Quem não tem polvo, caça na PlayStation: o trabalho que não dá descobrir quem será campeão
O polvo Paulo ficou famoso pelas previsões durante o Europeu 2008 e o Mundial 2010 de futebol. E fez escola. Tanto que agora temos uma variedade de animais — ou de donos/tratadores com demasiado tempo livre — com “poderes ocultos”. Os cães, esses fiéis amigos, são talvez os mais requisitados, com a internet a ser invadida por adivinhos de quatro patas e as suas previsões de vencedores da NFL, da NHL ou da NBA.
Uma vez que, por esta altura, estamos sem cão, gato ou caturra — e os polvos mais à mão estão congelados — tivemos de recorrer a outra entidade com poderes do sobrenatural para prevermos os resultados da final da NBA entre os Golden State Warriors e os Boston Celtics. Calma, não fizemos o jogo do copo. Não queimámos o incenso que o Kyrie Irving nos emprestou para “tratar gripes e constipações”. E, se porventura matarmos uma galinha, será para fazer cabidela.
Seja como for, e antes de revelar o processo, convém avisar: não repitam isto em casa sem a supervisão de um agente do Governo Civil de Lisboa. Cá vai: sentem-se e coloquem uma versão qualquer de um simulador (actualizado) da NBA na vossa consola ou computador. Naveguem pelos menus. Escolham as equipas. E simulem. Os resultados podem sair um pouco ao lado, mas pelo menos poupamos nos biscoitos para cão.
Como tem sido regra nas últimas edições, o simulador NBA 2K partilha o campeão virtual. Não vos consigo confirmar com toda a certeza, mas, por norma, apresentam um resultado final com base em algumas dezenas de simulações. Já sabemos que a previsão “oficial” para este ano falhou redondamente. Por isso, fizemos a nossa — obviamente que não fomos tão longe no número de simulações. Ainda assim, vamos olhar para algumas das mais recentes previsões divulgadas pela equipa que desenvolve o videojogo e colocá-las à luz do que realmente aconteceu.
NBA 2K13 – temporada 2012/2013
Na previsão, o videojogo colocou frente a frente os Lakers e os Heat na luta pelo anel, com Kobe Bryant (MVP da final), Dwight Howard, Pau Gasol e Steve Nash a superiorizarem-se a LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh. Ora, todos sabemos o quão desastrosa foi esta temporada dos LA Lakers. Ainda assim, o simulador não falhou totalmente, uma vez que os Heat alcançaram de facto a final da prova. LeBron James arrecadou o MVP e Miami bateu a malta de San Antonio.
NBA 2K14 – temporada 2013/2014
Na simulação para a época 13/14, o jogo esteve bem mais perto de acertar naquele que seria o verdadeiro resultado final. Ora, na previsão o videojogo dava novo MVP a LeBron e mais um título para os Heat na final com os Spurs. Parece-nos, assim à distância, que a inteligência artificial não estava era a contar com a aparição de Kawhi Leonard. Equipado com “mãos biónicas”, Kawhi sacou o título de MVP da final e ajudou os Spurs a baterem os Heat.
NBA 2K15 – temporada 2014/2015
Por esta altura, já pode começar a parecer que o simulador tem mesmo a capacidade de antecipar cenários muito próximos da realidade. Nesta edição, a previsão colocava os Warriors a vencerem os Cavs na final — o que se verificou na realidade. Mas, se antes nem o videojogo contava com Kawhi, desta vez a surpresa para MVP da final tem o nome de Andre Iguodala. No simulador (e, arrisco escrever: nos corações de quase toda a gente), Stephen Curry foi o mais valioso da equipa campeã.
NBA 2K16 – temporada 2015/2016
Estando montados e oleados os colossos Golden State Warriors e Cleveland Cavaliers, seria pouco provável não anteciparmos várias finais entre eles. Nesta temporada, o simulador repetira a previsão do ano anterior: Warriors campeões, com Curry a levar o troféu de MVP. Na realidade, a festa rija acabou por ser dos Cavs e de LeBron James.
NBA 2K17 – temporada 2016/2017
Nem nos vamos alongar. O simulador acertou em tudo: nova final entre Warriors e Cavs, título para Golden State e MVP para Kevin Durant.
NBA 2K18 – temporada 2017/2018
Em 2018, o videojogo esteve sob influência de coisas muito estranhas. Não sei se é possível “indrominar” um computador desta maneira, mas investigue-se. Antecipou os Thunder campeões após vitória sobre os Wizards. Paul George seria o galardoado com o título de MVP. Na realidade, Warriors e Cavs mediram forças, os do Oeste levaram a melhor e Kevin Durant meteu ao bolso mais uma taça de MVP.
