Scouting report: Matas Buzelis
O valor posicional é inegável para um draft parco em extremos de qualidade, e torna-se ainda maior quando olhamos para aquilo que é a tape defensiva de Matas, com o seu combo de defesa versátil e protecção de cesto. Ofensivamente, para alguém que figurará como uma peça terciária a ampliar/finalizar vantagens, o seu pacote traz alguma intriga.
BIO
ANÁLISE DETALHADA
Atletismo
Extremo versátil, com limitações a nível da força e agilidade no espaço, mas que compensa com tamanho e um poder de impulsão que surpreende.
Buzelis é um big wing que apresenta um combo interessante de altura + envergadura, 2,11 metros e 2,09 m, respetivamente. Aliado a isso, é um daqueles sneaky athletes que se move com velocidade norte-sul acima da média e que tem um bom poder de impulsão, com um load time rápido, especialmente quando faz a chamada com os dois pés.
É menos potente a fazer a chamada a um pé e perde muita mostarda a jogar no meio do trânsito. Jogar no contacto é uma das áreas onde mais claudica. Não tem um tronco muito forte nem ombros largos, o centro de gravidade é alto, tudo fatores que contribuem para que não seja funcionalmente forte.
É relativamente ágil a deslizar lateralmente e conter, o que o torna numa ferramenta interessante a comer espaços, especialmente na defesa. Por outro lado, é um pouco duro de rins, tem dificuldade com mudanças súbitas de ritmo/direção, ancas menos fluidas, perde equilíbrio com alguma facilidade.
Falhou os primeiros 3 meses da temporada 2023/24 da Ignite devido a uma lesão no tornozelo e demorou algum tempo a ganhar ritmo, mas jogou até ao final da época, sempre a rondar os 30 minutos.
Criação ofensiva
Extremo alto com alguma capacidade de criação e que, num eventual teto, é uma opção drible/passe/tiro a ampliar e finalizar vantagens a partir da asa e canto, mas que precisa que o lançamento exterior se cristalize para que não se torne um impedimento em termos de encaixe.
Matas, que fez o seu nome como um criador com bola no HS, teve um papel bem mais variado na G League, agindo ocasionalmente como portador, especialmente em transição e semi-transição, mas também como spacer/closeout attacker nos cantos, a receber bola em movimento a sair de bloqueios e até a criar ataque no poste alto. A USG% reflete, mais ou menos, isso (21.4). Os números de eficiência, um pouco à boleia dos números @rim e de 3, sofreram num ano de adaptação de arquétipo (55.4 TS%).
A criar no perímetro, Buzelis está longe de ser um desequilibrador natural, apenas 0.75 PPP em ISO, ou alguém que pressione o aro com agressividade, 25.6% das FGs totais em 23/24 no pintado, tanto por características físicas como técnicas. Num plano físico, é um jogador alto, com um centro de gravidade alto e um claro défice de força, fatores que lhe dificultam o momento de ganhar na força em penetração em drible. O próprio drible é algo solto/inseguro vs pressão e, apesar de Matas ser versado em mudanças de direção e velocidades, cross por trás das costas é french chef kiss, e se sentir tranquilo a conjugar diferentes crossovers, existe algum descontrolo de bola.
Dito isto, Buzelis é um driver frequente e com características positivas com bola, especialmente quando o ataque manufatura meia vantagem, DHOs, sair de pindowns, bloqueio direto. Tem um burst decente, uma passada super longa e uma afinidade para usar a carga de ombro em momentos de penetração em linha reta.
Para além disso, é uma pequena fonte de counters (spins, step-throughs, shot fakes), pivôs e passadas em desaceleração, qual Luka, que lhe abrem outras vias de separação quando não ganha no primeiro momento.
O sucesso de Buzelis a atacar a partir da receção da linha vai estar intimamente ligado com a sua capacidade para finalizar essas ocasiões no aro. Os números, para alguém com a sua altura/envergadura, não foram ideais, 61.2% na área restritiva, 52% em layups, 26 afundanços.
Para além de não ser um desequilibrador nato, a falta de força de Buzelis faz com que frequentemente seja desalojado da sua trajetória e que facilmente perca o equilíbrio quando sobe para o layup. Tem alguma elasticidade no ar e várias ferramentas técnicas para fazer os defensores morderem em fakes no aro, mas não tem grande burst vertical no trânsito, e é essencial um leaper a fazer a chamada a partir dos dois pés.
