Neemias Queta e uma offseason sem respostas fáceis
O poste português provou ser insubstituível. O problema é que nos playoffs ficou claro que não havia substituto.
A série contra os Philadelphia 76ers produziu uma imagem que resume bem o estado do frontcourt dos Boston Celtics. No Jogo 7, Neemias Queta saiu do banco pela primeira vez em sete jogos de playoffs — decisão de Joe Mazzulla que, de acordo com alguns analistas, visava protegê-lo do foul trouble precoce e desemparelhá-lo dos minutos de Joel Embiid — e foi um dos melhores jogadores dos Celtics em campo.
A derrota por 109-100 e a eliminação na primeira ronda — a primeira derrota dos Celtics partindo de vantagem de 3-1 em toda a história do franchise — levantam questões que vão muito além do desempenho individual do poste português. Levantam questões sobre o frontcourt que vai entrar em campo quando a temporada de 2026-27 começar.
O que os playoffs revelaram
Neemias Queta chegou a esta primeira ronda com 13 minutos totais em playoffs na carreira, divididos por sete jogos ao longo das últimas duas épocas — garbage time, na acepção mais literal do termo. O que se seguiu foi uma estreia que expôs, com nitidez pouco habitual, as limitações de um poste inexperiente em situações de alta pressão.
Em sete jogos, acumulou 26 faltas pessoais — o valor mais alto de qualquer jogador em toda a postseason —, uma média de quase quatro por jogo que o impediu sistematicamente de completar períodos decisivos. No total, somou 152 minutos na primeira ronda, mas o padrão repetiu-se com uma regularidade desconcertante: Jogo 1 (cinco faltas, 15 minutos), Jogo 3 (quatro faltas, menos de 13 minutos), Jogo 4 (duas faltas nos primeiros três minutos, retirado de campo, 17 minutos no total). Em três dos sete jogos, Queta não completou 18 minutos.
O próprio não tentou desresponsabilizar-se. «É comigo. Tenho de melhorar. Apanhar faltas logo ao quarto, ao terceiro minuto — duas de seguida. Não é bom. Estás sempre um passo atrás», disse após o Jogo 4. No final da série, a autocrítica manteve-se: «Mostrei flashes do que consigo fazer sem cometer faltas. É uma questão de ser consistente.»
A ressalva necessária: tratava-se da primeira postseason em que Queta disputou minutos reais, contra um dos melhores postes da história da liga e motivado para provar algo. Que a adaptação tenha custado caro é compreensível. Que o problema das faltas seja tratável com experiência acumulada é razoável. Mais do que os erros de Queta — normais para quem estava a ter o primeiro contacto real com este nível de jogo, com scouting tão aprofundado e exploração sistemática das lacunas que só os playoffs revelam —, o que a série expôs foi outra coisa: a ausência de alternativa.
O jogador insubstituível e o problema que isso cria
Há uma forma de ler a época dos Celtics que só se torna evidente quando se olha para o plantel posição a posição. Nos ballhandlers, quando Derrick White estava em dia não, Payton Pritchard podia assumir e assumiu, com 17.0 pontos de média na fase regular e momentos decisivos ao longo de toda a época. Na wing, enquanto Jayson Tatum esteve ausente a recuperar de uma rotura do tendão de Aquiles, Jaylen Brown foi o líder incontestado, com Jordan Walsh, Baylor Scheierman e Hugo González a absorver os minutos disponíveis de forma competente. Havia redundância, havia alternativas, havia margem de erro.
Na posição de poste, não havia nada disso. Apesar da época positiva de Luka Garza — eficaz no lançamento de três pontos e incansável na tabela ofensiva —, nenhum outro jogador do frontcourt oferecia a estabilidade defensiva que Queta garante. O diferencial era de tal ordem que se pode teorizar, com base nos números, que Queta era o jogador mais importante para o equilíbrio coletivo dos Celtics: o net rating da equipa foi de +13.2 pontos por 100 posses de bola com ele em campo, contra valores muito inferiores na sua ausência, e a defesa construída por Joe Mazzulla dependia estruturalmente da sua presença no pintado para funcionar.
Quando essa presença foi interrompida pelas faltas nos playoffs, os Celtics ficaram sem resposta. Nikola Vučević permitiu a taxa de conversão mais alta junto ao aro entre todos os postes da NBA com pelo menos 200 tentativas defendidas durante a época regular. Garza deu alguns minutos funcionais mas tem limitações defensivas evidentes. As opções de small ball funcionaram em determinados contextos, mas não são solução para uma série de sete jogos contra Embiid. O que os playoffs revelaram não foi tanto que Queta falhou, mas sim que quando Queta foi limitado pelas faltas, os Celtics simplesmente não tinham ninguém que pudesse substituí-lo com um mínimo de garantias defensivas.
