Neemias Queta: um olhar analítico
Foi mais uma época de crescimento para o internacional português, solidificando o seu lugar na rotação de uma equipa campeã em título e com ambições de repetir o feito. E trata-se de um salto significativo, pois a sua presença em campo durante a época regular aumentou de um total de 333 minutos ao longo de 28 aparições pela equipa principal de Boston, já ambos máximos de carreira para o Neemias, para 863 minutos num total de 62 aparições. O que isto significa é que temos pela primeira vez a possibilidade de construir um mapa estatístico da sua performance com um número real de minutos como amostra, e até podemos comparar com o que se viu no papel mais limitado da época anterior.
Jogando numa posição com grandes responsabilidades defensivas, faz sentido começar por ver qual o seu perfil enquanto protetor de cesto e o que é que as métricas de impacto nos dizem sobre o seu efeito deste lado do jogo:
À primeira vista, a maneira como afeta lançamentos à volta do cesto parece ter sofrido uma ligeira regressão. No entanto, isto não será surpreendente, porque um aumento de amostra leva a uma aproximação à média de coisas que estão inflacionadas por serem influenciadas por um número muito pequeno de posses de bola. E, por outro lado, a proteção de cesto é também dependente da capacidade de uma equipa de impedir penetrações no pintado, e a defesa dos Celtics tem estado com alguma “apatia” face ao nível que apresentou no ano passado, termo que uso de forma muito informal, pois a equipa desce apenas do top 3 para o top 5 no que toca ao ranking defensivo.
Ainda assim, há claros sinais de evolução individual: as faltas e o goaltending decresceram consideravelmente e Neemias tem estado mais confiante num sistema de trocas para defender no perímetro. Talvez por isso se veja uma evolução na leitura que as principais métricas de impacto, particularmente LEBRON e DPM, fazem da sua defesa.
Do lado ofensivo, Queta mantém muito do seu arquétipo enquanto jogador que procura a finalização assistida à volta do cesto, cortando para espaço vazio que lhe permita atacar o interior, seja partindo do bloqueio, seja atacando o espaço vazio longe da jogada que é gerado pela pressão desta na defesa. E é mesmo a partir do bloqueio que vemos uma maior contribuição de Neemias para gerar lançamentos para a sua equipa:
Ajustado para a posição, os lançamentos concretizados fruto da separação gerada pelos seus bloqueios catapultaram-se da média posicional para 1,2 ocorrências por 75 posses de bola face ao poste médio.
Mas o maior avanço ofensivo desta época chegou através de um grande aumento na confiança a finalizar de forma mais suave e a partir de posições de maior distância, nomeadamente recorrendo ao uso de um gancho que pode usar nas regiões mais próximas de meia distância:
E podemos ver como tem sido muito mais eficaz nessa distância face ao que demonstrou anteriormente (e podemos no quadro ver também como se comporta em diferentes tipos de finalização):
É necessário referir que a sua taxa de turnovers ajustada ainda se encontra no 11.º percentil da NBA, certamente acima do desejado para alguém que não tem grandes responsabilidades com a bola nas mãos. Mas, analisando as suas 40 turnovers desta época, verificamos que quase nunca se tratam de perdas de bola em jogo corrido, as que maiores consequências têm para a equipa que as comete. Aliás, Neemias está no 93.º percentil no que toca a ter a menor percentagem deste tipo de turnovers.
Na realidade, 6 das suas violações foram travels ou 3 segundos ofensivos e ele tem um total de 18 faltas ofensivas que não charges, das quais estarão incluídas algumas das suas 12 faltas fora da bola, que não são sempre necessariamente no ataque e por isso podem não constituir um turnover.
Por fim, podemos ver como é que uma das principais métricas de impacto compara Neemias com jogadores em situações semelhantes ou com características comuns. A métrica será DPM porque, ao invés de procurar descrever performance passada, procura determinar qual o impacto futuro do jogador, valorizando padrões robustos nas suas exibições mais recentes. Comparamos então o campeão da NBA com outros postes de equipas de topo da sua conferência:
Precious Achiuwa: poste com idade próxima de Neemias e suplente dos New York Knicks;
Jericho Sims: poste do mesmo ano de draft e que entra com a mesma idade que Neemias na NBA, suplente para os Knicks e para os Milwaukee Bucks ao longo deste ano;
Luka Garza: poste do mesmo ano de draft e que entra com a mesma idade que Neemias na NBA, atualmente suplente dos Minnesota Timberwolves e com um papel mais limitado na rotação;
Jaxson Hayes: encontra-se numa idade semelhante à de Neemias e, apesar de mais experiência na NBA, esteve em papéis semelhantes como suplente até alterações na rotação terem aberto espaço no cinco titular dos Lakers.
E vejamos o resultado:
Parece que os picos alcançados ao longo deste ano foram apenas aproximados pelos jogos mais recentes de Hayes, exatamente quando passa a partilhar muito do seu tempo em campo com Luka Dončić.
Danny LeRoux, do podcast Dunc’d On e colaborador no The Athletic, colocou recentemente Queta entre os 60 melhores postes da NBA. A posição de Neemias é ingrata, pois os postes suplentes são muitas vezes os mais vulneráveis a cortes por motivos financeiros ou a substituição por jogadores mais jovens provenientes do draft. Mas torna-se cada vez mais evidente a confiança que os Celtics parecem ter na sua capacidade de cumprir este papel e regista-se o quão encorajador é ver desenvolvimento de skills específicas e quantificáveis quando existe oportunidade real de acumular minutos em situações reais de basquetebol ao mais alto nível.
Neemias terá o seu próximo ano de contrato garantido no dia em que se iniciar a próxima época regular. Aos 25 anos, veremos o que nos espera no seu pico de carreira…