NBA 2K19 – temporada 2018/2019
Após a loucura de 2018, o videojogo achou por bem regressar às previsões um pouco menos mirabolantes. Desta feita, o simulador viria a acertar no campeão (Toronto Raptors) e no MVP da final (Kawhi Leonard). Contudo, na realidade, a histórica vitória dos canadianos aconteceu frente aos Warriors e não diante dos Rockets, como havia vaticinado o simulador.
NBA 2K20 – temporada 2019/2020
Mais um ano e mais uma previsão quase perfeita para o simulador. Em 2020, os Lakers sagraram-se campeões na Disney e LeBron James arrecadou mais um MVP das finais. No planeta Terra, os californianos derrotaram os Miami Heat. No planeta de onde é originário o Kawhi, o triunfo dos Lakers foi diante dos Bucks.
NBA 2K21 – temporada 2020/21
Em 2021, o simulador foi atrás de todas as conversas de café (compreensível q.b.) e apontou à final desejada por muitos: Nets vs. Lakers. Ora, como sabemos, nenhum destes conjuntos chegou à final da liga. Giannis foi coroado com o galardão de MVP depois de ter conduzido os Bucks ao triunfo diante dos Phoenix Suns. Ah, na previsão, o videojogo dava título aos Nets e MVP a Kevin Durant.
NBA 2K22 – temporada 2021/22
Este ano sabemos, de antemão, que o simulador atirou completamente ao lado. Dava título aos Suns na repetição da verdadeira final de 2021. No mundo virtual, Devin Booker arrecadaria a distinção de MVP da última série da temporada.
Não satisfeitos com isto, metemos mão à obra e, num esforço hercúleo que é pressionar umas teclas num comando, simulámos a verdadeira final da temporada 2021/22.
O videojogo só decidiu o campeão desta temporada no derradeiro jogo 7 e com as equipas separadas apenas por 4 pontos. Isto seria óptimo para quem — como nós — quer o máximo de basquetebol possível. Para o simulador, a pontuação mais baixa de uma equipa numa partida foi de 111 pontos anotados. A mais alta: 141. Uma loucura que me parece pouco provável.
Sem apresentar, desde já, o vencedor do campeonato da simulação virtual, revelamos aqui os resultados de cada uma das sete partidas da final:
Jogo 1: 141–114 · Jogo 2: 130–118 · Jogo 3: 130–111 · Jogo 4: 128–127 · Jogo 5: 138–102 · Jogo 6: 141–131 · Jogo 7: 119–115.
Como já deu para perceber neste curto e nada científico exercício, as previsões do simulador NBA 2K são tão certas como as do professor Karamba.
2013: acertou num dos finalistas; falhou resultado e MVP.
2014: acertou nos finalistas; falhou campeão e MVP.
2015: acertou nos finalistas e no campeão; falhou MVP.
2016: acertou nos finalistas; falhou campeão e MVP.
2017: acertou em tudo.
2018: falhou redondamente.
2019: acertou num dos finalistas, no campeão e no MVP.
2020: acertou num dos finalistas, no campeão e no MVP.
2021: falhou redondamente.
2022: falhou redondamente.
Os sistemas que compõem o videojogo estão cada vez mais evoluídos. Replicam, na medida do que a tecnologia vai permitindo, algumas acções e comportamentos de equipas e jogadores. Sendo o NBA 2K, em parte, um reflexo do que se passa na liga — nomeadamente na tentativa de quantificar o valor dos atletas consoante o seu desempenho na vida real — é relativamente expectável que, no espaço virtual, onde tudo acontece mesmo com base nos números, as equipas com os melhores jogadores acabem por obter os melhores resultados nas simulações.
Tanto no espaço virtual como no real, o basquetebol continua a ser um jogo em que o talento individual é factor de decisão. E na NBA, onde estão os melhores dos melhores, este aspecto é ainda mais relevante. Em suma: ter os melhores atletas não garante automaticamente uma vitória. Mas ajuda bastante.
Ora, está mais do que claro que as condições “óptimas” do videojogo não são repetíveis na vida real. E também acho que concordamos que o basquetebol a sério, aquele que se joga entre humanos, tem tantas nuances e tantos detalhes que tão cedo não me parece que tenhamos forma de aplicar uma brincadeira à Minority Report ao basquetebol (e a quase tudo o resto que envolva humanos e todas as suas qualidades e defeitos).
Bem, no dia em que o Tom Cruise nos aparecer em casa a dizer que já sabe o resultado de um jogo que ainda não se realizou, só temos duas coisas a fazer: beber para esquecer o que ouvimos ou apanhar o primeiro voo para Las Vegas e derreter tudo o que há para derreter. Em qualquer um destes casos, parece-me que o fim estará próximo.
Se chegaram até aqui, nem sei o que vos diga. Mas, na simulação que fizemos, os Boston Celtics sagram-se campeões da NBA, batendo os Golden State Warriors no jogo 7. Jayson Tatum é o MVP virtual (28.1 PPG, 6.1 RPG, 5.1 APG).