Sotaque português no All-Star da NBA
Jaylen Brown elogiou Neemias Queta, e Mery Andrade fez história como a primeira mulher numa equipa técnica de um All-Star Game no fim-de-semana que confirmou Portugal na liga norte-americana.
O All-Star Weekend serviu de moldura a dois momentos distintos mas convergentes para o basquetebol português. Neemias Queta, titular em 50 dos 51 jogos disputados esta época, chegou ao último bloco da temporada com máximos de carreira em todas as categorias estatísticas principais e com o reconhecimento público de quem joga ao seu lado. Mery Andrade, treinadora adjunta dos Toronto Raptors, tornou-se a primeira mulher de sempre a integrar uma equipa técnica num All-Star Game da NBA.
Jaylen Brown: «Desafiámos Neemias a elevar o nível»
Durante o All-Star Weekend, em resposta a uma pergunta do jornal A Bola, Jaylen Brown não se limitou a elogiar Neemias Queta e explicou parte do processo: «Nós desafiámos o Neemy a elevar o seu nível e acho que ele o fez. Tem sido muito consistente. Perante o que lhe pedimos e o que ele tem produzido, estou extremamente orgulhoso do que ele tem conseguido alcançar. Estou ansioso por vê-lo subir ainda mais de nível nesta segunda parte da época. Mas ele tem mais potencial e eu quero extrair isso dele.»
A leitura não ficou confinada ao único representante dos Boston Celtics no All-Star Game. Jalen Johnson, dos Atlanta Hawks e outro dos All-Stars desta edição, confirmou a perspetiva de fora: «É um bom jogador. Obviamente, é uma presença gigante na área pintada. Está a fazer uma excelente época.»
Os números sustentam as palavras. Na quinta época na NBA, Neemias soma médias de 9.7 pontos, 8.3 ressaltos, 1.5 assistências e 1.3 desarmes de lançamento por jogo — todos máximos de carreira.
Os Celtics têm um registo de 35-19, o segundo melhor da Conferência Este, e o terceiro melhor net rating da liga. O que deveria ser um ano de transição — sem Jayson Tatum e com um plantel remodelado — tornou-se numa candidatura às Finais da NBA. Neemias é parte central desse sucesso e o último terço da época, com o quinto calendário mais difícil da liga, o regresso iminente de Tatum e a integração de Nikola Vučević, vai exigir ainda mais ao internacional português.
Mery Andrade: história no banco, lágrimas na zona mista
Neemias não passou despercebido apenas entre jogadores. Em declarações ao jornal O Jogo, ainda antes do All-Star, Mery Andrade também falou do poste dos Celtics e projetou-lhe um futuro que, há dois anos, seria impensável: «Um All-Star para ele não é impossível. Se continuar a crescer como nos últimos dois anos, não vejo porque não.» A adjunta dos Raptors contou ainda que outros treinadores da liga lhe enviam mensagens após bons jogos do gigante do Vale da Amoreira: «Às vezes mandam-me: ‘Your boy, your boy‘. Na brincadeira, respondo sempre: ‘Sim, vocês estavam a dormir, não o foram buscar, agora olha’.»
Mas o fim-de-semana de Los Angeles também foi sobre ela. Mery Andrade, a quinta mulher a tornar-se adjunta de uma equipa NBA quando chegou a Toronto em 2023, integrou a equipa técnica da Team World no All-Star Game de domingo e tornou-se a primeira mulher a ocupar esse lugar na história do evento.
A dimensão do momento ficou evidente nas palavras que encontrou — e nas que lhe faltaram — na zona mista do Intuit Dome, casa dos Clippers, ao jornal A Bola:
«Estou toda arrepiada. Foi incrível. Eu tinha imaginado como podia ser, mas isto superou qualquer expectativa. Quando se entra e vê All-Star em todo o lado, e as luzes, neste que é o melhor pavilhão nos EUA, o coração já acelera. Depois, quem é que está ali ao lado? A Michelle e o Barack Obama, que vieram ver o jogo… Mais à frente, o Magic Johnson. Estava quase a chorar.»
Quase. Porque as lágrimas vieram a seguir, quando a conversa chegou à mãe:
«Vim de uma ilha super-pequena onde nasci, em Cabo Verde, fui para Portugal, fiz a universidade nos EUA, joguei aqueles anos todos em Itália. Depois voltar para os EUA, começar tudo do zero… nada disto teria acontecido se não fossem os sacrifícios que a minha mãe e a minha família fizeram. Eu nunca vou conseguir agradecer à minha mãe os esforços que ela e a minha família fizeram para eu conseguir estar aqui. E continuam a fazer. Os sacrifícios que eu fiz para jogar e como treinadora fizeram-me perder parte da minha vida. O crescimento dos meus sobrinhos, dos filhos dos meus primos... Mas quando vou para casa eles arranjam sempre maneira de me fazer viver todos os momentos que vou perdendo. E isto é para eles.»
O reconhecimento já existia dentro da organização dos Raptors. Darko Rajaković, treinador principal, não teve dúvidas quando questionado por A Bola sobre a adjunta: «A Mery é uma das melhores treinadoras com quem já trabalhei. É um ser humano extraordinário. Preocupa-se com os jogadores, trabalha imenso e é muito dedicada. O céu é o limite para ela. Consigo vê-la perfeitamente, um dia, a ser treinadora principal nesta liga também.» Scottie Barnes, uma das figuras maiores da equipa canadiana, reforçou: «A Mery é apaixonada por basquetebol e traz isso para a nossa equipa todos os dias. É muito específica nos pequenos detalhes. Está sempre a gritar do banco, está sempre a tentar alertar-nos sobre essas pequenas coisas.»
Antes de chegar à NBA como treinadora adjunta, Mery Andrade construiu um percurso sólido dentro de campo. Foi uma de duas portuguesas a jogar na WNBA, a par de Ticha Penicheiro, representando as Cleveland Rockers e as Charlotte Sting ao longo de quatro temporadas, depois de ter passado pelo basquetebol universitário nas Old Dominion Monarchs. Como treinadora, começou no circuito universitário, passou pela G League — nos Erie BayHawks e nos Birmingham Squadron — e chegou aos Raptors em 2023/24.
Na madrugada de segunda-feira, com a emoção ainda fresca, Mery deixou uma frase que sintetiza tudo: «Quando estou em certos ambientes, não estou a fazer isto só por mim: estou a fazer pela próxima mulher, por um país.»
Dois portugueses, uma confirmação
O All-Star Weekend de 2026 não terá sido o mais memorável, mas para o basquetebol português foi um ponto de confirmação. Neemias Queta chega ao último terço da época como peça fundamental de uma das melhores equipas da NBA, reconhecido por colegas e adversários, com uma campanha de playoffs no horizonte e a exigência de quem acredita que há ainda mais para dar. Mery Andrade regressa a Toronto com um feito histórico no currículo e o impulso de quem sabe que o caminho que está a abrir não é só seu.




