Os bilionários conhecidos
Ser dono de um franchise da NBA é fazer parte de um clube de elite. Dos clubes mais elitistas do mundo, porque há apenas 30 lugares nessa mesa. Um clube restrito, para o qual pertencer é preciso ter muito dinheiro, mas… isso não basta.
Existem muitas pessoas ricas o suficiente para serem donas de uma equipa na NBA, mas a escassez de lugares nesse clube e, sobretudo, de lugares disponíveis, faz com que o acesso a ele seja muito mais difícil do que apenas atirar dinheiro para cima da mesa.
Verdade seja dita, alguns franchises da NBA são aquilo a que chamamos máquinas de fazer dinheiro. Mas nem todas funcionam no verde. Há algumas que, de vez em quando, vão ao vermelho, porque nem todos os mercados são iguais e, quando se juntam pequenos mercados com produtos medíocres em campo, o lucro não é propriamente um resultado regular.
No entanto, nunca faltam interessados quando um dos 30 franchises fica disponível. E porquê? Porque, apesar de bilionários não gostarem de deitar dinheiro fora, pertencer ao clube dos donos da NBA é, para além de um negócio, uma questão de estatuto.
A NBA tem dos atletas mais conhecidos do mundo. Pertencer a esse círculo faz maravilhas pelo reconhecimento público destes homens cuja notoriedade nem sempre pode ser comprada. Claro que toda a gente já sabia quem era o Michael Jordan antes de comprar os Charlotte Bobcats. E há muitos donos que são low profile e gostam de permanecer longe da ribalta.
Mas há uma certa aura que atrai bilionários para a esfera de um negócio volátil como o desporto. É que muitos deixam de ser apenas bilionários. Passam a ser bilionários conhecidos.
“Antes, quando caminhava pela rua, era um bilionário desconhecido. Agora sou um bilionário conhecido.” (Ted Stepien)
Ted Stepien jogou basquetebol quando era mais novo. Mas não foi só o amor pelo jogo que o levou a pagar 2 milhões de dólares por 38% dos Cleveland Cavaliers em abril de 1980 e, nos meses seguintes, adquirir mais 44%. A notoriedade que vem com ser dono de um franchise atraiu o bilionário do marketing/publicidade para uma área de atividade que simplesmente não era a sua praia.
Não se ganham milhões e se gerem empresas de sucesso sem uma confiança inabalável na capacidade própria de gerir tudo o que envolve um negócio. E um erro comum em donos de franchises desportivos, NBA e não só, é acreditar que o paradigma que resultou noutra área vai resultar na indústria desportiva. Geralmente não é o caso.
“Eu consigo gerir os Cavs. Qualquer um consegue gerir os Cavs. O truque é geri-los bem.” (Ted Stepien)
Pois. Aí é que está o problema. Se fosse fácil, todos o fariam. Mas são poucos os que o fazem bem. Ted Stepien é um caso de estudo de como não fazer.
A sua passagem pelos Cavs, entre 1980 e 1983, resultou num estrondoso fracasso, muito por culpa da ânsia e falta de paciência na tentativa de criar uma equipa competitiva instantânea.
O povo diz que “depressa e bem, há pouco quem” e, em três épocas, passaram seis treinadores e 44 jogadores, nenhum dos quais cumpriu as três épocas na equipa, com os desastrosos resultados totais de 66 vitórias e 180 derrotas. Foram, ao todo, 21 trocas, nove das quais envolvendo picks de 1.ª ronda, que levaram a liga a intervir para tentar minimizar o desbaratar do futuro da equipa.
E é neste campo que Stepien construiu a sua imortalidade na NBA. Para além da ineptidão desportiva, o seu tempo à frente dos Cavs é lembrado por ter hipotecado o futuro da equipa em troca de um presente medíocre.
Por justiça, note-se: antes de Stepien entrar, as picks de 1.ª ronda dos Cavs de 1980, 1981, 1982 e 1983 já tinham sido trocadas. Ou seja, a famosa 1.ª escolha que os Cavs trocaram e que resultou na seleção de James Worthy pelos Lakers em 1982 não foi trocada por Stepien, apesar de a escolha ter ocorrido quando já era dono.
