O desporto é, habitualmente, uma reflexão imperfeita da nossa sociedade. Tal como na vida, também no basquetebol o inesperado bate à porta de todos, por boas e más razões, alterando drasticamente um caminho que parecia certo. Devido a problemas pessoais, lesões ou falta de motivação, ficamos privados de vislumbrar a grandeza contínua daqueles que, durante a sua vida, mostraram que eram capazes de o fazer.
Os what ifs da NBA existem em grande quantidade, como é o caso de Grant Henry Hill. Este é o nome completo de um dos melhores basquetebolistas de todos os tempos. Sim, pelo menos eram essas as expetativas para o point forward ao longo dos anos 90.
G-Money, Baby Boy Hill, Mr. Nice, Mr. Triple Double são algumas das alcunhas que acompanharam Grant Hill ao longo da sua carreira, que descolou na Universidade de Duke, sem limite aparente nas redondezas.
De Reston até Duke, um início de luxo
Nascido em Dallas, Texas, no dia 5 de outubro de 1972, filho de Janet Hill e Calvin Hill (antigo jogador da NFL), mostrou as suas apetências para o basquetebol em Reston, no estado da Virgínia. Para Grant, a adolescência na escola de South Lakes foi “única”, um local em que “nem existia o sonho de jogar basquetebol universitário ou chegar à NBA, simplesmente desfrutar cada dia”.
Após a época sénior em South Lakes, Baby Boy Hill era um dos jovens basquetebolistas mais cobiçados pelos melhores programas universitários. A mãe queria que o filho fosse para Georgetown; o pai puxava a atenção de Grant para North Carolina. Nem uma nem outra: Grant Hill escolheu a Universidade de Duke para o seu próximo passo, decisão que se revelou mais do que acertada.
Entre 1990 e 1994, os Blue Devils de Coach K prosperavam na NCAA, com a versatilidade de Grant Hill a completar um plantel que incluía atletas que dominaram o basquetebol universitário norte-americano, como Christian Laettner e Bobby Hurley. Nas duas primeiras temporadas em Duke, o sucesso bateu à porta com dois títulos consecutivos (1991 e 1992), sendo que a final de 1992, frente a Kentucky, foi uma das mais épicas da história do torneio, com a famosa Hail Mary a dar a vitória aos Blue Devils.
Após os Jogos Olímpicos de Barcelona 1992 e a saída de Laettner para a NBA, Hill tornou-se líder indiscutível da equipa, demonstrando ainda mais a sua versatilidade nos dois lados do campo. Com 2,08 m de puro talento, G-Money era um verdadeiro point forward, com um skill set único para um extremo: excelente defensor, rápido, atlético, um verdadeiro do-it-all, algo que hoje vemos em atletas “grandes” como LeBron James e Giannis Antetokounmpo.
Em 1993, Hill venceu o prémio Henry Iba Corinthian Award (atualmente designado NABC Defensive Player of the Year), consagrando-o como o melhor defensor de toda a NCAA nessa temporada. Em 1994, fez história novamente, tornando-se o primeiro jogador de sempre da ACC a registar mais de 1 900 pontos, 700 ressaltos, 400 assistências, 200 roubos de bola e 100 desarmes de lançamento.
“With the third pick in the 1994 NBA Draft, the Detroit Pistons select Grant Hill, from Duke University”
Depois de encantar os adeptos em Duke, o destino de Grant Hill estava traçado, com a NBA à espera de receber a sua próxima estrela, numa altura em que Michael Jordan decidiu trocar a “borracha laranja” por um taco de baseball.
Para além da liga, também uma certa equipa em Detroit depositava esperanças no jovem de 22 anos. No Draft de 1994, os Pistons tinham a 3.ª escolha e os Bad Boys estavam num claro período de rebuild após a retirada de Isiah Thomas, que, juntamente com Joe Dumars, formou uma das melhores duplas de bases da NBA, levando os Detroit Pistons à conquista de dois anéis consecutivos (1989 e 1990).
