VHS #6 | Neemias Queta: de papel limitado ao protagonismo ofensivo
Começou a época focado no "jogo sujo" – bloqueios, ressaltos ofensivos, ameaça no lob. Quarenta jogos depois, o português dos Boston Celtics mostra ser também uma ameaça ofensiva individual.
Rotulado de especialista defensivo, Neemias Queta arrancou a época 2025-26 determinado a ajudar os Boston Celtics a ganhar o possession game também no ataque. Bloqueios diretos para criar vantagens, ressaltos ofensivos para gerar segundas oportunidades, ameaça constante no lob para colapsar defesas. O trabalho invisível que transforma ataques. A performance histórica de 20 ressaltos contra os Denver Nuggets – 10 ofensivos, 10 defensivos, em menos de 25 minutos, algo que nenhum jogador NBA tinha conseguido – ilustra bem essa filosofia. Mas com 40 jogos disputados em 42 possíveis, sempre como titular, o poste português de 26 anos está a provar que a sua contribuição vai muito além disso.
Os Celtics têm a segunda melhor eficiência ofensiva da NBA (121.4 pontos por 100 posses de bola), apesar de terem perdido Jayson Tatum, Kristaps Porziņģis, Jrue Holiday, Al Horford e Luke Kornet na offseason. E o gigante do Vale da Amoreira tem sido peça fundamental nesse ataque. Não apenas pelo que facilita aos colegas, mas cada vez mais pelo que consegue criar sozinho.
Com 3.0 ressaltos ofensivos por jogo, Queta lidera a equipa nessa estatística e ajudou os Celtics a saltarem do 18.º para o 6.º lugar da NBA em offensive rebound rate. O treinador Joe Mazzulla tem enfatizado desde o arranque da época a importância de “criar mais posses que o adversário”, e os bloqueios diretos de Queta criam separação consistente – uma arma que o treinador tem explorado sistematicamente. Quando Queta sobe para bloquear, as defesas adversárias têm de tomar decisões: subir ao nível do bloqueio e deixar o roll livre, ou afundar (drop) e permitir o pull-up ao portador da bola.
Mas a evolução ofensiva do internacional português vai além do trabalho de facilitador. Na primeira metade da fase regular da temporada, Queta mostrou três áreas de desenvolvimento que aumentam significativamente o seu valor ofensivo: tomada de decisão no short roll, utilização do push shot como nova arma, e criação de vantagens no um-contra-um a partir do drible.
Ler a defesa no short roll
No short roll após bloqueio direto, Queta tem demonstrado leituras cada vez mais refinadas. Em vez de rolar sempre para o aro e forçar finalizações difíceis, pára no topo do pintado, lê a rotação defensiva, e toma a decisão correta: passar para o atirador livre ou encontrar o colega que corta no lado fraco.
A taxa de acerto de 65.9% (4ª melhor da NBA) beneficia destas decisões. Não são apenas lobs e putbacks. São finalizações pensadas, executadas no momento certo, a partir de posições vantajosas criadas pela sua própria leitura do jogo.
O floater como resposta
A segunda novidade é o push shot. Queta está a desenvolver um floater com a mão direita que lhe permite finalizar por cima de defesas que colapsam, sem ter de forçar contacto debaixo do aro. É uma arma particularmente útil contra equipas que protegem bem o cesto ou quando enfrenta postes mais altos.
Este recurso adiciona imprevisibilidade ao seu jogo. As defesas têm de respeitar a capacidade de Queta finalizar na meia distância, o que por sua vez abre mais espaço para as penetrações dos ballhandlers a partir do perímetro.
Atacar o aro a partir do drible
Talvez a evolução mais surpreendente seja a capacidade de criar vantagens a partir do drible. Neemias tem atacado o cesto com mais confiança e, sobretudo, mostrado uma capacidade invulgar de finalizar com ambas as mãos.
A utilização da mão esquerda – tradicionalmente a mão fraca – para finalizar em layups ou semi-ganchos do lado esquerdo mostra trabalho específico. São lances de alta percentagem, executados com segurança, que aumentam a sua eficiência ofensiva. A taxa de acerto nos lances de dois pontos (66.9%, 4.ª melhor em toda a NBA) reflete essa melhoria técnica.
Com 26 vitórias e 16 derrotas, os Celtics agradecem esta versatilidade do internacional português de 2,13 metros. Ainda sem Tatum, e com uma estrutura radicalmente diferente da época passada, precisam que Neemias Queta continue a evoluir. Não apenas como o poste que facilita, mas também como aquele que, quando necessário, consegue criar e finalizar sozinho.
A evolução nas três áreas – tomada de decisão no short roll, push shot, e driving game com ambas as mãos – transforma Queta numa ameaça ofensiva mais completa. Começou a época preocupado em ajudar. Quarenta jogos depois, está a provar que também pode ser protagonista.



