O mistério de Miami: Expectativas de lançamento triplo na NBA
Vindos de um ano em que lideraram a liga, os Heat pareciam uma das piores equipas da região de três pontos durante toda a época, até deixarem de o ser. Mas tratou-se de uma variação assim tão drástica? Olhamos para a liga inteira para analisar.
Seguramente, apenas os fãs que vivem perto da linha da loucura podem afirmar que viram chegar a caminhada dos Miami Heat até às finais da NBA. Aliás, não me parece um ato de desrespeito considerar que estava a ser uma campanha desapontante durante grande parte do ano. Chegámos ao fim da época regular de 22-23 com Miami em 7.º lugar da conferência, sobrevivendo depois aos jogos de play-in, onde, aí sim, consegue garantir presença em jogos da postseason.
E no decorrer da época, havia um refrão comum partilhado por todos os leais seguidores da equipa que, em retrospetiva, viria a ter um ar de ironia: os Heat não conseguiam acertar um triplo para salvar as suas vidas.
Esta não é uma afirmação sem fundo de verdade, pois a total falta de eficácia de longa distância afetou por completo o jogo ofensivo da equipa de Erik Spoelstra: Duncan Robinson desapareceu da rotação depois de protagonizar uma das mais inexplicáveis regressões enquanto especialista de três pontos, Kyle Lowry continuou a ver os anos retirarem impulso ao seu jumpshot, Max Strus apresentou percentagens abaixo da média. Parece que, qualquer que seja o jogador, invariavelmente foi uma época regular desapontante na que é a mais desejada habilidade no desporto.
Em CleaningTheGlass.com, onde posses de bola classificadas como garbage time não são contabilizadas, podemos olhar a variação da última época com a que a precedeu ao nível do rating ofensivo da equipa, ou “pontos marcados por cada 100 posses de bola”, e da percentagem na região de três pontos:
Outra forma de perceber o declínio é olhar para as percentagens quando comparadas com a média do respetivo ano:
Portanto, quando a percentagem média da liga subiu 0,7%, a eficácia relativa da equipa de Miami variou uns assustadores -4,5%.
Uma das coisas que tornou o caso dos Heat especialmente interessante é a consistência do plantel entre estas duas épocas com resultados tão distintos. Os mesmos jogadores que lideraram a NBA no ano passado são, em grande parte, os mesmos que depois se encontraram nas catacumbas dos rankings. Aliás, nenhuma equipa teve uma maior percentagem dos minutos disponíveis desta época atribuídos a jogadores que já estavam na equipa no ano anterior, 92% segundo o Basketball Reference. Os Heat são o pináculo da continuidade a batalhar com a variação estatística.
E já vimos alguns números por alto, mas para compreender até que ponto o ano presente se trata de uma aberração, ou se esta variação se destaca sequer entre as várias equipas, fui à procura de uma forma de perceber o quanto cada um dos jogadores estava a desviar das expectativas. Para isso foi preciso mergulhar um pouco mais fundo nas estatísticas.
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A maneira mais fácil de nivelar a habilidade de um jogador de afetar a geometria do campo e a facilidade de concretização de um triplo é usar a percentagem de um jogador em lançamentos de três pontos no qual se encontra sem oposição. Ben Taylor, do excelente projeto Thinking Basketball, tipicamente fala da percentagem de wide open 3s para classificar alguém como “um bom lançador”. Por isso, neste exercício, vou simplesmente olhar para percentagens em lançamentos classificados como wide open pela NBA. Este tipo de informação só está catalogada até à época de 2013-14, a época que marca o início da chamada tracking era.
O que procuramos é saber a percentagem nestes triplos que seria expectável um jogador produzir baseado no seu histórico. Como a variação estatística nesta categoria é considerável e dados de uma só época são uma amostra pequena e pouco preditiva para o ano seguinte, alarguei a amostra: defini a “percentagem esperada em wide open 3PA” (Expected Wide Open 3P%) como a percentagem de tentativas concretizadas pelo jogador nas três épocas anteriores. No caso de jogadores para os quais não existe a totalidade desses dados, tipicamente rookies, foi considerado o valor médio da NBA em 2022-23.
