Neemias Queta: balanço de uma fase regular improvável
Em outubro, era apontado como a prova da fraqueza dos Boston Celtics. Em abril, entra nos playoffs como titular do segundo classificado do Este e com um contrato que vale muito mais do que o papel.
Em outubro, a lista de argumentos contra os Boston Celtics começava sempre no mesmo sítio. Law Murray, no The Athletic, tinha olhado para as 30 equipas posição a posição e colocado o frontcourt dos verdes no 30.º lugar — último entre últimos. O The Score escreveu que «os Celtics têm o pior frontcourt da liga». O Bleacher Report foi mais longe e perguntou se não seria «o pior frontcourt de todo o basquetebol». E o nome que aparecia em fóruns de adeptos como símbolo desta fragilidade era sempre o mesmo: Neemias Queta.
76 jogos depois, 75 deles como titular, o poste português de 26 anos e 2.13 metros entra nos playoffs com médias de 10.2 pontos, 8.4 ressaltos e 1.3 desarmes de lançamento, com 65.3% de eficácia no campo — terceira melhor marca da NBA entre todos os jogadores com volume relevante. Os Boston Celtics fecharam a fase regular no segundo lugar da Conferência Este, com 56 vitórias e 26 derrotas. A distância entre as duas versões desta história é curta em meses e larga em tudo o resto.
O que dizem os números
A linha estatística final do gigante do Vale da Amoreira — 10.2 pontos, 8.4 ressaltos, 1.7 assistências, 0.8 roubos de bola, 1.3 desarmes de lançamento em 25.3 minutos — não é de uma estrela. É de um poste titular que cumpre o que lhe é pedido com uma eficiência que raramente tem paralelo na liga. O true shooting de 67.4% coloca-o no quarto lugar da NBA. As 3.6 screen assists por jogo (quarto lugar) e os 8.8 pontos gerados a partir de bloqueios diretos (terceiro lugar) documentam o impacto ofensivo que nunca aparece na primeira linha da estatística. Os 17 duplos-duplos, num jogador que nas quatro épocas anteriores tinha somado apenas dois, dizem tudo sobre a diferença que faz jogar minutos reais em vez de garbage time.
Do lado defensivo, o Estimated Plus-Minus do site Dunks & Threes coloca-o no percentil 95 da liga em impacto defensivo (+2.3 pontos por 100 posses de bola), com um impacto total de +3.5 no percentil 94. E há um marco que resume a escala do salto: primeiro Celtic desde Robert Parish, em 1992-93, a terminar uma época regular com 600 ou mais ressaltos (636), 90 ou mais desarmes de lançamento (100) e 50 ou mais roubos de bola (60).
O que mudou
A diferença face às épocas anteriores não é apenas de minutos. É de papel, de responsabilidade e de confiança acumulada. Neemias chegou ao training camp do verão passado depois de uma artroscopia ao joelho e de um EuroBasket em que foi o melhor jogador português na fase final de um grande torneio — 15.2 pontos e oito ressaltos de média em seis jogos. Joe Mazzulla telefonou-lhe antes do arranque da época a garantir-lhe o lugar no cinco inicial. O poste respondeu com o melhor jogo da carreira a 1 de março: 27 pontos e 17 ressaltos, dos quais dez ofensivos, tornando-se o primeiro Celtic desde Parish, em 1989, a somar pelo menos 25 pontos e dez ressaltos ofensivos numa única partida.
Dois momentos desta época podiam ter interrompido a trajetória, mas Neemias não deixou que isso acontecesse. Em fevereiro, Brad Stevens trocou Anfernee Simons para os Chicago Bulls para ir buscar Nikola Vučević, um poste veterano por duas vezes convocado para o All-Star Game. As primeiras exibições de Neemias ao lado do montenegrino foram as mais fracas da época: demasiados lineups de duplo poste, papéis mal definidos, impacto diluído. Mazzulla ajustou, definiu a hierarquia — Neemias titular, Vučević do banco — e o português reencontrou o nível. Em março, Jayson Tatum regressou de uma rotura do tendão de Aquiles após 298 dias de ausência. O primeiro cesto do jogo do regresso foi um alley-oop para Neemias, e nos últimos 20 jogos da fase regular os dois construíram uma ligação que ainda não tinham tido tempo para desenvolver em anos anteriores: 20 das assistências de Tatum nesse período foram para o poste português, com 55.6% de conversão.
A prova que falta
Toda esta época foi construída na fase regular, contra defesas que não tinham séries de sete jogos para planear coberturas específicas. Os playoffs são outra coisa. Os analistas que mais elogiaram Neemias ao longo do ano sublinharam a mesma questão: quando Tyrese Maxey, Jalen Brunson, Cade Cunningham, James Harden ou Donovan Mitchell começarem a usar sistematicamente o pick-and-roll para isolar o português no perímetro, como é que ele responde? A drop coverage que funcionou durante 76 jogos vai resistir a uma série em que o adversário tem vários dias entre jogos para afinar o plano?
Não há resposta ainda. O que existe é um poste que chega a estes playoffs com mais argumentos do que qualquer pessoa previu em outubro, numa equipa que os Celtics estão a construir para ser competitiva também em 2026-27. A team option de 2.7 milhões de dólares para a próxima época será quase certamente ativada. O valor de mercado real — estimado pelo Third Apron em cerca de 20 milhões de dólares por ano, contra os 2.3 milhões que aufere esta época — é a melhor forma de resumir o que a liga ainda não pagou. A extensão de até 93 milhões por quatro temporadas que a ESPN colocou na mesa como hipótese depende do que acontecer a seguir.
E o que acontecer a seguir começa no domingo, dia 19 de abril, no TD Garden, no primeiro jogo de uma série contra os Philadelphia 76ers ou os Orlando Magic. O poste que em outubro era prova da fraqueza dos Celtics tem agora a oportunidade de provar que é, de facto, o poste titular de um candidato ao título. Essa é a única prova que falta.



