O desporto é, habitualmente, uma reflexão imperfeita da nossa sociedade. Tal como na vida, também no basquetebol o inesperado bate à porta de todos, por boas e más razões, alterando drasticamente um caminho que parecia certo. Devido a problemas pessoais, lesões, falta de motivação, entre outros fatores, ficamos privados de vislumbrar a grandeza contínua daqueles que, durante a sua vida, mostraram que eram capazes de o fazer.
Os what ifs da NBA existem em grande quantidade, neste caso, de forma “natural”. Brandon Roy tinha nas mãos o futuro desportivo da cidade de Portland, encantando o mundo basquetebolístico com o seu talento, mas os seus “joelhos de Aquiles” trataram de interromper uma carreira que tinha tudo para chegar a patamares únicos.
Primeira paragem, Seattle
Brandon Dawayne Roy nasceu a 23 de julho de 1984, em Seattle, Washington, e foi lá que deu os seus primeiros passos no basquetebol, mostrando muito cedo dotes “naturais” para a modalidade. Em Garfield High School, “B-Roy” era considerado um dos melhores jovens jogadores no estado de Washington e o seu nome era constantemente falado para o Draft da NBA de 2002, numa altura em que ainda era possível fazer a transição direta da secundária para a melhor liga de basquetebol do mundo.
Apesar da elegibilidade e de, inicialmente, se declarar para o Draft de 2002, Roy optou por tentar a sua sorte no basquetebol universitário, mas o caminho para lá chegar não foi tão fácil como parecia quando tinha a “borracha laranja” nas mãos.
Com tremenda facilidade para o jogo, Brandon tinha alguns problemas de aprendizagem na escola, que o levaram a repetir os exames de admissão à universidade por quatro ocasiões, acabando, à quarta tentativa, por conseguir o que tanto desejava, tornando-se no primeiro membro da família (pais e irmão mais velho) a estudar no ensino superior.
Permanecendo em Seattle, foi na Universidade de Washington que Brandon Roy procurou desenvolver as suas capacidades. O primeiro ano não foi o mais fácil para o jovem de 18 anos, somando apenas 13 jogos pelos Huskies e lidando com alguns problemas nos joelhos, que viriam a ser um passado bem presente no futuro.
Após a terceira temporada em Washington, na qual jogou como “sexto homem”, o nome de “B-Roy” foi apontado ao Draft de 2005. Com o colega Nate Robinson a declarar-se nesse ano, Roy preferiu permanecer na NCAA, vendo a época sénior como oportunidade para ser titular e subir posição no Draft de 2006.
Esta foi a melhor decisão que Brandon Roy poderia ter tomado, assumindo-se, sem contestação, como a estrela dos Huskies, com médias de 20,2 pontos, 5,6 ressaltos e 4,1 assistências, demonstrando, num palco maior, toda a versatilidade ofensiva que lhe era reconhecida em Garfield, sendo eleito Jogador do Ano da Pac-10.
Futuro da NBA: Portland, Oregon
No Draft de 2006, os Portland Trail Blazers procuravam reestruturar a equipa, depois de anos conturbados na sequência de um período de relativo sucesso, com jogadores como Steve Smith, Scottie Pippen e Rasheed Wallace no comando no início dos anos 2000.
Procurando começar de novo e afastar-se da alcunha “Jail Blazers”, a equipa de Oregon apostou tudo no Draft, com diversas trocas. Tendo originalmente a 4.ª pick (Tyrus Thomas), os Blazers conseguiram a 2.ª pick do Draft, LaMarcus Aldridge, numa troca com os Chicago Bulls, e a 6.ª pick, numa troca com os Minnesota Timberwolves, ficando com um tal de “Brandon Roy”…
O futuro parecia traçado para os Portland Trail Blazers, que tinham em Aldridge e Roy pilares de futuros sucessos da franchise. Na primeira temporada da dupla em ação, o sucesso coletivo não era esperado, com um plantel repleto de jovens, mas a qualidade de “B-Roy” abrilhantou os pavilhões da NBA.
