🏀 “Destino: Riga” – O «caso Rúben Prey»
Rick Pitino bloqueou a presença do internacional português no EuroBasket 2025, mas deu luz verde ao grego Lefteris Liotopoulos para integrar a preparação da sua seleção.
“Destino: Riga” é o diário de bordo da seleção portuguesa rumo ao EuroBasket 2025: treinos, decisões, jogos de preparação e muito mais, sempre com olhos atentos ao que se passa nas outras seleções. No final de cada edição, telegramas curtos com os principais destaques da atualidade. A missão é clara: contar tudo sobre o EuroBasket 2025.
Duas seleções, a mesma universidade, decisões opostas
Em fevereiro, Mário Gomes foi claro: Rúben Prey não iria estar no EuroBasket 2025. O selecionador nacional explicou que a Universidade de St. John’s, em Nova Iorque, e o seu treinador, Rick Pitino, não autorizavam a presença do extremo/poste português de 19 anos e 2,08 metros na fase final da prova. “Foram perentórios: nessa altura, nem pensar”, disse então o técnico, revelando que o Diretor Técnico Nacional, Nuno Manaia, tinha viajado aos Estados Unidos para tentar desbloquear o caso e regressado com uma recusa.
A Federação Portuguesa de Basquetebol tentou também, sem sucesso, obter autorização para que Prey participasse no Europeu Sub20, Divisão B, disputado este verão. A resposta voltou a ser negativa, inviabilizando qualquer presença do jogador nas seleções nacionais neste ciclo de preparação.
No entanto, a mesma universidade e o mesmo treinador abriram a porta a outro sophomore para viver uma experiência que foi negada a Prey. Lefteris Liotopoulos, base grego de 19 anos e uma das maiores promessas do basquetebol helénico, jogou o Europeu Sub20 - Divisão A, e integrou a preparação da seleção principal para o EuroBasket, antes de ser cortado da convocatória final.
Mesmo sem perspectiva real de entrar nos 12 de Vassilis Spanoulis, o jovem base teve acesso a treinos, jogos particulares e convívio diário com Giannis Antetokounmpo e outras figuras de topo do basquetebol grego, com “total apoio” de Pitino, como contou em entrevista ao portal Eurohoops:
“É algo com que sonhei desde muito novo. É uma verdadeira honra para mim — para qualquer miúdo, diria. Estar aqui com aqueles que acompanhei desde pequeno, que admiro e que tenho como modelos. O Giannis Antetokounmpo, por exemplo, é um dos melhores jogadores do mundo. É um momento mágico e estou a tentar viver cada minuto e retirar toda a experiência possível.”
“O coach Pitino veio a Heraklion ver-me (durante o Europeu de Sub20). Conversámos sobre isso e ele estava muito feliz. Claro que me deixou ir e disse para aproveitar, desfrutar e tirar tudo o que pudesse desta experiência. Que conselho me deu? Para não hesitar em nada. Não interessa que os outros sejam mais velhos — na verdade, todos são mais velhos do que eu — cada momento é uma oportunidade a meu favor e devo retirar dele toda a experiência que conseguir.”
A ligação grega e o contraste português
Liotopoulos será sophomore em 2025-26, tal como Rúben Prey, e também tem compromissos universitários no arranque da época. Ainda assim, teve a oportunidade de jogar o Europeu de Sub20 e viver um verão de aprendizagem com a seleção principal da Grécia. A explicação pode estar nas relações de Pitino com o basquetebol helénico.
Lenda viva do jogo, o treinador foi selecionador da Grécia em 2021 e orientou o Panathinaikos em duas épocas (2018-19 e 2019-20), criando laços com figuras influentes da federação e do panorama grego. Essa proximidade, alimentada por anos de colaboração, poderá ter facilitado um entendimento: dar experiência internacional a uma promessa local, sem colocar em risco os planos de St. John’s.
No caso de Portugal, o cenário era outro. Rúben Prey teria praticamente garantida a presença na lista de Mário Gomes para o EuroBasket, ainda mais após a lesão de Gonçalo Delgado, que deixou a seleção sem uma das suas principais referências no frontcourt. O talento e o estatuto do poste formado no Paço de Arcos, Clube Atlético de Queluz e Joventut de Badalona não o colocavam como simples aprendiz, mas como peça real de rotação, capaz de acrescentar qualidade e versatilidade à equipa, como aconteceu, de resto, numa das janelas de qualificação.
NIL, risco e decisões caso a caso
Todos teriam a ganhar com a presença de Rúben Prey no EuroBasket. A Seleção Nacional, pela qualidade que o extremo/poste de 2,08 metros acrescentaria ao jogo interior. O próprio jogador, pela oportunidade de competir com alguns dos melhores basquetebolistas do planeta. E até a universidade, pelo prestígio de ver um dos seus atletas valorizado no maior palco europeu de seleções.