Depois de os Milwaukee Bucks selecionarem Glenn Robinson (Universidade de Purdue) e os Dallas Mavericks escolherem aquele que viria a ser um dos bases que marcou uma era (Jason Kidd, Universidade da Califórnia, Berkeley), Detroit não hesitou em trazer o número 33, que encantara o Cameron Indoor Stadium durante quatro temporadas.
O impacto de Hill na NBA foi notório logo no primeiro ano como profissional, com médias de 19,9 pontos, 6,4 ressaltos e 5,0 assistências, tornando-se o primeiro rookie em Detroit a marcar mais de 1 000 pontos desde Isiah Thomas, em 1981/82.
Com capacidade atlética, velocidade invulgar para 2,08 m, um crossover letal e uma personalidade simpática, Mr. Nice era visto como o sucessor de MJ, com os fãs a deliciarem-se com cada highlight do jovem extremo.
Ainda na época de estreia, Grant Hill voltou a fazer história, sendo o primeiro rookie de sempre a liderar a votação dos fãs para o All-Star Game em qualquer uma das quatro principais ligas norte-americanas (MLB, NFL, NHL e NBA), cimentando o impacto imediato. No final da temporada, foi co-Rookie of the Year, juntamente com Jason Kidd (Dallas Mavericks) e, apesar do insucesso coletivo dos Pistons em 1994/95 (28 vitórias e 54 derrotas na fase regular), Hill estabeleceu-se rapidamente como o futuro da NBA, com a responsabilidade de recolocar Detroit no topo.
Em 1995/96, o crescimento dos Pistons era notório, transformando-se numa equipa jovem, com Grant Hill no papel principal, suportado por Lindsey Hunter e Allan Houston, com Joe Dumars a trazer a experiência de um passado de sucesso e Doug Collins no comando técnico.
Liderando a NBA em triplos-duplos (10), Mr. Triple Double mostrava o seu jogo all-around e, mesmo após o regresso de Michael Jordan, voltou a liderar a votação dos fãs para o All-Star Game de 1996, o que ilustrava o impacto e a popularidade de Hill. Nesse ano, os Pistons regressaram aos playoffs, terminando a fase regular na 7.ª posição do Este, com 46-36, caindo na 1.ª ronda perante outra equipa considerada o futuro da NBA: os Orlando Magic, liderados por Shaquille O’Neal e Penny Hardaway.
Depois de representar os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, a temporada de 1996/97 foi, provavelmente, a melhor de sempre para Grant Hill. Com médias de 21,4 pontos, 9,0 ressaltos, 7,3 assistências e 1,8 roubos de bola, Hill voltou a liderar a NBA em triplos-duplos (13) e terminou na 3.ª posição na votação para MVP da fase regular, atrás de Karl Malone (Utah Jazz) e Michael Jordan (Chicago Bulls).
Aos 25 anos, o futuro de Grant Hill parecia claro: a próxima “cara” da NBA, o herdeiro do trono de MJ, com tudo o que se deseja num jogador. Qualidade, classe e desportivismo.
O tornozelo esquerdo: como tudo mudou
Depois de várias épocas de sucesso individual, mas com os Pistons sem conseguir avançar da 1.ª ronda dos playoffs, a época de 1999/2000 era vista como oportunidade de ouro para o Michigan basquetebolístico voltar à ribalta. Numa liga pós-Jordan, Hill deixou novamente marca, com 25,8 pontos por jogo, apenas atrás do MVP Shaquille O’Neal (Los Angeles Lakers) e de Allen Iverson (Philadelphia 76ers).
Nas primeiras seis épocas, Hill acumulou mais de 9 000 pontos, 3 000 ressaltos e 2 500 assistências, números apenas superados por lendas como Oscar Robertson, Larry Bird e LeBron James.
Tudo mudou a 15 de abril de 2000. Num jogo entre Detroit Pistons e Philadelphia 76ers, sete dias antes do início dos playoffs, Grant Hill sofreu uma entorse no tornozelo esquerdo que, ao início, não pareceu grave. Depois de todas as decisões acertadas na carreira, Hill optou por continuar a jogar e ajudar a equipa na eliminatória frente aos Miami Heat, decisão que alterou drasticamente o seu percurso.
