Scouting report: Amen Thompson
Um criador de vantagens como nunca antes visto.
Os irmãos Thompson – Amen e Ausar – são dois prospects singulares, por múltiplas razões. São os dois primeiros grandes nomes da Overtime Elite, que se apresenta como um novo caminho para a NBA, e é meio liga profissional de basquetebol, meio garrafa de Mountain Dew. São dois supremos atletas, como há poucos na Association, e são também gémeos monozigóticos.
Este último pormenor, como é bom apanágio com gémeos, faz com que sejam tratados quase como a mesma pessoa ou, neste caso, o mesmo jogador. Ora, isso não é verdade e vou tentar convencer-vos disso. Amen e Ausar não são o mesmo jogador, não encaixam nas mesmas equipas e não cumprem o mesmo papel num court.
Assim, o texto de hoje vai ser um pouco diferente – um mashup entre dois scouting reports e um jogo de “Quem é quem?”, um hino a todos os gémeos que sentem a sua individualidade atacada e suprimida pelo facto de existir outro indivíduo fenotipicamente igual a si.
Dados biográficos
2022/2023: 27.5 Min/J – 16.4 Pts/J, 5.9 Res/J, 5.9 Ass/J, 2.3 Rou/J, 0.9 Des/J, 56.6 FG%, 25 3FG%, 65.6 FT%
Atletismo
Excelentes medidas para jogar nas posições 2 e 3, com boa altura e envergadura de braços, além de ombros largos q.b.. É um atleta de 95.º percentil no seu poder de aceleração, velocidade de ponta e impulsão. É incrivelmente flexível e tem um controlo corporal incomum, algo que o torna muito maleável enquanto paira no ar após o salto, conseguindo encaixar em qualquer pequeno espaço.
Em termos de estrutura, peca apenas por alguma falta de força e um centro de gravidade um pouco alto para a posição, combinação de fatores que lhe retira algum poder de embate, mas que lhe permite manter uma certa leveza e capacidade de evasão no seu jogo.
Perfil ofensivo: quando pura explosão e infinita criatividade se encontram
Como arquétipo, Amen é um projeto muito aliciante de ballhandler principal, com uma capacidade inata para criar ataque para si e para os outros.
No 1v1, Thompson tem bastante facilidade em bater o seu defensor e colapsar defesas no pintado, dado o puro burst que tem no first step e a maneira como cobre enormes espaços com cada passada, após pegar o drible.
O seu drible, em termos técnicos, até deixa algo a desejar. É flexível e baixa o centro de gravidade com a bola, mas não é incrivelmente criativo e tem claros problemas de controlo, especialmente em momentos de mudança súbita de velocidade. Gosta de usar um hang dribble de direita para depois plantar a passada desse lado, da mesma maneira que usa um simples crossover direita–esquerda para atacar pelo lado canhoto. É uma pequena máquina de turnovers, mas, mesmo com um défice técnico, fica a ideia de que o seu drible já lhe permite preparar e amplificar aquilo que é o seu ponto forte como criador – a explosão e as agudíssimas mudanças de velocidade.
É melhor a chegar ao aro do que a finalizar por lá. É criativo, ágil e elástico no ar, características que lhe permitem recorrer a um complicado pacote de reverses, up and unders e afundanços em extensão, mas tem uma tendência para complicar finalizações fáceis e dificuldades claras para atacar o peito do protetor do cesto, absorver e finalizar. Ainda assim, gosto da maneira como usa pump fakes e bom trabalho de pés com o pivô para tentar sacudir o homem na insistência.
É um mau atirador, para não dizer historicamente mau. Os seus números, das várias áreas do campo, demonstram exatamente isso – 65.6 FT%, 25 3PT%. Para além disso, não se pode dizer que tenha melhorado ao longo destes dois anos (51 FT%, 25 3PT% em 21/22). A mecânica tem sofrido alguns tweaks, mas continua a ter uma base muito instável e a usar imenso a força de tronco e braços para lançar a bola, o que faz com que as suas tentativas sejam muito inconsistentes.
O tiro é também consistentemente mau, seja em situações de C&S, o que o limita como offball player, mas também a partir do drible vivo, sejam pull ups a partir de 3 ou floaters, push shots e outras ações na meia distância, o que o castra como criador com bola.