Não é um finalizador de uma mão só e há alguma confiança de que se possa tornar num finalizador mais dentro da média, especialmente com o amadurecimento do tronco, que o pode ajudar a equilibrar o core e tornar o shoulder bump uma ferramenta ainda mais útil.
Muito relacionado com este último parágrafo está o jogo do ex-Ignite no poste intermédio. Matas está confortável a receber e enfrentar, usando a posição de tripla ameaça, os múltiplos counters acima e o bom touch em ganchos para finalizar. Gosta de usar o fade de um pé de Dirk Nowitzki. Tenho dúvidas de que alguma equipa vá desenhar jogadas para o lituano-americano no poste alto, mas Buzelis é um tweener, uma zona cinzenta posicional que vai marcar pontos a preencher espaços em momentos de vantagens ocasionais. Matas vai saber executar quando estes se proporcionarem, aqui.
No P&R, Buzelis teve um ano um pouco desapontante. É certo que não teve assim tantas oportunidades, 43 posses com ball-handler o ano inteiro, mas o wing da Ignite denotou dificuldades a processar nuances do bloqueio direto, 0.8 A:TO ratio, e a encontrar a trajetória de penetração ou o passe certo. Apesar de ser alguém que tem um bom controlo de ritmos, as limitações no drible dificultaram no primeiro momento de penetração e até na utilização do bloqueio em si. Teve bons números no jogo intermédio, mas falta subitaneidade no momento do disparo a partir do drible, 32% em todos os pull-up jumpers.
Não é um Ron Holland, mas é um jogador muito competente em transição, seja a ressaltar e transportar, seja a fazer o leak-out e correr à frente da jogada para oferecer uma linha de passe. É alto e tem boa impulsão a subir para afundar. 1.13 PPP neste tipo de jogadas em 2023/24.
Passe
Passador-conector com bom entendimento de jogo em situações de ataque inclinado, mas cujo A:TO ratio negativo e tape indicam falta de visão.
As deficiências de Buzelis no processamento não são circunstanciais. Já em 22/23 teve um A:TO ratio sub 1.0 num papel ofensivo de ball-handler principal, que não foi o caso na Ignite. Algo evidente é que Matas não cria separação com facilidade no 1v1 nem colapsa o pintado, consequentemente não abrindo linhas de passe fáceis para si.
Ainda assim, o processing agrada. Num ambiente ofensivo quase irrespirável, foi capaz de unir os pontos e fazer passes com relativa agilidade no half-court, atacar closeouts, momento de receção após o pop ou o corte, e especialmente em transição. Gostava de o ver utilizado um pouco mais criativamente, como DHO hub ou short-roller, por exemplo. Sinto que existe algum potencial por destapar, especialmente se o físico lhe permitir ser um 4 a tempo inteiro.
Não tem uma técnica soberba, mas a sua altura permite-lhe ver por cima da defesa no ponto de ataque e até ter um campo de visão limpo quando, por exemplo, rola para o cesto contra a segunda linha de defesa.
A visão não é grande coisa e é quase estritamente um passador reativo. É bom no drive-and-kick, mas insiste constantemente nesse passe, mesmo quando é para o lado forte e bem defendido, muitas vezes negligenciando passes mais simples para o dunker spot, onde tem um big à espera. Falha linhas de passe óbvias com alguma frequência.
Lançamento e ataque sem bola
Alguém que entrou na temporada 2023/24 com o rótulo de atirador, 43.1% de 3 no ano de senior no HS, e uma bonita mecânica, mas que sai da mesma com várias questões.
Como usual, olhando para os números crus de Buzelis: 45.3 FG% (11.8 FGA), 25.9 3PT% (3.4 3FGA) e 69.6 FT% (2 FTA).
Catch-and-shoot 3s: 29.4% (68 FGAs)
Pull-up jumpers: 32.1% (56 FGAs)
Uncontested 3s: 35.7% (14 FGAs)
Total jumpers: 32.2% (174 FGAs)
Touch shots: 46.4% (84 FGAs)
Quase todos os indicadores de lançamento são preocupantes, começando na linha de lance livre e acabando nos pull-ups. Neste último, talvez a falta de fluidez do drible e de rotina a colocar os pés por baixo do corpo para subir e disparar influenciem a má conversão, mas isso não explica os sub-35% quando filtramos para todos os jumpers fora da área restritiva.