É essa a questão central que a offseason tem de resolver.
O problema vai além de Queta
Nikola Vučević chegou em fevereiro vindo dos Chicago Bulls, custou Anfernee Simons e foi apresentado como o reforço que daria profundidade ao jogo interior dos Celtics. Na fase regular, os ajustes demoraram — os primeiros jogos com duplo poste em simultâneo prejudicaram Queta e não beneficiaram Vučević —, mas o montenegrino acabou por encontrar um papel funcional como suplente: visão de jogo, pick-and-pop, playmaking a partir do poste baixo.
Nos playoffs, desapareceu da rotação. O perfil ofensivo que o torna valioso na fase regular — o lançamento de três pontos, o jogo de passe, a capacidade de espaçar o campo — não tem a mesma utilidade quando a intensidade defensiva sobe e os adversários eliminam espaços. É unrestricted free agent no final da época.
Luka Garza ofereceu minutos funcionais e foi uma das poucas surpresas positivas da fase regular, mas os seus pés lentos e as limitações defensivas evidentes tornam-no um jogador dificilmente jogável em séries de playoffs. Amari Williams, rookie promissor com médias de 12.1 pontos, 10.1 ressaltos e 5.1 assistências nos Maine Celtics, é um projeto.
Os Celtics chegaram ao Jogo 7 da primeira ronda com apenas um poste jogável em contexto de alta pressão. Um poste que tinha 13 minutos totais de garbage time nos playoffs na carreira. A equipa que entra na offseason tem um buraco no frontcourt que a época de Queta ajudou a disfarçar durante 76 jogos da fase regular, mas que os playoffs tornaram impossível de ignorar.
O que a fase regular estabeleceu
A dimensão do salto de Queta nesta época está documentada nos números. Em 76 jogos, 75 dos quais como titular, o poste de 26 anos e 2.13 metros registou médias de 10.2 pontos, 8.4 ressaltos, 1.7 assistências e 1.3 desarmes de lançamento em 25.3 minutos, com 65.3% de eficácia nos lançamentos de campo — terceira melhor marca da NBA entre todos os jogadores com volume relevante. O true shooting de 67.4% colocou-o no quarto lugar da liga. Os 17 duplos-duplos contrastam com os dois registados nas quatro épocas anteriores combinadas.
O reconhecimento chegou ao longo do ano da imprensa nacional norte-americana: Zach Lowe no The Ringer, Ben Taylor e Cody Houdek no Thinking Basketball, Michael Pina no podcast Off the Pike, Louisa Thomas no The New Yorker. Em março, entrou pela primeira vez no top-100 do The Ringer. A ESPN classificou-o em 33.º na lista dos jogadores com maior impacto esperado nos playoffs. O Third Apron estimou o seu valor de mercado real em cerca de 20 milhões de dólares por época, contra os 2.3 milhões que auferiu durante a fase regular.
O que a offseason tem de resolver
De acordo com a habitual análise de final de temporada de Bobby Marks, da ESPN, Brad Stevens tem uma decisão simples e uma decisão complexa à sua espera.
A simples é exercer a team option de 2.7 milhões de dólares que garante a presença de Queta em 2026-27. Não exercê-la seria um erro estratégico sem justificação. O português conhece o sistema, o balneário e o treinador; comprovou durante 76 jogos que é um titular legítimo na NBA; e a extensão de até quatro anos e 93 milhões de dólares que fica disponível após a ativação da opção é um instrumento que Stevens dificilmente vai querer perder por inação. A decisão sobre a extensão em si — os seus termos, o seu calendário, a sua relação com a chegada eventual de outro poste — é outra conversa, mas o primeiro passo é óbvio.
A decisão complexa é o que fazer com o restante frontcourt. Durante a época, Boston tentou ir buscar Ivica Zubac dos Los Angeles Clippers — proposta que incluía Simons, uma escolha de primeira ronda e uma pick swap futura — e não conseguiu fechar o negócio. O interesse não era acidental: os Celtics identificaram nessa negociação o perfil de poste que falta à rotação, alguém com capacidade defensiva suficiente para ser fiável em playoffs. Que o negócio não tenha avançado em dezembro não significa que a necessidade tenha desaparecido.
O que essa procura não deve fazer — e aqui o diagnóstico da série é importante — é confundir o problema. Queta é um poste tradicional e o seu valor está inteiramente associado ao papel de titular, com os minutos e o papel bem definidos. A época mostrou o que ele consegue fazer nessas condições. A postseason mostrou o que falta ainda consolidar: a gestão de faltas, a capacidade de se manter em campo nos momentos decisivos contra os melhores postes da liga.
São problemas de experiência, não de perfil. E experiência acumula-se. A condição é que o frontcourt à sua volta dê a Boston as garantias que este ano não deu.






O Simons fez falta nos playoff