Produção de Neemias Queta em quebra após chegada de Nikola Vučević
Montenegrino trouxe capacidade passe e jogo a partir do interior que faltavam ao plantel, mas a integração forçou Boston a experimentar lineups de duplo big que descaracterizaram o poste português.
Neemias Queta registou duas exibições menos produtivas nos primeiros jogos após a chegada de Nikola Vučević aos Boston Celtics. O poste português vinha numa tendência de crescimento, com médias de 10.5 pontos, 12.5 ressaltos, 2.8 assistências, 1.5 roubos de bola e 2.0 desarmes de lançamento, em quase 32 minutos, nas quatro partidas anteriores à adição do montenegrino, mas viu os minutos reduzirem para 22.5 por jogo e a produção ofensiva cair para 3.0 pontos, 8.0 ressaltos e 1.0 assistências, não registando qualquer roubo de bola ou desarme de lançamento nos dois encontros.
Os números expõem o dilema tático que Joe Mazzulla enfrenta após adicionar um veterano por duas vezes All-Star e com ferramentas distintas dos atuais postes do plantel. Vučević estreou-se com 11 pontos, 12 ressaltos e quatro assistências na vitória sobre os Miami Heat (98-96), incluindo o passe decisivo para o triplo de Derrick White nos minutos finais. A visão de jogo e capacidade de executar no poste baixo — valências que nem Neemias nem Luka Garza possuem ao mesmo nível — ficaram evidentes.
Em entrevista ao canal de YouTube dos Celtics, Brad Stevens, presidente de operações para o basquetebol de Boston, justificou a aquisição pela necessidade de reforçar a posição mais frágil do plantel e a adição de profundidade na posição.
«Cada vez que o Neemy caía no chão, via o meu coração afundar e pensava, temos de fazer isto. Vai custar-nos provavelmente um bom jogador de perímetro não importa que direção escolhamos. Pensei que o Ant (Anfernee Simons) foi incrível, merece todos os elogios e nós merecemos todas as críticas por não conseguir mantê-lo. Dito isto, esse é o custo de conseguir um jogador para fortalecer a profundidade de bigs.»
Mas a integração custou caro à produção do internacional português. Na vitória sobre Miami e na derrota frente aos New York Knicks (89-111), Mazzulla apostou largos minutos em lineups com dois postes em simultâneo, ora com Vučević, ora com Luka Garza ao lado de Neemias. A experiência alterou radicalmente o papel de Queta.
No ataque, foi estacionado no dunker spot, praticamente sem envolvimento nas ações ofensivas, enquanto os colegas de posição exerciam funções de screener. Na defesa, o impacto também foi limitado. A mobilidade reduzida de Garza e Vučević obrigou Neemias a defender jogadores de perímetro — Jaime Jaquez Jr., Davion Mitchell, Andrew Wiggins (Miami) e Josh Hart (New York) —, papel para o qual não está talhado, pelo menos de forma continuada. Resultado: problemas de faltas em ambos os jogos e zero desarmes de lançamento em 45 minutos acumulados.
Experimentação admitida, mas repetida
Logo na conferência de imprensa após o final do jogo frente a Miami, Mazzulla admitiu que a experimentação excessiva prejudicou a equipa.
«Quando adicionas uma peça nova, estás a tentar antecipar coisas — quais são os matchups, quais são as coberturas, quais são as jogadas. Penso que os coloquei numa posição difícil no início do jogo apenas a processar todos os cenários ‘e se’. Ficámos atolados por essas coisas.»
Apesar da assunção de culpa, Mazzulla repetiu a experiência frente aos Knicks, novamente sem sucesso. Agora, o treinador tem dois dias de treino até à receção aos Chicago Bulls, na quarta-feira, para integrar Vučević e rever as opções táticas. O jogo contra os Bulls, ex-equipa do poste montenegrino, pode servir de teste definitivo.
Uma opção passa por eliminar os lineups de duplo big e estabelecer hierarquia clara na posição, eventualmente com Vučević a assumir a titularidade frente à antiga equipa. No que diz respeito ao português, uma eventual “despromoção” para o banco de suplentes seguiria o modelo aplicado a Payton Pritchard, que voltou ao banco após o trade deadline, sem perder protagonismo.
Para Neemias, sair da titularidade poderia ser sinónimo de recuperar o papel de protetor de cesto e rim runner contra segundas unidades, e um parceiro de pick-and-roll em Pritchard, maximizando os atributos físicos que o destacaram nos primeiros quatro meses da fase regular. Evitaria também os matchups de perímetro que o têm prejudicado e permitiria jogar entre 20 a 25 minutos produtivos em vez de diluídos em funções desadequadas. Neste cenário, o maior prejudicado será Garza, que perderia espaço na rotação.
Stevens reconheceu que gerir três postes talentosos cria complexidade.
«Quando adicionas alguém como o Vučević, pode na verdade tornar-se mais difícil para o treinador porque está a tentar manter toda a gente feliz, envolvida e ainda a jogar. E a realidade é que precisamos apenas de ter profundidade suficiente para se estivermos sem um jogador ou para jogar double-big, conseguimos. E antes não conseguíamos, e agora conseguimos.»
O responsável do front office enfatizou que a flexibilidade tática era o objetivo central da troca, não a substituição de Neemias.
«Se o Neemy não estivesse a ter a época que está a ter, não estaríamos a ter a época que estamos a ter. Ele subiu de nível. Quando falas sobre postes, ele é em todos os aspetos um poste titular da NBA e mostrou isso uma e outra vez. Tem sido ótimo para nós no papel que lhe é pedido jogar.»
Stevens defendeu que a experimentação com duplo big faz parte do processo de preparação para os playoffs, especialmente com a incerteza sobre o regresso de Jayson Tatum.
«Acho que o Joe vai experimentar essas coisas. E acho que ele devia experimentar essas coisas e ver onde estão as nossas melhores opções. E especialmente, à medida que estamos a navegar por este ano inteiro sem o Jayson, porque não experimentar? Quando o Jayson voltar, esta época ou na próxima, sabemos que faz parte disso, certo? Mas depois quem está ao lado dele? Quem é que achamos que pode encaixar melhor? E/ou se entramos numa série de playoffs e queremos jogar de uma forma e depois na próxima série queremos jogar de outra, já vimos tudo.»
O desafio é compatibilizar as novas ferramentas que Vučević trouxe — jogo de passe, post-up game, tiro exterior, capacidade de atrair defesas — com a produção do jogador que, nas palavras de Stevens, tornou possível a época dos Celtics. A solução pode passar por clarificar papéis, embora Mazzulla seja claro sobre a flexibilidade necessária para a integração de Vučević.
«O que tínhamos é óptimo para nós e não estaríamos onde estamos se todos não tivessem jogado ao nível que jogaram. Apenas estamos a adicionar profundidade, flexibilidade, versatilidade, oportunidade, e por isso temos de estar prontos para executar. Temos de estar prontos para ser flexíveis fisicamente, mentalmente, e temos de estar prontos para chegar a coisas diferentes. E temos de estar prontos para trabalhar uns com os outros. Por isso acho que é mais sobre isso, o que tínhamos é suficiente, e agora conseguimos algo que nos dá profundidade e oportunidade e flexibilidade.»
Os Celtics regressam aos treinos esta segunda-feira. Mazzulla tem 48 horas para decidir se duplica a aposta no duplo big ou reconhece que a melhor forma de usar três postes talentosos é não os forçar a jogar simultaneamente.