O jumper, mecanicamente, não é mau, o que adiciona intriga aos altos e baixos que Buzelis tem tido de 3 pontos na sua curta carreira. Tem um release muito alto e um dip algo pronunciado no momento da receção, o que torna a motion mais lenta. Não há grandes mudanças de tiro para tiro, mas tem uma base mais estreita que o usual, pés muito juntos. Não tem uma boa transferência de energia, alguns short rims, o que leva a crer que parte do insucesso tem a ver com a adaptação súbita a uma linha de 3 mais distante. É um data-point a ter em conta na sua temporada de rookie, ver como é que a sua conversão de longa distância progride ao longo do ano.
Tem alguns bons indicadores estatísticos, nomeadamente em touch shots, floaters, hooks, runners, bem como a lançar de meia distância a partir do drible. São indicadores positivos para alguém cujo papel na liga vai depender muito da sua capacidade de espaçar o campo, mesmo que nunca seja mais do que um atirador de volume e aproveitamento mediano. Se o triplo nunca cair, é viável que Matas seja o atacante secundário a partir da posição 4? Se não for possível, como contornar a falta de espaçamento? É como small-ball 5 pontual? Torna-se difícil que seja top-5 se o último se tornar realidade.
No ataque sem bola, Buzelis brilha, mesmo sem um triplo consistente. É aqui que a sua maleabilidade e perspicácia a preencher vazios realmente sobressaem. É um cutter superinteligente, 1.38 PPP em cuts, seja na baseline ou em zonas mais frontais do campo, sabe ler perfeitamente o defensor e tem o timing certo para atacar espaços vazios. A explosão vertical súbita ajuda-o a finalizar com mais facilidade após a receção.
Com a sua capacidade para cortar, atacar closeouts em drible e fazer o passe simples, encaixaria que nem uma luva num sistema ofensivo um pouco mais motion-heavy e de partilha de tarefas de ball-handling. Apesar de ser efetivamente um mau bloqueador, há curiosidade em vê-lo mais envolvido em ações de bloqueio direto, roll/pop, coisa que não aconteceu muito na Ignite.
Por fim, e apesar das limitações de força, oferece valor em jogadas de insistência, como ressaltos ofensivos e putbacks, 1.33 PPP.
Ressalto
Ressaltador com uma produção respeitável, mas não muito mais do que isso, tanto na tabela defensiva, 17.1 DReb%, como na tabela ofensiva, 5.5 OReb%.
Como um 4 subdesenvolvido muscularmente e com ombros não muito largos, não há grande precedente histórico que indique que se possa vir a tornar um ressaltador ++, especialmente se tivermos em conta outros traços atléticos. Ainda assim, Buzelis compensa com bom posicionamento, mas, mais do que isso, bom motor e um bom segundo salto. Sai fácil e rápido do chão.
Defesa individual
Defensor de perímetro com bons fundamentos, com o tamanho para se manter à frente de alguns extremos, mas que vai ter dificuldades contra bases mais explosivos e wings fortes. Precisa de chegar a uma certa linha de base no ponto de ataque para que a sua defesa coletiva o torne um positivo mais claro. Pontos por posse cedidos, em diferentes tipos de jogada:
Catch-and-drives: 0.84 PPP (73 FGAs)
Isolation: 0.91 PPP (47 FGAs)
P&R handler: 0.89 PPP (36 FGAs)
Hand-offs: 0.69 PPP (26 FGAs)
Post-up: 1.13 PPP (23 FGAs)
A defender o portador, Matas é competente a deslizar lateralmente, 3 a 5 passadas, e conter penetração em linha reta. Tem boa antecipação e corta a trajetória, oferecendo o peito para absorver contacto. Para alguém com défice de força posicional, não evita momentos mais físicos e é capaz de voltar à jogada para tentar desarmar, mesmo após levar uma carga de ombro forte. Mantém as mãos ao alto, afeta a qualidade do lançamento oposto, evitando, ao mesmo tempo, fazer faltas tontas. Disciplinado, força uma boa quantidade de deflections apenas por estar no sítio certo.
Sofre mais a conter explosão e portadores mais shifty, que recorrem a mudanças de direção e o obrigam a virar as ancas para se manter enquadrado. É duro de rins, tem um centro de gravidade alto e agacha-se pouco na stance vertical, tudo fatores que contribuem para que perca equilíbrio com facilidade.