Se a recusa de St. John’s é ancorada pelo risco de lesão ou pela proteção do investimento ligado aos acordos NIL [Name, Image and Likeness], então a comparação com o caso de Liotopoulos torna-se inevitável. Por que razão um sophomore grego, no mesmo campus, teve luz verde para competir pelos Sub20 e integrar a preparação da seleção A, enquanto o português recebeu um “não” peremptório?
A posição da Federação Portuguesa de Basquetebol é inequívoca: tentou desbloquear a situação, mas esbarrou sempre na mesma resposta. Nuno Manaia, Diretor Técnico Nacional, explicou o caso ao Borracha Laranja:
“Nos contactos que tivemos com St. John’s, um deles presencial nos EUA, a universidade disse-nos sempre que não dispensava o Rúben. Conhecemos outros casos iguais pela Europa fora, pelo que não controlamos esta situação. É uma nova realidade. A NCAA não está sob a égide da FIBA, a universidade não é obrigada a dispensar o atleta. Para nós, neste verão, é um assunto encerrado. Continuaremos a seguir o Rúben de perto e a manter o contacto com ele e com a universidade.”
NCAA e seleções: fronteiras porosas
O caso de Prey não é único. Espanha viu Baba Miller ser impedido pela universidade de Cincinnati de disputar o EuroBasket. Outros europeus na NCAA esbarram, aqui e ali, na interseção entre calendários, proteção de ativos e a nova economia dos NIL, que reforçou o poder e a responsabilidade dos programas sobre a carreira e a imagem dos atletas.
Mas há também exemplos no sentido contrário. Liotopoulos é apenas o mais recente caso de uma universidade que liberta um atleta para um compromisso internacional sénior. A decisão raramente é apenas administrativa. Envolve relações pessoais, a percepção da importância do jogador para o programa e, muitas vezes, o histórico do treinador com a federação em causa.
Para países com menor tradição e influência, como Portugal, a equação é sempre mais difícil. O resultado fala por si: um dos maiores talentos nacionais ficou em Nova Iorque, longe de um palco que poderia acelerar a sua maturação competitiva e dar visibilidade ao próprio programa universitário. No mesmo campus, outro jovem europeu teve precisamente essa oportunidade, com a bênção de Rick Pitino.
Quando vestiu a camisola da seleção sénior pela primeira vez, Rúben Prey disse em entrevista à SportTV que era uma honra representar Portugal e confessou o desejo de partilhar palco com o seu ídolo, Giannis Antetokounmpo. Escolheu até o número 34 na seleção por causa do “Greek Freak”. Um ano e meio depois, o EuroBasket podia ter cumprido esse desejo. Com a recusa de St. John’s, a oportunidade ficou adiada. Giannis estará em campo. Prey acompanhará à distância.
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🇱🇻 Letónia com plantel fechado
Os coanfitriões do EuroBasket e adversários de Portugal no Grupo A anunciaram os 12 escolhidos para atacar a competição em casa. Kristaps Porziņģis lidera uma equipa que volta à prova após ausência em 2017 e que traz na bagagem o 5.º lugar histórico no Mundial 2023. Luca Banchi conta ainda com o talento criativo de Artūrs Žagars e a experiência dos irmãos Dāvis e Dairis Bertāns.
🇷🇸 Sérvia confirma plantel de luxo
Com Nikola Jokić à frente de um grupo recheado de estrelas, a Sérvia, adversária de Portugal no Grupo A, chega a Riga como candidata assumida ao ouro. Svetislav Pešić fechou a lista de 12 após um percurso imaculado de 7 vitórias em 7 jogos de preparação. Ao lado do 3x MVP da NBA estarão nomes como Bogdan Bogdanović, Vasilije Micić e Nikola Milutinov. Vice-campeões europeus em 2009 e 2017, e finalistas no Mundial 2023, as “Águias” querem finalmente trazer a coroa continental para Belgrado.
🇹🇷 Şengün lidera plantel da Turquia
Alperen Şengün encabeça a lista final da Turquia, adversária de Portugal no Grupo A, acompanhado por veteranos de peso como Cedi Osman, Shane Larkin e Ömer Yurtseven. A equipa chega a Riga embalada por três vitórias consecutivas em jogos de preparação, depois de um arranque mais tremido. Sem alcançar uns quartos de final desde 2009, a Turquia aposta agora numa geração equilibrada entre talento jovem e experiência para voltar a disputar os lugares cimeiros.
🇩🇪 Wagner e Schröder lideram campeões do mundo
A Alemanha confirmou os 12 nomes para o EuroBasket, com Dennis Schröder, MVP do Mundial 2023, e Franz Wagner como cabeças de cartaz. No primeiro torneio sob comando de Álex Mumbrú, os germânicos chegam com moral elevado depois de vitórias consecutivas sobre a campeã europeia Espanha. Campeões do mundo e terceiros no EuroBasket 2022, querem agora transformar consistência em mais um título continental.