No Jogo 2 da série, as dores eram insuportáveis e Hill acabou por sair a meio. Os Pistons perderam a série por 3-0, quando a 1.ª ronda ainda era à melhor de cinco.
No final da temporada, Grant Hill era free agent e decidiu juntar-se a um jovem Tracy McGrady em Orlando. Um sign-and-trade foi acordado entre Pistons e Magic, com Detroit a receber Chucky Atkins e um jovem poste que viria a ser essencial para o futuro sucesso da equipa, Ben Wallace. Contrato de 7 anos e cerca de 93 milhões de dólares: foi isso que os Magic depositaram em Hill, na esperança de recuperação total do point forward.
A verdade é que nada voltou a ser como dantes. Nas três primeiras épocas em Orlando, Hill disputou apenas 48 jogos, sempre com dificuldades físicas e um jogo irreconhecível. Aquela facilidade de afundar, o primeiro drible rapidíssimo, os voos a caminho do cesto, tudo isso passou a miragem.
No início de 2003, Hill foi submetido a cirurgia delicada ao tornozelo esquerdo e, sete dias depois, contraiu uma infeção (MRSA) que o deixou hospitalizado durante uma semana, com a vida em risco.
Depois de parar em 2003/04, Grant Hill voltou em 2004/05 e, aos 32 anos, mostrou que ainda tinha basquetebol naquele corpo que o traíra. Com Steve Francis em Orlando, jogou 67 jogos nessa temporada, com média de 19,7 pontos, o que o levou a ser escolhido novamente pelos fãs para o cinco inicial do Este no All-Star Game: a sétima e última presença no “jogo das estrelas”.
Um feito marcante para quem esteve às portas da morte e teve de se adaptar à nova realidade, desenvolvendo um jogo de mid-range muito eficaz, mantendo intactas a visão de jogo e a capacidade de criar com bola a partir da posição de extremo.
Entre 2007 e 2012 jogou pelos Phoenix Suns e, com Steve Nash, Shawn Marion e Amar’e Stoudemire, o outrora futuro da NBA era agora o veterano, ajudando Phoenix a atingir a final da Conferência Oeste em 2010, perdida para os Los Angeles Lakers de Kobe Bryant, numa série equilibrada em que Hill teve a responsabilidade de defender o indefensável Black Mamba.
Esta versão de Grant Hill nos Suns, já veterano, bom defensor e com contribuição ofensiva moderada, é a que uma geração mais nova viu, a imagem que muitos guardam de um basquetebolista que tinha tudo para ser um dos melhores de sempre.
Terminou a carreira nos Los Angeles Clippers, em 2013, totalizando 19 temporadas na NBA. Histórico, para quem, após uma lesão que alterou tudo o que conhecíamos nele, ainda jogou mais 13 anos numa liga cada vez mais competitiva.
Apesar de tudo, a história de Grant Hill tem um final feliz e fica guardada para sempre, com a entrada no Naismith Memorial Basketball Hall of Fame, em 2018, e um dos melhores discursos da história do Hall of Fame, entrando no Olimpo ao lado de lendas como Steve Nash, Ray Allen e, curiosamente, Jason Kidd, que anunciou a retirada dois dias antes de Hill.
7× All-Star; Rookie of the Year; 3× NBA Sportsmanship Award; 1× All-NBA First Team; 4× All-NBA Second Team; 2× NCAA Champion. Estes são apenas alguns capítulos de uma história que acabou longa em sucessos. É verdade que fomos privados de assistir ao melhor de Grant Hill durante muito mais tempo. Chegar aos 27 anos, ao prime da vida basquetebolística, e não poder continuar no trajeto delineado é frustrante, não é justo. Mas assim é a vida. Vale a pena chorar pelo que não tivemos? Não. Vale perceber que vimos, que existiu e que fomos privilegiados.
Como o caso de Grant Hill, existem outros que, por diversos motivos, não puderam deixar a sua marca durante tanto tempo quanto desejávamos, mas que, pelas diversas madrugadas de alegria, pelo exemplo e pela luta constante contra as adversidades, merecem para sempre o nosso respeito e o reconhecimento de que aquilo que foram, por mais curto que tenha sido, ficará para sempre na nossa memória.
Obrigado, Grant.