Há espaço para melhorar?
No dia 6 de julho de 2024, os Dallas Mavericks oficializaram a sign-and-trade que trouxe Klay Thompson para o Texas, colocando um ponto final na relação de 13 anos entre o lendário atirador e os Golden State Warriors.
Para os Mavs, seria um reforço importante no ataque ao título, depois da recente derrota nas finais. Para Klay, uma oportunidade para um quinto anel, mas seria também um novo desafio e um ecossistema ofensivo muito diferente. Habituado ao ambiente motion-heavy de Steve Kerr, Thompson iria agora jogar num sistema de pick and roll, com uma superestrela heliocêntrica que puxa todos os cordelinhos e mais alguns.
A questão é: seria um bom casamento?
A universalidade do valor de movement shooters na NBA sempre foi um tema interessante para mim. É frequente ver no meu draft Twitter pessoas a argumentar que esse tipo de atiradores deve ser visto com valor diminuído, visto que as equipas nunca irão estar disponíveis para mutar os seus ataques de modo a otimizá-los. Um atirador é um jogador secundário cujo valor está em devolver valor com a conveniência de não ter de mudar as rotinas da equipa.
E eu entendo isso. Utilizar sistemas motion-heavy (ou muito bloqueio indireto) implica um certo compromisso, um desvio da meta ofensiva e uma infraestrutura, com vários jogadores D/P/S, bigs que passem e atividade sem bola, que não são comuns na NBA.
A minha questão é: o “threshold de esforço” é assim tão alto para as equipas? É preciso mudar um ataque assim tanto para amplificar o valor deste jogador?
Com Klay em Dallas a questão não é igual, até porque toda a gente conhece o valor do jogador, mas é semelhante.
Para quê trazê-lo para o Texas quando Jason Kidd nem sabe o que é uma split action? Vale a pena pagar ao segundo melhor atirador da história da liga para ser apenas um catch-and-shoot glorificado, que acampa na linha até que Luka e Kyrie o procurem? Não faria mais sentido pagar a um atirador mais replacement-level que custasse menos dinheiro e fizesse o mesmo serviço?
Portanto, fica a pergunta pertinente:
Qual era a necessidade?
Ponto assente: os Mavericks dependem da bola de 3 para o ataque funcionar. Nos últimos três anos, desde que Kidd pegou na equipa, estiveram sempre no top-5 em 3PAr. Um pouco como os Rockets de Harden, de que são os sucessores espirituais, a turma de Dallas precisa do catch-and-shoot 3 dos seus jogadores secundários para que tudo carbure.
Foi com uma enxurrada de triplos que despacharam os Thunder nos playoffs. O inverso aconteceu nas finais, onde perderam com Boston.
Na época regular de 2023/24, os Mavs foram das melhores equipas a converter wide open 3s, mas apenas converteram 34.7% em open 3s (43.º percentil), apesar de gerarem o 2.º maior número de FGAs desta tipologia.
Em catch-and-shoot 3, converteram 36.7% das tentativas, os 22.ºs na época regular transata. Mais: se continuarmos a olhar para a temporada passada, vemos que grande parte do supporting cast lançou abaixo da média da liga, ainda que num volume relativamente baixo (e em lançamentos pouco contestados). Apenas Tim Hardaway Jr., um aficionado do pull-up jumper que se mudou para Detroit, se destacou.
Por comparação, Klay Thompson em 23/24 lançou 38.7% em 9 3FGA/jogo. Em wide open 3 foram 37.9%, em open foram 39.2%. Foi um ano mau, para o seu standard.
Portanto, a resposta à pergunta é: sim, Klay Thompson faz todo o sentido, nem que seja como ameaça catch-and-shoot glorificada. O ex-Warrior é o melhor atirador que Luka tem ao seu dispor desde que está na NBA, e talvez apenas Seth Curry se aproxime timidamente.
A questão agora é, estando a necessidade identificada, como implementar Thompson no ataque de Dallas? Porque embora discorde que os Mavs necessitem de mutar o seu jogo para obter grande valor com Klay, a ideia aqui não é otimizar o jogador, é otimizar o ataque sem o descaracterizar da sua natureza Luka-cêntrica, concordo que Klay pode e deve ser mais do que um rudimentar atirador.