Mesmo com esta perigosa limitação, Amen é um operador de P&R especial. Para um jogador tão vertiginoso, demonstra inteligência no momento de usar o bloqueio e paciência assim que este lhe permite alguma luz solar, usando pound dribbles para pautar o ritmo, ler a situação e obrigar a defesa a navegar vários pontos de pressão (a penetração em drible, o passe para o atirador na asa, o pocket pass para o roller, o skip para o canto).
Dada a sua limitação no tiro exterior, vai ter de se habituar a ver as defesas navegar por baixo do bloqueio e desafiar o tiro, mas a verdade é que Thompson parece saber lidar com isso, usando o espaço extra que o defensor direto lhe oferece como uma rampa de lançamento para explodir para o cesto.
É um passador extraordinário, tanto em situações de meio-campo ofensivo como em transição. Tem uma capacidade acima da média para usar os olhos e os seus incomuns trejeitos corporais, qual bailarina, para manipular ajudas no P&R, puxando o low man para o meio e destapar homens na asa ou no canto. A sua criatividade, combinada com o seu hang time e elasticidade, permite-lhe encontrar ângulos para passes que nenhum defensor consegue imaginar. É um artista surrealista que pinta coisas novas a cada posse de bola, verdadeiramente imprevisível e criativo, tornando as suas ações difíceis de processar. Para além disso, tem uma técnica de passe avançada, imprimindo imensa velocidade nas suas conexões e demonstrando aptidão para distribuir a partir do drible vivo.
Como já referi, é um animal em transição, seja a ressaltar e transportar pelo court acima, a procurar o passe para o homem adiantado ou a funcionar como leaker e finalizador, recebendo frequentemente os criativos passes do irmão Ausar.
Perfil defensivo: criação de caos, para o bom e para o mau
Um ballhawk que coloca pressão nas linhas de passe, é uma presença no próprio pintado e que poderá vir a oferecer resistência à penetração no ponto de ataque, a defender alguns bases e wings.
Existe potencial atlético e versatilidade, mas não vou dourar a pílula – a tape defensiva não é, de todo, famosa. Especialmente na defesa individual, onde existe uma tradicional falta de trato com a postura defensiva, inatenção no momento de navegar bloqueios ou no posicionamento. A capacidade para deslizar lateralmente frente ao ballhandler está lá, mas, ao contrário do irmão, que é excelente neste aspeto, Amen tem dificuldade em manter-se agarrado ao portador assim que este ganha meia passada ou muda de direção. É um pouco inflexível nas ancas, o que o obriga a virar e perseguir, em vez de se mover de forma constantemente lateral ao atacante.
Amen oferece mais valor em situações de jogadas partidas, quando tem liberdade para pairar como uma espécie de free safety na backline, colocando em uso a sua rapidez de pensamento e capacidade de fechar espaço num piscar de olhos. É um bom protetor de cesto secundário vindo do short corner e é bastante agressivo a atacar linhas de passe quando defende na nail ou na asa, a um passe de distância da ação com bola.
Notas finais e possíveis encaixes na NBA
Numa NBA moderna onde o nome do jogo é criação de ataque eficiente de forma sustentada, Amen Thompson apresenta-se como um prospect especial e quase irrepetível. São raras as vezes em que surge alguém com esta conjugação de predicados físicos e técnicos, mas também existe um historial complicado na otimização de jogadores com tiros exteriores tão limitados.
Parece-me fantasioso esperar que o lançamento de Amen se torne viável, pelo menos nesta primeira fase da sua carreira. Como tal, qualquer equipa que o escolha terá de ponderar fazer tabula rasa e oferecer ao gémeo o maior número de reps com bola, tornando-o peça central de um ataque que corra uma dose muito saudável de spread P&R, com bigs que popem ou rollem, dando primazia também ao ataque em transição, de modo a desbloquear o seu atletismo estonteante. Acredito que existe valor em Amen longe da bola, como um wing connector que recebe e ataca closeouts, distribui a um passe da ação principal, bloqueia para um shotmaker ameaçador e recebe em movimento, mas vai sempre requerer alguma criatividade em termos de lineups, de modo a evitar que o paint se entupa.
Na lottery, franchises como os Spurs ou os Jazz parecem-me ter equipas adequadas para que algo assim seja implementado. Sem um claro #1, ainda numa fase inicial da reconstrução e com algum shotmaking, podem talvez dar-se ao luxo de acomodar Amen, de modo a, mais tarde, o amplificar.