Portugueses na NCAA: De participantes a protagonistas
Cinco portugueses no March Madness, numa época em que vários foram a razão pela qual as equipas lá chegaram.
No ano passado, cinco portugueses disputaram o NCAA Tournament. Este ano, são cinco outra vez. O número é o mesmo, mas o peso dentro das equipas é bem maior.
Clara Silva e Rúben Prey consolidaram o estatuto de peças importantes em TCU e St. John’s, respetivamente; Filipa Barros ganhou o prémio de Most Outstanding Player do torneio da sua conferência; Ana Pinheiro liderou uma equipa de 29-5 que chegou ao March Madness pela primeira vez em dez anos; Inês Bettencourt marcou 12 pontos na final do torneio WCC, que Gonzaga venceu.
O torneio começa na quinta-feira e é possível seguir todos os jogos gratuitamente na app da DAZN Portugal.
A âncora da Big 12
Clara Silva está na Big 12, a conferência feminina mais competitiva do país, e entra no NCAA Tournament como 3.ª cabeça de série. TCU terminou a fase regular com 29-5, perdendo a final do torneio da conferência. Silva foi a peça central da defesa das Horned Frogs: liderou a Big 12 em desarmes de lançamento em jogos de conferência (2.3 por jogo), terminou terceira em percentagem de lançamentos de campo (63.9% em jogos da conferência) e fechou a época com médias de 8.9 pontos, 7.3 ressaltos e 1.7 desarmes de lançamento, e eficácia de 58.8%. Em jogos da Big 12, as médias sobem para 11.7 pontos e 8.9 ressaltos. O PER de 24.3 coloca-a entre as postes mais eficientes da conferência.
Os momentos de maior visibilidade distribuem-se ao longo de toda a época: duplo-duplo de 15 pontos e 12 ressaltos contra Arizona em janeiro; 4 abafos contra BYU nos quartos-de-final do torneio Big 12; e o jogo perfeito em dezembro — 10-10 nos lançamentos de campo, 21 pontos e 10 ressaltos contra Jacksonville, a primeira jogadora de TCU a conseguir esse registo.
A poste de Faro, com 19 anos, joga as primeiras rondas em Fort Worth, onde o programa acumula uma sequência de 42 vitórias consecutivas em casa. O adversário na 1.ª ronda é UC San Diego (#14). Se TCU avançar, o caminho potencial passa por Washington (#6) na 2.ª ronda e por um Sweet Sixteen na região de Sacramento, partilhada com as outras três portuguesas do torneio feminino. Na segunda época na D1 — a primeira em Kentucky, a segunda em TCU — Silva confirmou que o salto de qualidade não foi acidente. Tem mais dois anos de elegibilidade universitária. A janela está aberta.
No lado mais difícil do bracket
Rúben Prey disputa o torneio masculino com a universidade de St. John’s, de Rick Pitino, 5.º cabeça de série na região East. Os Red Storm terminaram a época com 28-6 e venceram tudo na Big East — fase regular e torneio. O papel de Prey não é de titular: 10.2 minutos por jogo, 3.9 pontos, 46.7% de campo, 52.6% de três pontos. Mas o contexto em que joga é dos mais exigentes do basquetebol universitário norte-americano.
Os números individuais ganham outra dimensão quando acompanhados dos momentos: career-high de 14 pontos contra Bucknell em novembro, com 2 assistências, 3 roubos e 1 desarme em menos de 20 minutos; 10 pontos em 4-5 de campo contra Butler em janeiro.
A região East concentra Duke, UConn, Kansas, UCLA e Michigan State — cinco programas com 496 vitórias acumuladas no torneio e 28 títulos nacionais. O adversário de St. John’s na 1.ª ronda é Northern Iowa (#12). O percurso potencial passa por Kansas na 2.ª ronda, com Darryn Peterson — apontado ao número um do draft da NBA —, e por Duke no Sweet Sixteen, com Cameron Boozer, outro dos três melhores prospects da classe.
O extremo-poste de Paço de Arcos, sophomore, tem o futuro em aberto. Pode declarar-se elegível para o draft antes de 2028, embora não seja expectável ainda neste verão.
A época mais completa de sempre
Filipa Barros protagonizou uma das épocas individualmente mais completas na história da NCAA Division I. A base de Vermoim fechou a fase regular da WAC com médias de 11.2 pontos, 10.0 ressaltos e 4.8 assistências — duplo-duplo por uma base de 1.75 metros — a que se somam 2.7 roubos por jogo e 40.8% nos triplos. Quinze duplos-duplos na época. Um triplo-duplo contra Long Beach State. Um máximo de carreira de 32 pontos contra UT Arlington, com oito triplos convertidos em dez tentativas.
Os momentos decisivos contam a época com mais clareza do que as médias. No jogo que selou o título da fase regular da WAC contra Abilene Christian, marcou 26 pontos — incluindo 11 no prolongamento — com seis triplos convertidos. Na final do torneio, contra as mesmas Wildcats, construiu uma linha estatística de 8 pontos, 13 ressaltos e 11 assistências que ficou a um cesto de ser o primeiro triplo-duplo da história do torneio WAC.
No torneio da WAC, foi eleita Most Outstanding Player: 14.5 pontos, 13.0 ressaltos e 8.0 assistências em três jogos. California Baptist terminou 23-10, campeã da fase regular e do torneio. É o regresso ao mais alto nível depois de uma época de redshirt por lesão num joelho.