O primeiro jogo de Roy no palco das estrelas foi, curiosamente, na cidade natal, Seattle, frente aos SuperSonics, marcando 20 pontos à frente de família e amigos. Uma lesão no calcanhar esquerdo afetou-o nos primórdios da época, deixando-o de fora durante 20 jogos.
Apesar da ausência, “B-Roy” voltou em força, com médias de 16,8 pontos, 4,4 ressaltos e 4,0 assistências em 2006/07, valendo-lhe o prémio de Rookie of the Year, ficando apenas a um voto da unanimidade.
Com um registo de 32–50, os Trail Blazers entraram na Draft Lottery de 2007 com hipóteses de uma das primeiras escolhas. Brandon Roy foi o escolhido para representar a franchise e acabou por ser talismã da sorte, pois Portland ficou com a 1.ª escolha do Draft de 2007, ano em que dois jogadores eram vistos como futuras estrelas da NBA: Greg Oden (Ohio State) e Kevin Durant (Texas). Os Blazers apostaram no poste de Ohio State.
O trio Aldridge–Roy–Oden era visto por muitos analistas como o futuro da liga, com Roy e Oden como principais figuras. Com a lesão de Greg Oden na pré-época, que viria a perturbar toda a carreira (assunto para outra edição de What if), os Trail Blazers voltaram a falhar os playoffs, mas assistiram ao desenvolvimento claro de Brandon Roy como ator principal no Rose Garden, com médias de 19,1 pontos, 4,7 ressaltos e 5,8 assistências.
Na segunda época na NBA, “The Natural”, alcunha dada por Brian Wheeler (narrador dos Trail Blazers), foi escolhido para o All-Star Game de 2008, tornando-se no primeiro All-Star de Portland desde 2001 (Rasheed Wallace), cimentando o estatuto de futuro da liga.
No meio do sucesso, o início do calvário
Antes do início de 2008/09, Brandon Roy submeteu-se a um procedimento para retirar cartilagem que causava irritação no joelho esquerdo, conseguindo estar pronto para a estreia em Los Angeles, frente aos Lakers de Kobe Bryant, um dos seus ídolos.
O arranque foi de luxo para o shooting guard, com um buzzer-beater frente aos Houston Rockets a 6 de novembro e, um mês depois, a 18 de dezembro, Roy assinou o máximo de carreira, 52 pontos, numa exibição de luxo frente aos Phoenix Suns.
Foram 14/27 de campo, 19/21 da linha de lance livre, 5/7 de três, 6 assistências, 5 ressaltos e 0 turnovers, numa demonstração pura de classe, versatilidade e “naturalidade” do jogo de “B-Roy”.
Reconhecido pela qualidade no clutch, Roy tinha já no pecúlio 24 lançamentos que empataram ou deram vitórias aos Blazers nos últimos 35 segundos de jogo, isto apenas em dois anos e meio de carreira profissional. Médias de 22,6 pontos, 4,7 ressaltos e 5,1 assistências valeram-lhe presença no All-Star Game 2009 e a inclusão na All-NBA Second Team, afirmando-se como o segundo melhor shooting guard da liga, atrás do ídolo Kobe Bryant, que afirmou, em 2010, que Brandon Roy era “o jogador mais difícil de defender na Conferência Oeste” e que “B-Roy” não tinha “qualquer fraqueza no seu jogo”.
Para além do sucesso individual, 2009 marcou também o regresso dos Trail Blazers aos playoffs desde 2003, com 54–28, garantindo o 4.º lugar no Oeste e um duelo frente aos Houston Rockets na 1.ª ronda, num ano em que, apesar dos problemas físicos de Greg Oden, os Blazers adicionaram talentos europeus como o espanhol Rudy Fernández e o francês Nicolas Batum.