E, por isto tudo, fui à aventura e, alimentado pela curiosidade, dediquei as minhas primeiras horas de NBA 2024/25 aos Dallas Mavericks e a tentar entender como um dos meus jogadores favoritos tem sido usado.
Keep it simple, stupid
Algumas das primeiras notas não envolvem nenhum tipo de smoke and mirrors ou alteração ofensiva face ao ano passado. A mera presença de Thompson na meia quadra atacante como ameaça no catch-and-shoot é suficiente para alterar o posicionamento defensivo.
Os Mavs correm uma grande quantidade de pick and roll e têm usado Klay como peão em várias posições para mexer com a geometria do campo e obrigar as ajudas a tomar decisões difíceis, sem ter de o envolver na ação com bola.
Quando temos Dončić ou Irving a sair do bloqueio, Lively a rolar forte para o cesto e um atirador lendário a um passe desta ação, o que é que a defesa faz?
Nesta ação, o low man (homem de Klay) é o responsável por taggar o roll de Lively. O problema é que Luka consegue fazer o skip pass de olhos fechados para quem quer que esteja no canto fraco.
Depois, não é só a presença de Thompson nos cantos (40.2% em 23/24, by the way). É o facto de os Mavs conseguirem deslizar Kyrie para a asa do mesmo lado, não só negando a ajuda do canto, mas também obrigando a ajuda na nail (VanVleet) a decidir se quer ou não afundar no garrafão, deixando Kyrie aberto para fazer a sua magia.
Nesta foto abaixo a história é semelhante, passando Luka para o papel sem bola na asa e Kyrie para o pick and roll:
Os papéis não têm sido exclusivamente estes. Os Mavs têm igualmente usado Klay na wing e não no canto, especialmente em ações desenhadas para Luka penetrar em drible pela direita, limpando a ajuda, que fica obrigada a não largar Thompson.
Sem a certeza de correlação, o maior espaçamento, para o qual Klay contribui, pode estar a impactar o volume de lançamentos à volta do aro:
Algo que não aconteceu ainda, mas suscita curiosidade, é perceber se e como as equipas vão atirar traps a Luka em momentos de maior fulgor ofensivo. Se Dončić conseguir encontrar o big, o 4×3 pode ser devastador com Kyrie e Klay na segunda linha. Particularmente porque Lively tem mostrado mais do que capacidade para dissecar defesas com o passe no short roll.
A gravidade de Thompson tem sido usada de outras formas, de maneira mais esporádica. Seja ao colocá-lo a um passe de distância de situações de isolation — aqui, a um passe de distância do post-up, evita a ajuda de Tristan da Silva:
Numa situação diferente, Kidd desenha um duplo pindown no lado fraco, suficiente para deixar Wembanyama visivelmente confuso e fazer a estrela francesa chegar tarde demais ao aro para negar a drive de Luka.
A transição é outra área de impacto para o californiano, especialmente para uns Mavericks que durante muito tempo foram negacionistas do pace, mas parecem ter abraçado um ataque mais rápido (6.º pace em 23/24), muito por influência de Kyrie Irving. Seja a leaker cedo e preencher os cantos, ou a aparecer tardiamente numa das asas, Klay tem cumprido. A isso ajuda o facto de os Mavs terem utilizado outros portadores em transição, para além da “hidra” Kyrie e Luka, com PJ Washington e o reforço Naji Marshall à cabeça.
Depois, uma última wrinkle que os Mavericks têm usado, especialmente na vitória contra Minnesota: utilizar Klay como screener on-ball, explorando a sua gravidade como shooter para forçar trocas e deixar defensores inferiores perdidos numa ilha contra os dois shot-makers da equipa.
Pick and Roll magic
O spread pick and roll é manifestamente importante para o ataque dos Mavericks e é outra área onde a presença de Thompson se tem feito sentir, sem ter de reinventar a roda.
