Quatro nomes, uma escolha
Quem são AJ Dybantsa, Darryn Peterson, Cameron Boozer e Caleb Wilson, os quatro candidatos ao topo do draft da NBA de 2026?
A 23 de junho, no Barclays Center, em Brooklyn, os Washington Wizards têm a primeira escolha de um draft que reuniu, em simultâneo, quatro prospects com estatuto de potencial estrela nos quatro primeiros lugares, numa concentração que scouts e analistas descrevem como rara nesta dimensão. AJ Dybantsa, Darryn Peterson, Cameron Boozer e Caleb Wilson formam um quarteto em que qualquer das opções pode ser defendida como a melhor.
A lotaria de 10 de maio estabeleceu a ordem: Washington Wizards (n.º 1), Utah Jazz (n.º 2), Memphis Grizzlies (n.º 3) e Chicago Bulls (n.º 4). Todas em reconstrução. Todas com argumento diferente para o que escolhem. Nenhuma em posição de recusar o que esta classe tem para oferecer.
AJ Dybantsa | extremo | BYU
25.5 pontos, 6.8 ressaltos, 3.7 assistências. 51% nos lançamentos de campo, 33.1% de três, 77.4% nos lances livres (8.5 tentativas por jogo).
Dybantsa chegou a BYU como o prospect mais bem classificado da sua geração. Saiu como o nome que mais vezes aparece associado à primeira escolha do draft. Na época de estreia, liderou a NCAA em pontuação e tornou-se um dos dois únicos freshmen desde 1953-54 — o outro foi Michael Beasley, em 2007-08 — com médias de pelo menos 25 pontos, 50% nos lançamentos de campo e oito tentativas de lançamentos livres por jogo.
No combine de Chicago, mediu 2.04 metros descalço, com uma envergadura de 2.15 metros e um salto vertical máximo de 106.7 centímetros. O que distingue Dybantsa dos restantes não é apenas a produção, mas também a consistência nos momentos de maior pressão. 40 pontos no torneio da Big 12, 35 contra Texas na derrota, 22 na segunda parte para inverter uma desvantagem de 21 pontos no Madison Square Garden. É um jogador que chega ao cesto com trajetórias inesperadas, é difícil de parar na meia distância e capaz de carregar o jogo quando a equipa precisa.
Apesar do consenso em torno do seu nome, há scouts que colocam Peterson acima dele. O argumento: nos encontros diretos entre os dois — desde o secundário até à NCAA — foi Peterson quem, na maioria das vezes, ficou melhor na comparação. São perspectivas minoritárias, mas existem, e isso diz algo sobre a dificuldade real de separar estes dois jogadores.
As reservas da maioria centram-se na defesa. Com 12 desarmes e 37 roubos de bola em 35 jogos, os números ficam aquém do que o perfil físico sugere ser possível. O catch-and-shoot de três — 30% no combine, segundo a Synergy — é outra área a desenvolver. A lógica dos scouts é que tudo o que falta está dentro das possibilidades de melhoria. O que já existe — a explosividade, o mid range, a capacidade de criar com o drible — é mais difícil de ensinar.
Darryn Peterson | base-extremo | Kansas
20.2 pontos, 4.2 ressaltos, 38.2% de três. 24 jogos em 35 disputados.
A época de Peterson em Kansas foi a mais complicada de avaliar de toda esta classe. Cãibras que o levaram ao hospital antes do arranque da época, 11 jogos falhados, saídas prematuras de outros. No combine, revelou à ESPN que os médicos identificaram a causa: doses excessivas de creatina, suplemento que nunca tinha tomado antes da temporada universitária. Descreveu a experiência inicial como traumática — sentiu o corpo inteiro a paralisar, teve de receber soros no hospital.
O que alguns analistas como Sam Vecenie sublinham é que a avaliação de Peterson sofreu também de uma segunda distorção: o contexto coletivo em Kansas foi particularmente mau para mostrar o que sabe fazer. A equipa jogou sem espaçamento — os dois postes titulares, Flory Bidunga e outro elemento do frontcourt, não eram defendidos no perímetro pelos adversários, o que colapsava o espaço. Peterson, que no secundário era um base criador com elevado volume de assistências, viu-se reduzido quase exclusivamente a um papel off-ball em Lawrence.
Quando jogou, o nível foi inegável. No combine de Chicago, mediu 1.94 metros descalço com uma envergadura de 2.08 metros. É um defensor que altera jogadas mesmo nos momentos em que não pontua: no último jogo universitário, frente a St. John’s, do português Rúben Prey, somou quatro desarmes de lançamento. No encontro que defrontou Dybantsa ainda no liceu — um dos jogos mais falados do circuito AAU dos últimos anos —, marcou 58 pontos e converteu o lançamento decisivo nos últimos segundos.