Passando este passo, não podemos simplesmente fazer uma média da expectativa para os vários jogadores dentro da equipa porque isso não considera que jogadores estão efetivamente a “consumir” as tentativas de lançamento. Afinal, o Cody Zeller ter uma percentagem prevista de 25% ou de 75% é irrelevante quando ele faz duas tentativas na época inteira.
Portanto, atribuí um peso de frequência baseado na quantidade de tentativas da equipa que pertenceram a cada jogador e obtive uma “contribuição individual” para a percentagem global da equipa na época presente:
A mesma fórmula pode ser aplicada usando as expectativas que definimos para cada jogador:
Estamos agora em condições de aplicar isto aos 2022-23 Miami Heat, na versão que nos apresentaram durante a época regular.
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É preciso notar algumas limitações na abordagem escolhida:
O motivo pelo qual jogadores como Duncan Robinson não têm uma contribuição ainda pior é porque tiveram menos tempo de jogo para potencialmente continuar a “falhar” oportunidades, exatamente porque o treinador sentia que não o podia deixar em campo.
Jogadores que foram adquiridos por troca estão contabilizados como se tivessem estado na equipa o ano inteiro, tal como jogadores que deixaram a equipa não estão contabilizados de todo.
Mas tomando os resultados como uma aproximação razoável, vê-se de imediato que, mesmo com contribuições acima do esperado de Gabe Vincent e Tyler Herro, bastam apenas os números de Strus para afundar o top-3 de jogadores com maior frequência para uma região negativa.
Sendo que a execução foi abaixo do esperado já era dado, como se compara esta diferença de Miami com as diferenças das outras equipas da NBA? Podemos mesmo considerar que os Heat foram uma equipa fora do normal na variação que experienciaram?
O que se verifica é que, entre a percentagem em triplos sem oposição esperada e a real, os Heat ficaram 1,38% abaixo da marca teórica. Considerando que a eficácia média da liga aumentou de ano para ano, podemos considerar uma “diferença face à média de variação”, apresentada como Diferença Relativa. Nessa perspetiva, os Heat ficaram 2,11% aquém do esperado.
Este valor pode parecer pequeno, mas é a terceira variação mais negativa da liga e é o suficiente para passar Miami da “teórica” 7.ª equipa com melhor percentagem de concretização destes lançamentos para a 23.ª posição onde realmente terminou a época regular. Essa queda de 16 posições lidera a NBA, empatada com os Raptors.
Tendo em conta que Toronto teve uma variação percentual menos negativa e menor continuidade de plantel, há argumentos suficientes para a tese de que os Heat foram a equipa que mais sofreu com a variação estatística dos seus lançadores de distância durante o ano… ou, em termos comuns, a que teve “mais azar”.
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Mas se os adeptos mais assíduos tiveram razões para se queixarem aos deuses do basquetebol, viram ampla retribuição quando mais importa. Miami lança uns absurdos 44,1% em 234 tentativas de três pontos sem oposição durante os playoffs e atinge as finais pela segunda vez em quatro anos, com uma diferença bruta quase tão grande, 1,3%, só para a segunda melhor equipa como os próprios Heat tinham para o valor médio da época regular.
O “quase Eastern Conference MVP” Caleb Martin sozinho apresentou uns 49% de eficácia nas suas 51 tentativas. Se considerarmos apenas as séries dos Bucks e dos Celtics, as duas equipas do Este que eram à partida largamente favoritas nos confrontos, os Miami Heat concretizaram 61 das suas 119 tentativas wide open, 51,3%.
É um feliz acaso que uma só equipa mostre tão bem a variabilidade de algo que é tão decisivo no desfecho de um jogo. É evidente que os playoffs não são a habilidade real dos membros dos Heat na região de três pontos. Mas também não são uma das equipas que menos irão castigar o adversário no lançamento triplo. Se um mês e meio não é representativo, vemos que mesmo uma inteira época regular não pode resultar num juízo absoluto de um grupo de jogadores neste departamento. Em alguns aspetos, é realmente uma make-or-miss league.
Outra coisa que talvez possamos retirar daqui é que os fãs de uma equipa a jogar das expectativas, lamentando a sua “falta de sorte” e protestando que os resultados “não representam a equipa”, parecem ter tido razão. No meio de toda esta conversa de percentagens, isso deve ser a maior anomalia.