O Spain pick-and-roll foi um dos spams preferidos de Jason Kidd na época de 2023/24, especialmente com Kyrie a bloquear para o bloqueador na bola. Esta época, Klay encaixa perfeitamente no mesmo papel:
Nota aqui para a maneira como Thompson, num segundo Spain pick-and-roll, lê como Chris Paul antecipa o seu bloqueio e faz flare para o topo, e opta por, espontaneamente, abrir para a direita a meio da jogada, abrindo uma linha de passe improvisada para Luka. Coisas de veterano.
Voltando ao Spain pick-and-roll, uma nuance diferente aqui, com um bloqueio duplo: Klay bloqueia para PJ, que rola, e usa Lively, que fica no topo, para receber um bloqueio para o catch-and-shoot em movimento:
Outro set simples: utilizar Thompson como um dos bloqueadores num double screen, que abre para fora, invariavelmente com Gafford ou Lively como segundo bloqueador, que rolam. Uma maneira simples de colocar dois pontos de pressão simultâneos na defesa, enquanto Luka carrega a bola.
Um sucedâneo particularmente letal deste double screen é este set em que Klay recebe um ram screen pelo big (Gafford), com ambos a transitar rapidamente para um duplo bloqueio. Esta jogada vai ser especialmente difícil de lidar para as defesas, que têm tendência para dar trap/hard hedge a Luka, de modo a tirar o segundo bloqueio. O problema é que estes microsegundos de ajuda são suficientes para deixar Thompson aberto no topo da linha de 3.
Têm havido, aqui e ali, outras ações, como drag e double drag screens para tirar proveito do ímpeto da transição, sempre com o californiano a abrir para o triplo, ou alguns simples Luka/Klay pick & pops, que obrigam a defesa a negociar entre o triplo aberto, o pull-up jumper ou a penetração em drible.
Auto-criação, dare I say?
Ok, admito que o título é meio enganador. Os Mavs não estão a correr 50 reps de pick and roll para Thompson, até porque o ex-Warrior tem estado sempre atado a Kyrie, Luka, ou ambos em simultâneo, mas vale deixar notas de “criação com bola”.
Kidd tem usado Thompson a receber pindowns vindos do empty side, para receber a bola em movimento no topo, contra uma defesa já descompensada, de maneira a facilitar o seu shot-making e desbloquear a penetração para o cesto. Pode vir a ser um estímulo importante, até porque o atirador dos Mavs está a lançar uns baixíssimos 4.7% dos seus FGAs no rim (vs. 14.4% no ano passado).
Kidd tem, estrategicamente, colocado Kyrie ou Luka a bloquear para Thompson antes do DHO, com o big a rolar no pós-entrega. Parece ser um incentivo ao passe para o novo Mav que, sem nunca ter sido um distribuidor incisivo, passa a ter duas opções superdinâmicas a um passe de distância e uma defesa a correr atrás do prejuízo.
Daqui para a frente
Com sete jogos em cima, é impossível fazer um assessment estatisticamente confiável sobre o impacto de Klay Thompson no ataque dos Mavs.
O que podemos dizer é que, estilisticamente, o ataque não mudou muito. Podemos até especular que, instrumentalizando Klay tanto como shooter estático como screener, os Mavs estão a agarrar ainda mais o pick and roll (4.º em frequência de jogada em 24/25 vs 15.º em 23/24) e não fogem ao isolation (3.º em 24/25 vs 2.º em 23/24), que invariavelmente é consequência do pick and roll em si, sem descurar a transição. Num golpe de simplicidade astuta, Jason Kidd tem encontrado maneiras simples de usar Thompson sem, como disse no início, descaracterizar a natureza da sua turma.
Se isso vai funcionar, ou melhor, se será suficiente para justificar o valor do jogador, é uma resposta abstrata que ficará invariavelmente ligada à performance ofensiva do coletivo. Os texanos estão a ter um princípio de temporada ofensivamente morno (15.º em ORtg), muito à boleia de um Luka Dončić pouco eficiente e, já agora, de uma incapacidade geral de chegar à linha de lance livre. A ver vamos como este ataque vai carburar com o progredir da temporada.