele apoiou todas as decisões. Foi sempre o primeiro a dizer: ‘Vamos’, sem hesitação”, diz Wann-Taylor, que vinha para o desconhecido, numa oportunidade que, normalmente, seria para uma jogadora de 22 ou 23 anos.

Antes do basquetebol, as preocupações eram todas com a família: encontrar escola para a filha, garantir casa para os três e assegurar que podia ter Dan e JoJo sempre por perto. Mais do que jogar, era jogar com a família ao lado, os que fazem bem e estiveram com ela nos momentos difíceis.

Em qualquer jogo do Basquete Clube de Barcelos, a ligação com a família salta à vista. Há sempre um abraço e um beijo antes e depois, uma conversa com Dan para receber feedback, uma brincadeira com a JoJo. Indispensável para o sucesso que tem tido em Barcelos.

“Quando cheguei, não sabia o que esperar, não sabia se teria qualidade para jogar aqui, sabendo o que esperam de uma jogadora norte-americana”, admite. Apesar dos receios, queria passar uma mensagem à filha: “nunca é tarde para ir atrás dos sonhos”. Mesmo que não resultasse, nada tiraria a coragem de uma família que foi atrás deles.

Na CN1 Feminina, Taylor foi uma máquina de duplos-duplos, com vários jogos acima de 40 pontos e 20 ressaltos, e foi fundamental para a equipa de Ricardo Lajas subir à Liga Betclic Feminina.

Já no principal escalão, as dúvidas eram as mesmas da época passada. A verdade é que, aos 31 anos, tem acumulado MVPs de jornadas e meses e, a duas jornadas do fim da fase regular, sairá, com quase toda a certeza, com o prémio de MVP da Liga Betclic Feminina, com médias de 26,5 pontos e 15,3 ressaltos por jogo.

“Sinto que posso jogar em Portugal até aos 40 anos. Não tenho o desgaste habitual de uma atleta de 31, adoro o processo de treino e sinto que estou a aprender e a crescer como jogadora.” A frase diz muito do espírito de Becca Wann-Taylor: nada por garantido, tudo apreciado, sempre a lutar para que continue a acontecer.

Em Barcelos encontrou casa. Uma cidade onde conhece as pessoas, onde se sente acarinhada, com colegas incansáveis. Mais uma família a juntar-se à de sempre.

“O modo como fui recebida em Barcelos, como receberam a minha família de braços abertos, significa tudo para mim.”

Se esta história mostra que há sonhos que ficam por realizar, também mostra os que nascem e renascem. Sozinhos conseguimos muito; com a companhia certa, somos muito mais fortes.

“Quero que a minha filha perceba que não há limites para o que podes alcançar, independentemente da idade e do que queres para a tua vida. Esse é o legado que quero deixar.”

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