Jovana Nogić, de Albufeira à WNBA
Base internacional sérvia tem dupla nacionalidade portuguesa e é uma das revelações do arranque da época 2026 da liga norte-americana.
Jovana Nogić nasceu em Belgrado em 1997, mas cresceu em Lisboa. Nos primeiros jogos da época 2026 da WNBA, a ESPN descobriu-a. Portugal já a conhece há muito mais tempo.
Oito triplos em dois jogos
A estreia foi em Las Vegas, no dia em que as Aces receberam os anéis de campeãs e saíram a perder por 99-66 frente às Phoenix Mercury. Nogić, titular por ausência de Monique Akoa Makani — ainda com compromissos europeus —, marcou 19 pontos em 21 minutos. Somou 4/5 nos triplos, quatro assistências e dois roubos de bola. Igualou o recorde da WNBA de triplos concretizados numa estreia (quatro) e tornou-se a segunda jogadora na história da liga a marcar 19 ou mais pontos numa primeira parte da estreia, depois de Candace Parker, que fizera 21 na segunda metade do seu primeiro jogo, em 2008.
A reação foi de quem não se reconhece no rótulo de novata. «Estou apenas feliz e grata por estar aqui», disse após o jogo. «As minhas colegas são tão boas companheiras que tiram toda a pressão. Disseram-me apenas para ir lá, divertir-me e aproveitar o momento.»
Dois dias depois, frente às Golden State Valkyries, repetiu: 16 pontos, 4/5 nos triplos. Nos dois primeiros jogos: 8/10 de longa distância e 35 pontos, juntando-se a Diana Taurasi como a única rookie na história da WNBA com 30 ou mais pontos, pelo menos 50% de eficiência e seis ou mais triplos nos dois primeiros jogos de carreira.
O que esses jogos revelaram à WNBA não foi apenas uma shooter a partir do passe — competência que a sua época em Yekaterinburg refinou: na liga russa em 2025/26, registou 43% de eficiência em 149 tentativas de longa distância. Nogić também é capaz de criar o próprio lançamento e está confortável a operar a partir do drible.
O terceiro jogo foi diferente. Frente às Minnesota Lynx na estreia em casa, Phoenix perdeu por 88-84 e Nogić não encontrou o cesto: 0/6 do campo, dois pontos em 17 minutos. Ela própria tinha antecipado a curva de aprendizagem após o jogo em Golden State. «A fisicalidade é diferente. É uma liga incrivelmente física e há uma adaptação a fazer. Em termos defensivos, estou ainda a perceber onde estão os limites das faltas.» Nos três jogos, acumulou 3.7 faltas pessoais por partida. É um número a corrigir. Ainda assim, ao fim de três jogos regista médias de 12.3 pontos, 2.3 assistências, 1.7 roubos de bola.
Leituras de excelência
Nos dois jogos em que teve mais de 20 minutos, Nogić somou cinco assistências — uma média modesta em termos absolutos, mas que ganha sentido num contexto de quase zero tempo de treino com as colegas. A integração com Alyssa Thomas, DeWanna Bonner, Natasha Mack e Kahleah Copper foi imediata, seja em 5x5 em meio campo ou em transição.
«Jogar com alguém como a Alyssa é... uau. Ela facilita o trabalho de toda a gente, tanto no ataque como na defesa», disse Nogić após um jogo. Thomas, por sua vez, contextualiza de onde vem essa facilidade de adaptação. «Já as vimos jogar ao longo dos anos. São as consumadas profissionais. Já sabemos do que são capazes. Agora é mostrar isso aos outros.»
Nate Tibbetts, o treinador das Mercury, enquadra a contratação numa mudança mais ampla do mercado. «Esta é uma jogadora que não veio antes porque talvez não compensasse financeiramente. O aumento do tecto salarial é, esperemos, um motivo para que mais jogadoras europeias comecem a vir.»
Curva de aprendizagem
A capacidade de criar desequilíbrio em situações de isolamento é outra das ferramentas que Nogić traz. Na seleção sérvia joga habitualmente como base-extremo; nas Mercury tem operado como base titular durante a ausência de Akoa Makani. Em qualquer das posições, tem velocidade e capacidade técnica suficientes para colocar dificuldades a qualquer defensora.
A WNBA está a ensinar-lhe a calibrar essa agressividade dentro das regras específicas da liga. O ajuste defensivo é a tarefa mais imediata. Mas o que Jovana traz não se aprende em três jogos: uma década de basquetebol competitivo, incluindo os Jogos Olímpicos de Paris em 2024 com a Sérvia, estão incorporados numa leitura de jogo que não é de novata.
De Albufeira a Phoenix
Goran Nogić, pai de Jovana ou ‘Yoyo’, trabalhou no Imortal, no Barreirense e no Estoril Basket, antes de oito anos como coordenador de formação no Benfica. A filha começou no CB Albufeira em 2004, aos seis anos. Seguiu para o Imortal, antes de chegar ao Benfica em 2007. Seguiu-se Providence College, na NCAA, entre 2015 e 2019. Em quatro épocas universitárias, tornou-se a quarta melhor marcadora de sempre no programa (1.724 pontos) e bateu o recorde de triplos concretizados na história do Providence (323). Formou-se em ciências da computação e foi eleita a melhor atleta feminina da instituição no seu último ano.
Depois veio o circuito europeu. Espanha, Turquia, Rússia. Em Yekaterinburg chegou ao topo: capitã da Sérvia, eleita a melhor jogadora sérvia de 2025 pela respetiva federação, MVP da Supertaça russa, campeã e vencedora da Taça russas em 2025/26.
Nesse percurso, jogou quatro vezes contra Portugal nos apuramentos para os europeus: novembro de 2024 (15 pontos), fevereiro de 2025 (oito), novembro de 2025 (11) e março deste ano, em Almancil, quando liderou a Sérvia com 18 pontos numa vitória por 71-58 que garantiu o primeiro lugar do grupo de apuramento para o EuroBasket 2027. No EuroBasket 2025, liderou a Sérvia ao 13.º lugar, logo atrás de Portugal, com média de 14.3 pontos por jogo e 53.3% de eficiência no lançamento exterior.
A WNBA classifica-a como undrafted rookie. É uma precisão técnica correta. Em tudo o resto, Jovana Nogić não tem nada de estreante. A WNBA é que está a chegar com atraso.




