Neemias Queta assina melhor jogo da carreira e ouve cânticos de MVP
Poste português somou 27 pontos, 17 ressaltos e três desarmes de lançamento na vitória sobre os Philadelphia 76ers e entrou na história dos Boston Celtics.
Neemias Queta protagonizou esta noite a melhor exibição da sua carreira na NBA, liderando os Boston Celtics na vitória sobre os Philadelphia 76ers por 114-98, no TD Garden. O poste português, de 26 anos, estabeleceu novos máximos pessoais em pontos e ressaltos ofensivos, terminando o jogo com 27 pontos (10/14 FG, 7/10 FT), 17 ressaltos — dez deles na tabela ofensiva —, duas assistências, um roubo de bola e três desarmes de lançamento em apenas 27 minutos, tornando-se o primeiro Celtic desde Robert Parish, em 1989, a somar pelo menos 25 pontos e dez ressaltos ofensivos num único jogo.
Com este resultado, Boston melhorou o registo para 40 vitórias e 20 derrotas e consolidou o segundo lugar da conferência Este.
O jogo
Os Celtics entraram em campo em dificuldades. No primeiro período, converteram apenas quatro das 13 tentativas de campo e um dos nove lançamentos de três pontos, cedendo uma vantagem de dez pontos a Philadelphia. Queta foi a razão pela qual a diferença não foi maior: recuperou bolas que apenas ele conseguia alcançar, manteve os Celtics vivos na tabela ofensiva e foi ao lançamento livre quando ninguém mais conseguia pontuar.
Ao intervalo, o panorama era outro. Queta já somava 16 pontos e 12 ressaltos — máximos pessoais numa parte — e tinha atingido duplo-duplo com mais de sete minutos ainda por jogar no segundo período. Boston tinha operado um parcial de 47-25 nos últimos 15 minutos da primeira metade, virando o marcador para uma vantagem de 12 pontos.
Philadelphia respondeu no regresso dos balneários. Tyrese Maxey marcou 13 pontos no terceiro período e os 76ers reduziram para seis pontos a caminho do quarto. Quando a diferença voltou a estar a uma posse de bola, foi Queta quem encerrou o jogo.
Com os Celtics a vencer por 103-97, Queta bloqueou um lançamento de Maxey e condicionou imediatamente a tentativa seguinte de V.J. Edgecombe na mesma posse. A partir daí, marcou os últimos oito pontos dos Celtics: um and-one, dois lances livres, um mergulho ao cesto após bola solta e um ressalto ofensivo convertido em cesto. O TD Garden respondeu com cânticos de MVP.
«Só a tentar divertir-me», disse Queta no balneário depois do jogo.
A explicação para a exibição encontra-se na forma como soube ler o que a defesa lhe deu. Philadelphia optou por pressionar os ballhandlers dos Celtics, tentando tirar Jaylen Brown e Derrick White do ritmo na condução do ataque. A estratégia abriu espaços no interior que Neemias soube explorar com uma consistência que não existia no início da época.
«Está muito mais fácil para mim neste momento», disse Queta. «Só o número de repetições que tenho tido com os meus colegas todos os dias, a perceber o que gostam e o que não gostam. O jogo está a abrandar para mim. Quando têm dois jogadores na bola, o facto de eu conseguir ser uma ameaça para as defesas torna-nos muito mais perigosos.»
Brown, que terminou com 27 pontos, oito ressaltos e oito assistências, confirmou a leitura tática. «O poste deles estava em cima, então os espaços estavam abertos. Demos-lhe a bola e confiámos nele para tomar a decisão certa. Fê-lo sempre.»
Questionado sobre as finalizações mais acrobáticas, Brown tentou manter a compostura. «Não queremos que ele se deixe levar por essas jogadas», disse, a conter um sorriso. «Mas marcou esta noite e está tudo bem. Noutras noites podia não ter convertido. Há que lhe dar crédito onde o crédito é devido.»
Joe Mazzulla, na conferência de imprensa pós-jogo, encontrou o pormenor a corrigir. Mesmo depois da melhor noite da carreira do seu jogador, o treinador dos Celtics identificou uma tendência recente: Queta tinha desarmado um lançamento para fora das quatro linhas quando podia ter segurado a bola. Era a terceira vez nas últimas semanas.
«Se consegues agarrar, agarra», disse Mazzulla. «Para quê dar mais uma posse a uma equipa quando podes simplesmente ficar com a bola e sair em transição? É definitivamente algo em que tem de melhorar.»
Para Queta, é exatamente essa exigência que o tem desenvolvido. «É fácil, numa noite assim, relaxar. Quando o Joe continua a vir ter contigo, só podes melhorar. Em campo não achei que conseguia agarrar, mas quando me acalmei fez sentido. Espero conseguir fazer isso nos próximos jogos.»