A primeira experiência nos playoffs não foi a melhor, com derrota por 4–2, mas o futuro continuava a parecer certo e repleto de sucessos para uma franchise importunada por azares ao longo de décadas.
A época de 2009/10 começou com diversas lesões para os Blazers, mas com Roy a manter o nível, motivado por assinar um mais do que merecido max contract, válido por quatro temporadas e com objetivos claros de levar a equipa mais longe nos playoffs.
Voltando a ser escolhido para o All-Star Game pelo terceiro ano consecutivo, Brandon Roy não pôde participar devido a lesão na perna direita. Já com os playoffs à vista, “B-Roy” lesionou-se a 11 de abril de 2010, desta feita no joelho direito. Após cirurgia ao menisco, esperava-se que falhasse pelo menos a 1.ª ronda, mas a vontade de ajudar a equipa levou-o a regressar no Jogo 4 frente aos Phoenix Suns, mostrando debilidades físicas. Portland caiu novamente na 1.ª ronda, por 4–2.
Em 2010/11, a época começou de forma relativamente normal, mas após o primeiro mês era visível que os joelhos que já tinham dado sinais na Universidade de Washington traíam a projeção natural de uma futura lenda da NBA.
No início de 2011, Roy foi operado aos dois joelhos, regressando a 25 de fevereiro, fazendo grande parte da época a partir do banco.
Naquela que seria a última ida aos playoffs, Brandon Roy tentou levar os Trail Blazers à 2.ª ronda, mas foram eliminados pelos futuros campeões de 2011, os Dallas Mavericks, novamente por 4–2, numa série em que Roy começou todos os encontros no banco, com média de 23 minutos e uma versão de si mesmo irreconhecível face ao jogador versátil, atlético e confiante que contagiava o Rose Garden.
Antes do início de 2011/12, e com apenas 27 anos, Brandon Roy anunciou, de forma inesperada, o fim da carreira, revelando que os joelhos tinham degenerado de tal forma que restava pouca cartilagem entre os ossos. De um momento para o outro, um atleta sem fraquezas em campo mostrava que o basquetebol é, realmente, um espelho da vida, em que tudo pode desaparecer num piscar de olhos, sem aviso.
“B-Roy” ainda tentou um regresso em 2012/13, assinando pelos Minnesota Timberwolves, que tinham como principais estrelas Kevin Love e um jovem Ricky Rubio. Depois de utilizar o 7 em Portland, Roy voltou a usar o 3 que brilhara na Universidade de Washington, mas disputou apenas 5 jogos na fase regular e, no fim da época, retirou-se de vez da NBA, aos 28 anos.
O legado de uma curta “lenda”
Após o final da carreira como jogador, Brandon Roy decidiu, em 2016, assumir o cargo de treinador principal da Nathan Hale High School, em Seattle, treinando, entre outros, futuros jogadores da NBA como Michael Porter Jr. (curiosamente outro atleta que, infelizmente, poderá ter trajetória similar à de Roy).
Em março de 2017, recebeu o prémio Naismith National High School Coach of the Year, depois de uma temporada perfeita, com 29–0, regressando depois ao local onde tudo começou, Garfield High School, para assumir o comando da sua antiga escola.
Apesar de uma carreira incompleta, Brandon Roy assume que está feliz com as experiências, dizendo que “apesar de tudo, tive a possibilidade de ter aqueles primeiros anos, ao contrário de outros, como Greg Oden, que nunca os tiveram”. Estas declarações e modo de estar representam muito do que Roy apresentou dentro e fora do campo: classe e gratidão pelos momentos vividos.
No dia em que celebra o 38.º aniversário, “The Natural” fica para sempre na memória de quem teve o privilégio de o ver no auge e, apesar de ter poucas hipóteses de entrar no Hall of Fame, está, eternamente, no coração de uma geração.
Parabéns, B-Roy.