Neemias Queta e a linha que separa vitórias de derrotas em Boston
Celtics somam registo de 11-4 quando poste português marca 10+ pontos; net rating de +10.5 é segundo melhor entre todos os jogadores da Conferência Este
Neemias Queta tornou-se um indicador fiável do estado competitivo dos Boston Celtics. Quando o poste português marca pelo menos 10 pontos, Boston soma 11 vitórias e apenas quatro derrotas. Quando fica aquém — mesmo jogando os seus minutos habituais —, o registo equilibra nos 8-8.
Não é coincidência estatística. É evidência de que, numa equipa reconstruída depois das saídas de Kristaps Porziņģis, Al Horford, Luke Kornet e Jrue Holiday, e da lesão de Jayson Tatum, o gigante do Vale da Amoreira se tornou peça que define se Boston ganha ou perde.
Os números de eficiência por tipo de jogada explicam porquê. Envolver Queta no ataque faz sentido porque o internacional luso está a produzir em múltiplos contextos: 1.50 pontos por posse em transição (73.4% true shooting), 1.40 pontos por posse em cortes (69.8% TS), 1.30 pontos por posse como roll man no pick-and-roll (71.0% TS) e 1.26 pontos por posse em putbacks (64.1% TS).
E a produção ofensiva não se limita à finalização, embora os 66.7% de conversão nos lançamentos de campo o coloquem no top-3 dos jogadores mais eficientes da NBA entre aqueles que jogam mais de 20 minutos por encontro. O valor real está naquilo que desbloqueia para os outros. Os 9.4 pontos por jogo gerados a partir de bloqueios diretos e as 3.8 screen assists por encontro traduzem-se em vantagens e decisões mais simples para os criadores exteriores.
O padrão replicável: de Kornet a Queta
A transformação de Queta em Boston segue um padrão já testado com Luke Kornet. No início da carreira, Kornet era um poste utilizado no perímetro. Nos Celtics foi reconvertido num jogador interior, focado em bloqueios, finalizações próximas do cesto e leitura do jogo. O resultado foi um poste funcional, eficiente e defensivamente sólido, com percentis elevados em playmaking ratio e números de proteção de cesto entre os melhores da liga.
Queta está a seguir esta evolução, mas com vantagens adicionais. A sua capacidade atlética superior permite-lhe defender em esquemas de trocas com mais frequência e aplicar maior pressão na bola. No ataque, o playmaking está em desenvolvimento — 1.5 assistências por jogo ainda não atingem o nível de Kornet —, mas a melhoria é visível, sobretudo no short roll.
Impacto defensivo entre os melhores da liga
Defensivamente, o impacto é ainda mais difícil de ignorar. De acordo com o Basketball Index, o português regista percentil 99 em screener mobile defense (defesa móvel em situações de bloqueio) e percentil 97 em screener rim defense (proteção do aro após bloqueios), duas estatísticas que medem a capacidade de um poste em defender o pick-and-roll, tanto seguindo o portador da bola como protegendo o cesto. Queta surge ainda no percentil 95 em rim deterrence (dissuasão de tentativas no aro), no percentil 92 em rim defense (defesa no aro) e no percentil 85 em rim disruption (perturbação de finalizações junto ao cesto).
O português ocupa também o percentil 97 em rim-adjusted defensive turnovers, uma estatística que mede a frequência com que um defensor força perdas de bola resultantes de pressão no aro. No block rate — percentagem de tentativas de lançamento bloqueadas enquanto está em campo —, Queta está no percentil 94 com 5.3%. Em rim frequency, métrica que avalia a percentagem de tentativas adversárias no aro que um jogador contesta, o poste dos Celtics situa-se no percentil 86, contestando 44% das tentativas junto ao cesto.
Quando Queta é o defensor mais próximo, os adversários lançam 6.3% abaixo da sua eficiência habitual. Os Celtics permitem menos 7.1 pontos por 100 posses quando o português está em campo, um diferencial que explica parte significativa do desempenho defensivo da equipa. Boston ocupa atualmente o segundo lugar da NBA em pontos permitidos na zona restritiva e o 15.º em defensive rating, números notáveis considerando as perdas de Porziņģis, Horford, Kornet e Holiday no último Verão.
A combinação de produção ofensiva e defesa de elite traduz-se num net rating individual de +10.5 para Neemias, o segundo melhor registo da Conferência Este entre jogadores com pelo menos 15 minutos por jogo, apenas atrás de Miles McBride, base dos New York Knicks. Com 34 jogos disputados, o padrão já não pode ser tratado como acaso: quando Neemias Queta junta impacto ofensivo ao domínio defensivo habitual, os Boston Celtics vencem mais.




