O que muda para Neemias Queta com o regresso de Jayson Tatum
Mais espaço e menos bola para o português, que vê responsabilidade acrescida numa reta final da fase regular em que os Boston Celtics não podem contar com Nikola Vučević.
O primeiro cesto do jogo do regresso de Jayson Tatum foi um alley-oop para Neemias Queta. Aconteceu na sexta-feira à noite no TD Garden, ao fim de 298 dias de ausência da superestrela dos Boston Celtics e na mesma partida em que Nikola Vučević fraturou o dedo anelar direito, saindo para não mais regressar. Neemias entra assim nos últimos 20 jogos da época regular com responsabilidades reforçadas numa equipa que ocupa o segundo lugar na Conferência Este com um registo de 43-21.
O regresso de Tatum tem duas faces para o português. A positiva é imediata: o extremo é um excelente passador, com capacidade de encontrar o homem certo no momento certo, e vai criar ainda mais oportunidades para o gigante do Vale da Amoreira. A gravidade de Tatum — a atenção defensiva que atrai pelo simples facto de estar em campo — alarga os espaços em que Neemias opera. O lançamento exterior obriga as defesas a saírem do perímetro; o playmaking transforma situações de pick-and-roll em cestos fáceis perto do aro. Os primeiros minutos contra os Mavericks foram uma antevisão do que aí vem.
A outra face é igualmente previsível: com Tatum de regresso, a bola vai circular de forma diferente. A produção ofensiva de Neemias deverá reduzir-se. Não por perda de forma, mas por redistribuição natural de responsabilidades num plantel que voltou a ter dois criadores de alto nível em Tatum e Jaylen Brown. O português vai depender cada vez mais da sua capacidade de entrar no ressalto ofensivo e transformar segundas oportunidades em pontos.
No final do triunfo caseiro sobre os texanos, Tatum revelou um diálogo com Neemias dentro das quatro linhas:
«Tivemos uma pequena conversa durante o jogo, do género: “É a primeira vez que jogamos juntos de verdade.” Foi divertido. Partilhámos um momento. Ele ia-me dizendo coisas que estava a ver em campo e como podemos melhorar a nossa ligação daqui para a frente.»
Os dois já tinham mostrado sinais, em épocas anteriores, de que uma parceria produtiva era possível, mas a evolução de Neemias esta temporada permite que ambos beneficiem do 2-man game entre um passador de elite e um poste que se afirmou como um dos melhores da NBA na sua posição.
Frente aos Mavericks, Neemias terminou com 16 pontos e 15 ressaltos. Dois dias depois, no triunfo em Cleveland sobre os Cavaliers, o internacional luso foi parte do lance que fechou o jogo: recebeu um passe de Payton Pritchard no meio do pintado, atacou o cesto para comprometer a defesa dos Cavs e assistiu Tatum para o triplo que colocou Boston com 12 pontos de vantagem.
Entretanto, Vučević foi submetido a uma intervenção cirúrgica no sábado e tem uma ausência prevista de aproximadamente um mês, o que, na prática, significa que não deverá regressar à competição antes dos playoffs.
Luka Garza, terceiro poste da rotação, vai absorver os minutos do veterano montenegrino, mas a estrutura da equipa não muda: Neemias é titular incontestado numa fase em que os Celtics disputam o primeiro lugar do Este com os Detroit Pistons e os playoffs estão a pouco mais de um mês de distância.
Elogios de Atkinson e a corrida aos prémios individuais
A validação de Neemias não chegou apenas do campo. Antes do jogo de domingo em Cleveland, o treinador dos Cavaliers, Kenny Atkinson, foi direto quando questionado sobre as razões do sucesso dos Celtics sem Tatum. Para além de considerar que Derrick White é um dos cinco melhores jogadores da NBA, Atkinson disse que «Queta é, analiticamente, um dos 30 melhores da liga, provavelmente».
Os dados da NBA.com sustentam a afirmação e vão mais longe. Entre os jogadores com pelo menos 50 jogos disputados e uma média mínima de 20 minutos por jogo, Neemias regista o sétimo melhor defensive rating da liga (105.5), numa lista em que sete dos dez primeiros lugares pertencem aos campeões Oklahoma City Thunder. Em net rating, a posição é ainda mais alta: quarto lugar (+12.4), atrás apenas de Victor Wembanyama (+16.0), Shai Gilgeous-Alexander (+15.2) e Chet Holmgren (+13.8).
E num artigo de Mat Issa para o Opta Analyst, Neemias surge no quinto lugar em D-DRIP — a métrica defensiva proprietária do site — e como segundo classificado na corrida ao prémio de Most Improved Player, apenas atrás do base Collin Gillespie, dos Phoenix Suns. Issa considera ainda que Neemias é um dos seis nomes na corrida ao Defensive Player of the Year, o que o colocaria na linha de elegibilidade para uma das duas All-Defensive Teams. Estas métricas não determinam votos nem vinculam prémios, mas identificam o perfil de jogador que os analytics mais valorizam esta época e Neemias aparece, de forma consistente, nos dois vetores: impacto defensivo de elite, impacto global entre os melhores da liga.
Reta final é prova de fogo
Os Celtics têm pela frente 18 jogos, um calendário entre os mais exigentes da liga e a perspectiva de entrar nos playoffs como um dos dois primeiros classificados da Conferência Este. A semana começa já com dois testes de fogo fora de casa, frente às equipas com os dois melhores registos da NBA: terça-feira, em San Antonio, contra Victor Wembanyama e os Spurs; quinta-feira, em Oklahoma City, na visita aos campeões em título.
Neemias entra nessa fase com mais responsabilidade do que em qualquer outro momento da carreira: não como o poste que partilha minutos num roster profundo, mas como a peça central de um frontcourt que tem de aguentar a reta final da época regular e uma eventual longa campanha nos playoffs.



Como alguém dizia no outro dia, num dos programas de beat writers, o Celtics estão a uma lesão do Neemias de estragar a época. Isso explica o quão importante está a ser o seu impacto !