“Slim Reaper” no deserto: O encaixe de Kevin Durant em Phoenix
O maior evento da última semana de trocas é também um dos mais sonantes negócios da história da NBA. Contam-se com as mãos as instâncias de jogadores deste calibre serem incluídos nestes negócios a meio de época e Kevin Durant, um dos 15 melhores jogadores de sempre na NBA, foi trocado para se juntar a Devin Booker, Chris Paul e DeAndre Ayton no Arizona.
As repercussões na conferência Oeste são imediatas. Quando se aplica o conceito de “portabilidade” em basquetebol, não há provavelmente um jogador no panteão mais fácil de encaixar em qualquer sistema: Durant é uma máquina de pontos mesmo sem necessidade de dominar a bola, a ameaça da sua presença é o suficiente para causar erros defensivos e é eficaz a qualquer distância. Isto sem mencionar que se encontra no meio de uma das suas melhores épocas da carreira ao nível do impacto defensivo – o que facilita a parceria com Ayton, um grande downgrade defensivamente face a Claxton.
A convergência com o estilo dos Suns
Há também características do lado de Phoenix que imediatamente vão de acordo ao estilo de jogo que o próprio KD procura. Por um lado, Durant tem desenvolvido a sua capacidade de passe e movimentação de bola; Phoenix, por sua vez, segundo o tracking da NBA, está no top-4 em Potenciais Assistências e no mais pequeno ratio entre o número de passes e o número de assistências – apenas Golden State, uma casa que em tempos Kevin escolheu em parte pelo seu estilo de basquetebol, também se encontra no top-4 em ambos.
Por outro lado, para bem ou para o mal, Phoenix reforça a sua estratégia de falta de ataques diretos ao cesto e procura de um jogo mais à base de lançamentos de média distância. A dieta de lançamentos de Durant é uma versão mais extremada – e mais eficiente – da que os Suns já têm vindo a fazer.
Esta convergência tem uma consequência prática: muitas das ações ofensivas que os Suns já executam estão exatamente à procura dos tipos de oportunidades que o próprio Durant mais privilegia.
Com todos os principais jogadores disponíveis, Phoenix gosta de jogar com Devin Booker na wing oposta à que Paul está a operar, sempre disponível para atacar rapidamente uma defesa desequilibrada pela ação inicial. Agora, os efeitos de ter Kevin Durant como parte dessa primeira ação com CP3 ou ser ele o jogador pronto a receber e atacar o espaço gerado vão esticar muitas defesas para além das suas capacidades.
Vale a pena ver jogadas específicas utilizadas durante esta época no qual a mera substituição de um dos seus membros por Kevin Durant são imediatamente colocadas em modo turbo.
O uso de staggered screens em Phoenix consiste tipicamente num bloqueio inicial por um jogador que consiga escapar para um lançamento de perímetro, enquanto o segundo bloqueio é normalmente Ayton, pronto para um corte direto para o cesto.
Nos exemplos acima, Cam Johnson e Mikal Bridges eram ignorados e dado todo o espaço possível para o triplo, enquanto a defesa se focava em seguir Ayton e proteger o interior. Esta decisão pode provar-se muito menos óbvia quando se tratar de um lançamento aberto de Kevin Durant. No fundo, DeAndre, que na presente época tem tido uma eficácia ofensiva aquém das expectativas, está prestes a ter as finalizações mais fáceis da sua carreira se estiver disposto a cortar de forma agressiva para o cesto.
A versatilidade e tamanho extra também permitem a Durant agir igualmente como um base ou como um poste em diferentes momentos de bloqueio. Ele pode forçar defesas a cometer erros de decisão após um ghost screen que funciona como distração inicial:
Ou pode perfeitamente abrir espaço a uma das outras estrelas fora da bola. E sendo ele próprio uma ameaça – umas boas ordens de magnitude acima do Landale nesse aspeto – não se pode deixar um defensor em drop ou focar apenas em impedir o lançamento do outro lado:
Os Suns parecem estar a usar Spain Pick and Rolls menos frequentemente esta época, mas a ideia de usar Durant para o backscreen pode facilmente levar a que os dois defensores acabem por se comprometer ao mesmo jogador quando ele e Ayton se cruzam no pintado.
Pensemos agora num hypothetical: um bloqueio direto no qual não há ninguém no lado forte da jogada (empty side pick and roll). Vemos que no passado existiam sempre opções que as defesas podiam ignorar e era possível aos defensores atribuídos a Paul e Ayton dar uns passos em direção ao interior, já que nenhum deles era provável de tentar lançar antes da linha de lance livre.
Aqui vamos para além da ideia de Durant no lado fraco ser um problema que a defesa não pode tão facilmente ignorar como Torey Craig ou Josh Okogie. Porque se o bloqueio direto for entre Paul e Durant, isso expande o tipo de problemas com que a defesa se tem de preocupar – especialmente se Booker estiver a um passe de distância above the break.
Claro que uma defesa pode ter a versatilidade para enviar ajuda após o bloqueio e ter o resto das rotações em perfeita sintonia, forçando os Suns a rodar a bola até ao canto mais distante. Isto acaba por ser a melhor opção se Craig ou mesmo TJ Warren forem os recetores finais. Mas se nessa posição estiver Damian Lee, que tem um faro natural para essas chances e está a lançar o que parece ser 170% dos cantos, a história inverte-se depressa.
A parte mais poética é que as jogadas mais usadas para criar lançamentos para Mikal Bridges são perfeitas para o jogador pelo qual ele foi trocado, já que muitas eram desenhadas para gerar tentativas de midrange.
Estas jogadas para Bridges começavam tipicamente partindo de uma posição inicial de horns, onde o extremo recebia a bola do outro lado de um bloqueio de Ayton na linha de lance livre. Havia outras combinações iniciais, mas convergiam quase sempre para Ayton a executar um bloqueio para Bridges atacar a mesma zona. Só que em vez de lançar 44% em pull ups de dois pontos, Kevin Durant tem uma absurda eficácia de quase 60%.
Dando um passo atrás, é fácil sentir que se está a analisar em demasia algo que é no fundo simples: um talento supremo que consegue complementar qualquer equipa juntou-se a uma máquina que tem demonstrado ser supremamente bem oleada quando não está a batalhar lesões durante um ano inteiro.
Ainda estamos longe de saber quais as repercussões que o fim desta infame iteração dos Brooklyn Nets irá ter nos playoffs dos próximos anos. Mas se os Sixers estão mais completos que nunca e se o par Luka Dončić–Kyrie Irving tornou-se imediatamente o melhor duo de bases no planeta, o potencial ofensivo dos Suns aliados a Kevin Durant é talvez o mais alto de todos.
E não é preciso memória muito longa para recordar o que aconteceu da última vez que uma equipa que já tinha chegado às finais juntou KD ao seu plantel.
Desfrutemos das festividades All-Star porque podemos não estar prontos para o que nos espera do outro lado.