O problema é que, não obstante a posição difícil em termos de assets futuros quando assumiu a equipa, Stepien trocou, no espaço de cerca de cinco meses, as picks de 1.ª ronda da equipa em 1984, 1985 e 1986, para além de uma pick de 1.ª ronda dos Hawks que os Cavs detinham.
Em resumo: em fevereiro de 1981, os Cavs tinham trocado as suas picks de 1.ª ronda de 1981, 1982, 1983, 1984, 1985 e 1986. E tudo isto resultou num 28–54 e no 4.º pior registo da liga nesse ano.
Devido a este claro desdém por escolhas no Draft, a NBA integrou nos seus estatutos uma regra que limita o desbaratar do futuro de uma equipa: a Stepien Rule.
“7.03. First Round Draft Choice. No Member may sell its rights to select a player in the first round of any NBA Draft for cash or its equivalent, or trade or exchange its right to select a player in the first round of any NBA Draft if the result of such trade or exchange may be to leave the Member without first-round picks in any two (2) consecutive future NBA Drafts.”
(Constitution and By-Laws of the NBA)
O ponto 03 da secção 7 estipula que nenhum franchise pode vender ou trocar uma pick de 1.ª ronda se isso puder resultar em ficar sem picks de 1.ª ronda em dois Drafts futuros consecutivos.
Ou seja, uma equipa pode trocar as picks que quiser, mas não pode fazê-lo de forma a ficar sem pick de 1.ª ronda em anos seguidos no futuro.
E sublinho futuro, porque no presente não se aplica. Por exemplo, imaginemos uns hipotéticos Vancouver Grizzlies que trocavam a pick de 1.ª ronda de 2021. Segundo a regra, não podiam trocar a pick de 1.ª ronda de 2022. Isto é verdade enquanto falamos do futuro. No dia do Draft, depois de fazer a escolha, os Grizzlies podiam trocar os direitos do jogador selecionado.
Outro pormenor: a regra não impede que as equipas troquem as suas picks de 1.ª ronda, impede que o franchise fique sem elas. Ou seja, os citados Vancouver Grizzlies podiam ter trocado as suas picks de 1.ª ronda de 2021 e 2022 desde que, por exemplo, detivessem a pick de 2022 dos, sei lá, Seattle SuperSonics.
Um terceiro ponto interessante é que a regra abrange cenários hipotéticos. Isto é crucial nas trocas atuais, cada vez mais estruturadas com níveis de proteção e condicionalismos. A regra é clara e não quer saber de proteções: se uma troca puder colocar a equipa num cenário em que possa não ter pick de 1.ª ronda em dois anos consecutivos futuros, essa troca não é válida à luz da Stepien Rule.
Esta é a razão pela qual, quando vemos trocas que incluem várias picks de 1.ª ronda, como a famosa troca entre Nets e Celtics em 2013, a que levou Paul George dos Thunder para os Clippers ou, mais recentemente, a que levou James Harden para os Nets, vemos picks de 1.ª ronda intervaladas com direitos de troca. Foi a forma de contornar a Stepien Rule.
Esta não é a única regra desenhada para “proteger os franchises de si próprios”. Há um track record de medidas para dar um mínimo de proteção contra a gestão danosa de um qualquer dono, porque a NBA é uma empresa. O que um franchise faz pode afetar todos os outros.
E, apesar dos três anos de Ted Stepien terem sido um exemplo exacerbado do que pode correr mal, aqui e ali vemos situações semelhantes, em escalas menores, que me lembram uma frase habitual de Danny Leroux, jornalista do The Athletic. Parafraseando e traduzindo de forma tosca: “o dono de um franchise é a maior vantagem competitiva na NBA”.
Pode soar exagerado, sobretudo num desporto onde uma superestrela em campo tem uma influência enorme, mas se um dono pode influenciar a atratividade e a capacidade de retenção dessas superestrelas, a noção pode não ser assim tão descabida. Em última análise, está muito, se calhar demasiado, nas mãos dos bilionários. Dos bilionários conhecidos.
por João Costa [@JoaoPGCosta]