O verão que tornou esta noite possível
O telefonema de Mazzulla aconteceu antes do training camp. Depois de Al Horford e Luke Kornet terem saído na free agency e de Kristaps Porziņģis ter sido trocado para os Atlanta Hawks, os Celtics ficaram sem os três postes que tinham composto a rotação na conquista do título em 2024. Queta, quarto poste da rotação, passou a titular.
«Dizer-lhe no verão que ia ser o poste titular foi para dar-lhe tempo para se preparar fisicamente, mentalmente e emocionalmente, para o que significa ser o poste titular dos Celtics», explicou Mazzulla.
A chamada encontrou Queta em preparação para o EuroBasket com a seleção portuguesa, depois de uma cirurgia ao joelho. Descreve o verão como transformador: a chamada do treinador, a recuperação, a competição com Portugal e um trabalho intenso de aperfeiçoamento técnico.
«Jogar por Portugal foi enorme para mim este verão. Permitiu-me ganhar ritmo, ganhar confiança. A partir daí foi só uma fase de construção. Trabalhámos muito, antes e depois da cirurgia — ressalto, defesa no pick-and-roll, reconhecimento de matchups. Foi um verão muito importante para mim.»
Os números da época refletem esse trabalho: Queta apresenta médias de 10.1 pontos, 8.3 ressaltos, 1.3 desarmes de lançamento e 64.5% de eficiência no campo em 24.9 minutos por jogo — todos máximos de carreira. Foi titular em 56 dos 60 jogos que os Celtics realizaram. O que explica o salto, segundo o próprio, vai além da preparação física.
«São as expectativas que têm de ti», disse sobre o corpo técnico. «Têm realmente um fator de cuidado por ti como pessoa. A capacidade de exigirem muito de ti todos os dias e ainda assim construírem uma relação contigo fora do basquetebol — tendo sempre os teus melhores interesses em mente — vai além dos esquemas táticos. Torna o teu trabalho muito mais fácil porque tens o apoio deles.»
Brown vai mais longe na avaliação do potencial do colega de equipa. «Sinto que tem outro nível a que pode chegar, e sinto que está a começar a atingir esse nível. Há que continuar a alimentar isso.»
Andre Drummond e a lição no parquet
A exibição desta noite, com transmissão televisiva a nível nacional nos EUA, não passou despercebida fora de Boston. Com 27 pontos, 17 ressaltos e três desarmes, Queta juntou-se a Larry Bird, Robert Parish, Dave Cowens, Kevin McHale e Mark Blount na lista de Celtics com esses números num único jogo.
Durante o jogo, Bobby Marks, analista da ESPN, foi direto na sua avaliação: «Most Improved Player — Neemias Queta.» Sam Vecenie, scout e analista, contextualizou a candidatura: «Passou de um jogador que nem sequer estava na rotação dos playoffs no ano passado para ser um titular indispensável no segundo classificado do Este.» Chris Mannix, da Sports Illustrated, resumiu: «Neemias Queta a lançar a sua candidatura para o prémio de Most Improved Player na televisão nacional. Uma primeira parte monstruosa.»
Mas a voz mais inesperada da noite veio do lado oposto. Andre Drummond admitiu que foi superado sem rodeios: «Jogou muito bem. Acho que foi a melhor noite da carreira dele. Uma merda que tenha acontecido contra mim, mas é o que é.»
Drummond não ficou só pela análise do jogo. Procurou Queta no final e transmitiu-lhe uma mensagem direta: «Disse-lhe: “Constrói a partir daqui. Usa isto como ímpeto. Deves sentir-te bem contigo próprio. Foi um grande jogo. Voltaste a jogar bem. Faz de novo.”»
A relação entre os dois vem de trás. Queta tem procurado Drummond para conselhos sobre ressalto desde o início da época passada. O poste dos 76ers ensinou-lhe a sentar-se depois dos treinos a observar os colegas a lançar — a perceber os padrões de erro de cada um para antecipar as posições. Esta noite, Queta aplicou essa metodologia.
«Sempre que posso obter o conselho de alguém sobre como melhorar, tento fazê-lo», disse Queta. Mazzulla, que acompanha o processo há três épocas, sabe melhor do que ninguém o que essa frase vale: «O processo pelo qual passou para ganhar o que tem é o que me importa.»
A seguir a uma noite histórica no TD Garden, os Celtics partiram para Milwaukee. Esta noite jogam contra os Bucks, no segundo jogo de um back-to-back. Mazzulla já tinha resumido o espírito da casa antes de sair do balneário: «Em menos de 24 horas, temos de o fazer de novo.»