No bracket, as Lancers são #16 na região de Sacramento e defrontam UCLA (#1) em Los Angeles. As #16 femininas têm apenas duas vitórias em toda a história do torneio. A noite de sábado dirá o resto.
O maior salto da época
De 3.3 para 10.6 pontos por jogo. De 2.7 para 6.0 ressaltos. De rotação a titular absoluta e líder de uma equipa de 29-5. O salto de Ana Pinheiro entre o ano de estreia e o sophomore year em Idaho é o mais expressivo de qualquer atleta portuguesa na D1 nesta época.
Os números frios não captam a dimensão do crescimento. Em dezembro, marcou um máximo de carreira de 19 pontos contra Western Oregon. Contra UC Davis, assinou 17 pontos, 11 ressaltos, 6 assistências e 3 roubos. A base/extremo de Braga integrou ainda a Big Sky All-Defensive Team, confirmando que a evolução não foi apenas ofensiva. O treinador Arthur Moreira — primeiro técnico brasileiro na história da D1 — atribuiu-lhe a alcunha «The Glove». As Vandals terminaram a fase regular com o melhor registo histórico na conferência (17-1) e ganharam o torneio Big Sky, batendo Montana State 60-57 na final. Pinheiro marcou 11 pontos no jogo do título.
Idaho entra no torneio como #13 na região de Sacramento e defronta Oklahoma (#4) em Norman. Uma #13 a bater uma #4 acontece com regularidade no torneio feminino. Do outro lado do mesmo bracket está TCU.
A última dança
Inês Bettencourt chega ao March Madness no último jogo da carreira universitária. A base de São Miguel, nos Açores, passou por dois anos em UConn e dois em Gonzaga antes de chegar a este momento. Foi a única sénior titular das Bulldogs nesta época — a líder vocal de um plantel jovem numa conferência exigente — com médias de 6.3 pontos, 3.0 assistências e 1.5 roubos por jogo ao longo de 32 partidas.
Quando Paige Bueckers, ex-colega em UConn e pick número um do draft da WNBA em 2025, foi assistir a um jogo de Gonzaga esta época, entrou no pavilhão com a camisola #8 da seleção portuguesa — o número de Bettencourt. Na final do torneio WCC contra Oregon State, a base lusa marcou 12 pontos sem cometer qualquer turnover e Gonzaga venceu 76-66. Foi o 11.º título da conferência, a 16.ª presença no March Madness e a última antes da transição para a Pac-12. A treinadora Lisa Fortier destacou a sua liderança ao longo de toda a época.
As Bulldogs entram no torneio como #12 frente a Ole Miss (#5) em Minneapolis, na mesma região de Sacramento que California Baptist. Se os resultados o permitirem, Filipa Barros e Inês Bettencourt podem cruzar-se na 2.ª ronda.
Os outros portugueses
O torneio não chegou para todos, mas a época teve outras histórias que merecem registo. Ema Karim e a Hofstra entraram no torneio da CAA apenas como 10.ª cabeça de série — 11-22 em resultados globais — e chegaram à final após eliminar Campbell e Drexel. Karim marcou 17 pontos na meia-final contra Drexel, o jogo mais importante da sua carreira universitária até agora.
Madalena Amaro, freshman de Faro, foi eleita para a All-CAA Rookie Team depois de registar o maior número de minutos da história do programa feminino de Monmouth para uma estreante — 30 jogos, 26 como titular, 31.4 minutos por jogo.
Pedro Santos, base/extremo de 2.01 metros, ganhou o prémio de Freshman of the Week da OVC em fevereiro e ajudou UT Martin a igualar o recorde histórico de vitórias do programa (22).
Joana Magalhães manteve o estatuto de titular em New Mexico com 8.7 pontos e 40.0% de campo no segundo ano consecutivo como titular das Lobos.
Rita Nazário liderou Cal State Northridge em pontuação no primeiro ano após a transferência de Saint Louis: 10.4 pontos e 68 triplos, o quinto melhor registo da história do programa numa única época.
Gabriela Falcão encerrou a carreira universitária em Albany com 30 titularidades em 30 jogos na sua última época na NCAA.
Ana Barreto, senior, foi a referência ofensiva de Queens com 8.6 pontos por jogo e um máximo de carreira de 21 pontos, 12 ressaltos e 6 assistências contra Gardner-Webb.
Magda Freire, colega de equipa de Barreto em Queens, completou a época como sophomore com 6.8 pontos por jogo e presença regular no cinco inicial.
Os restantes atletas portugueses na D1 tiveram épocas mais discretas. Fatumata Djaló transferiu-se de Ole Miss para Monmouth, acumulando dez jogos. Leonor Peixinho, freshman em New Mexico, e Denise Neves, freshman em Xavier, tiveram papéis estritamente de desenvolvimento. Andrea Chiquemba foi distinguida com o prémio académico All-ASUN num programa que terminou 2-30 e já entrou no transfer portal. Rita Gomes contribuiu como especialista de triplos nas Milwaukee Panthers da Horizon League. Maria Dias jogou em Cal State Bakersfield após dois anos em Idaho State. Stanley Borden disputou apenas três jogos em UTSA antes de uma lesão encerrar a época. Louis Fairtlough (walk-on) não registou minutos em Manhattan.