Os Utah Jazz, donos da segunda escolha do draft, têm ligações fortes a BYU através dos seus proprietários e dirigentes, o que alimentou especulações sobre interesse em subir ao n.º 1 para garantir Dybantsa. Se Utah ficar onde está, Peterson é visto por muitos como o encaixe mais natural no roster atual dos Jazz, ao lado de Ace Bailey, Lauri Markkanen e Jaren Jackson Jr.. A questão médica é o único elemento que os scouts ainda estão a tentar resolver antes do dia do draft.
Cameron Boozer | extremo-poste | Duke
22.5 pontos, 10.2 ressaltos, 4.1 assistências. 39.1% de três. 22 duplos-duplos, a liderar a NCAA. Prémio Naismith de Jogador do Ano.
Cameron Boozer é filho de Carlos Boozer, duas vezes All-Star que jogou na Utah Jazz e nos Chicago Bulls. Cam construiu em Duke uma das épocas de freshman mais completas da última década. A comparação com o pai é inevitável; a avaliação, porém, tem de ser feita de forma independente.
É o prospect descrito por múltiplos analistas como o mais independente da situação, ou seja, aquele que vai produzir independentemente da equipa para onde for. Marca no poste baixo com um arsenal técnico diversificado, lança de três com consistência e tem visão para jogar como criador. No combine, mediu 2.04 metros descalço com uma envergadura de 2.17 metros, e registou uma agilidade em pista superior à de Peterson e Wilson.
O que o caracteriza é a capacidade de adaptar o jogo ao que cada situação exige: pode dominar no interior, actuar como hub ofensivo, dar espaçamento na linha de três. Em jogos difíceis, mesmo quando a exibição não parecia especial, a linha estatística era sempre consistente. Liderou a NCAA com 22 duplos-duplos.
A principal dúvida é defensiva. Sem salto vertical expressivo, é vulnerável a atletas que joguem acima do nível do aro, como se viu na derrota frente a UConn no torneio da NCAA, em que foi dominado de forma consistente no interior por Tarris Reed. O rendimento defensivo dependerá, em grande medida, de com quem partilha o frontcourt. Os Memphis Grizzlies, com Zach Edey ao seu lado, oferecem uma resposta possível a esse problema e uma filosofia coletiva de fisicalidade e carácter competitivo que encaixa bem no perfil de Boozer.
Caleb Wilson | extremo-poste | North Carolina
19.8 pontos, 9.4 ressaltos, 2.7 assistências, 1.5 roubos de bola, 1.4 desarmes de lançamento, antes de uma fratura na mão esquerda em fevereiro que o afastou do final da época regular. Quando estava prestes a regressar, fraturou o polegar direito num treino.
Wilson foi o prospect desta classe que os adeptos menos viram nos momentos de maior escrutínio. As lesões impediram-no de disputar qualquer jogo da March Madness. O que ficou foram os números anteriores e um atleticismo que, quando está no campo, é inconfundível: 2.06 metros com explosividade vertical, uma capacidade de terminar jogadas acima do aro e números defensivos de 1.5 roubos e 1.4 desarmes que, para um freshman, não são dados secundários.
Em entrevistas recentes, o próprio Wilson comparou o seu estilo de jogo ao de Giannis Antetokounmpo, mas os analistas chamam a atenção para uma diferença física relevante. Antetokounmpo tem 2.11 metros, envergadura de 2.28 metros e cerca de 115 kg; Wilson tem 2.06 metros, envergadura de 2.13 metros e 96 kg. Para jogar com a dominância física que a comparação implica, Wilson teria de desenvolver uma robustez que o seu corpo atual não tem.
A avaliação defensiva é o ponto mais debatido da sua ficha. Sam Vecenie, do The Athletic, que entrevistou treinadores adversários da ACC, refere que vários deles escolheram atacar Wilson defensivamente de forma sistemática ao longo da época e que a estratégia funcionou. O envolvimento fora do bola era irregular, a postura na defesa individual permitia penetrações que o seu atleticismo deveria impedir. As ferramentas para ser um grande defensor estão todas presentes: capacidade de recuperação, comprimento, explosividade. O trabalho para as organizar ainda está por fazer.
Vecenie coloca-o claramente em quarto lugar neste quarteto. A maioria dos mocks publicados até à data concorda. O que os diferencia de outros prospects fora do top-4 é que o tecto, mesmo sem lançamento exterior consistente, continua a ser o de um potencial All-Star. A projeção exige, de todos os candidatos deste quarteto, o maior exercício de imaginação.
Entre o combine de Chicago e o Barclays Center há pouco mais de um mês. Tempo suficiente para os scouts reverem a fita de Dybantsa pela milésima vez, para os médicos analisarem os relatórios clínicos de Peterson, para o front office decidir se Boozer é o jogador que reconstrói uma franchise, ou se Wilson é tudo o que as lesões não deixaram mostrar.
A primeira ronda do draft está agendada para 23 de junho, com transmissão na ESPN e ABC. A segunda ronda decorre na noite seguinte.