Também por causa disto, é bastante mau a navegar bloqueios. É desengonçado no momento de minimizar o volume do corpo e há vários casos onde simplesmente não tem a perceção visual do bloqueio e esbarra contra o adversário quando está a defender o ball-handler, forçando a sua equipa a trocar ações de bloqueio que não são favoráveis, de modo a não oferecer pontos fáceis no primeiro momento. Por outro lado, tem bons momentos enquanto big no P&R, especialmente em drop. Não que tivesse sido algo frequente em 2023/24, mas o posicionamento, a paciência e o timing no momento de contestar são geralmente bons.
Defesa coletiva
Um dos seus verdadeiros positivos. Alguém com um afiado e inteligente entendimento de jogo, com impacto significativo como protetor de cesto secundário a vir do lado fraco, 1.9 blocks e 0.9 steals na G League.
Com jogadores como Izan Almansa e Tyler Smith no miolo, Buzelis foi usado maioritariamente como 4, defensivamente, a defender o atirador no canto oposto e a agir como low man. Nem sempre teve total liberdade para ser o joker defensivo a voar pelo campo, mas a sua constante presença como segundo protetor de cesto foi um dos poucos pontos coloridos de uma defesa bem cinzenta da Ignite.
Neste papel, Matas demonstrou não só bons fundamentos, timing certo a ler a penetração e saber quando aparecer para contestar, mas também boa presença. Apesar de não ter uma envergadura por aí além, tem boa standing reach e ótima técnica de verticalidade, fazendo-se parecer maior do que aquilo que é, alterando muito mais lançamentos do que os que efetivamente bloqueou. O bom poder de impulsão contribui positivamente.
Mesmo fora disso, o extremo entende o flow ofensivo do adversário, segue as jogadas, joga bem na nail e faz tags com timing quando o big rola para o cesto. Apesar de não ter umas mãos violentas, usa-as com nuance para sacar roubos de bola e deflections que atiram areia para a engrenagem.
A pior micro-habilidade aqui é a sua capacidade de efetuar closeouts sólidos de forma constante. Não tanto por perder a noção de onde está o defensor direto quando ajuda, mas mais por ter dificuldade a fechar na linha de 3 em velocidade e manter o equilíbrio, de novo, muito vertical, centro de gravidade afeta o equilíbrio, permite penetração pelo meio.
Ponto final, parágrafo
Muito mudou desde o dia 6 de setembro de 2023, quando a Ignite enfrentou pela primeira vez os Perth Wildcats num showcase duplo entre três dos melhores talentos do Draft de 2024. Agora, às portas do dia D, a Ignite é um projeto que já não existe e Buzelis e Holland não são nomes inequívocos para o topo desse draft.
A Ignite teve o seu pior ano coletivo e acabou por terminar como projeto, e Holland e Buzelis, com lesões pelo meio, tardaram a encontrar-se como jogadores, enquanto navegavam um jogo diferente, com linhas diferentes, com ritmo diferente e com um threshold atlético muito superior. A coisa foi pior para o último, que era para muitos um suposto lead ball-handler, mas que nunca conseguiu gerar ataque fácil nem para si nem para ninguém.
Talvez tenha sido um problema de perceção. O aliciante com Buzelis ainda é forte o suficiente para o manter no meu top 5–6. O valor posicional é inegável para um draft parco em extremos de qualidade, e torna-se ainda maior quando olhamos para a tape defensiva de Matas, com o seu combo de defesa versátil e proteção de cesto.
Ofensivamente, para alguém que figurará como peça terciária a ampliar e finalizar vantagens, o seu pacote traz alguma intriga. Aquilo que mostra a decidir rápido, mover-se sem bola e até a atacar em situações vs defesas inclinadas agrada, tal como agrada o facto de quase todas as suas deficiências, sejam elas técnicas, drible, agressividade, ou físicas, falta de força, serem tratáveis a partir do momento em que entrar na NBA.
O seu lançamento exterior, historicamente incerto nele, é o fator decisivo para o sucesso. Um jogador que se quer role player de excelência não pode introduzir entraves num ataque quando está lá para o otimizar. Se o tiro não cai, tornar-se-á difícil perceber como devolve valor de high lottery e que tipo de jogador é sequer. Paciência e criatividade serão critérios fundamentais para fazer Buzelis vingar, para quem quer que o escolha.