Blazers e os vencedores do trade deadline
Assistimos a um animado trade deadline com mais de uma dezena de transações, algumas delas com impacto no futuro imediato de equipas que se assumem como candidatas ao anel. O destaque foi certamente o negócio em que 76ers e Nets trocaram All-Stars/problemas entre si. No entanto, não é desse negócio que pretendo falar.
Uma das equipas mais ativas neste deadline foram os Portland Trail Blazers. A equipa do Oregon esteve incluída em três transações, algumas delas deixando fãs e analistas sem saber muito bem o que pensar.
Mas o início deste deadline para os Blazers começa meses antes. No início de novembro de 2021, torna-se público que está a decorrer uma investigação acerca do (mau) ambiente laboral no franchise e demite-se Chris McGowan, CEO da Vulcan Sports & Entertainment, a empresa que gere os Blazers, assim como o franchise de futebol americano Seattle Seahawks. Cerca de um mês depois, Neil Olshey, GM e principal decisor das operações de basquetebol da equipa, é demitido na sequência da mesma investigação. Ambos são substituídos por soluções de dentro de casa, de forma interina.
De volta ao deadline, os Blazers fizeram toda a gente coçar a cabeça ao trocar Norman Powell e Robert Covington, jogadores pelos quais não tinham pago pouco para adquirir, por uma jovem incógnita (Keon Johnson), dois jogadores simplesmente para igualar salário (Eric Bledsoe e Justise Winslow) e uma futura pick de 2.ª ronda. À partida, de um ponto de vista desportivo e mesmo de gestão de ativos, parece que os Blazers fizeram um negócio pobre, sobretudo tendo em conta o que abdicaram para os ter.
A segunda movimentação do deadline leva à separação de uma das mais antigas parcerias de bases da NBA, com CJ McCollum a ser trocado para os Pelicans. Um negócio mais rico em ativos de draft do que em jogadores para contribuir no imediato, sobretudo se levarmos em conta que os Pelicans conseguiram também assegurar o competente Larry Nance Jr.
Em troca, para além de uma pick de 1.ª ronda e duas de 2.ª, os Blazers receberam os fillers de salário Tomáš Satoranský e Didi Louzada, o versátil salário de Josh Hart (não garantido nos próximos dois anos) e Nickeil Alexander-Walker, que os Blazers trocaram imediatamente para os Jazz por uma pick de 2.ª ronda, o jovem Elijah Hughes e o expiring do lesionado Joe Ingles.
Mais dois negócios onde não se vê vontade em manter jogadores ou dinheiro de longo prazo. Para se ter uma ideia, os Blazers, neste momento, têm Damian Lillard com contrato garantido para além da época 2022/23. Só.
E onde quero chegar com isto? Ora bem, em jeito de conclusão, os Blazers têm um plantel com uma superestrela em Damian Lillard como o único jogador com contrato para além da próxima época, um CEO e um GM interinos e um treinador que assinou este ano um contrato de longa duração, mas que, como treinador de primeiro ano, não é um contrato muito oneroso para o franchise.
Ou seja, os Blazers, com uma série de circunstâncias (investigação no front office) e negócios, garantiram uma flexibilidade única para o futuro em todos os quadrantes do franchise. Algo extremamente valorizado por quem quer… comprar um franchise.
Desde o falecimento de Paul Allen em 2018, a sua irmã Jody Allen é quem está à frente dos negócios da família e a consolidação de vários negócios nas mais diversas áreas de atuação do império económico dos Allen abre espaço à especulação de que os Portland Trail Blazers poderão estar disponíveis para serem adquiridos.
Não estou a dizer que os Blazers estão à venda. Não tenho informação privilegiada sobre o assunto. Apenas constato que a situação flexível, a todos os níveis, em que o franchise se encontra é apelativa a um potencial comprador. Porque quem chega e gasta biliões num franchise quer definir um caminho o mais rapidamente possível.
No entanto, há dois pormenores em corrente contrária a esta ideia. Primeiro, uma venda de um franchise não se faz da noite para o dia, a não ser que já estivesse a ser cozinhada. E, tendo isso em conta, estará a estrela da equipa, Damian Lillard, de acordo com construções de plantel que garantam flexibilidade até que se efetive uma venda e um novo rumo para o franchise? Ou isto poderá levar à saída do jogador de 31 anos de um franchise que teima em dizer que quer ficar?
Os Blazers são um franchise com uma base adepta fiel e numa cidade que gosta de basquetebol, apesar de ser um mercado pequeno com pouca atratividade para jogadores e mesmo para negócio. Mas, como já foi abordado em textos anteriores, só existem 30 no mundo inteiro e ser dono de um franchise abre portas a vários níveis. Mesmo a partir do Oregon.
Os verdadeiros vencedores do trade deadline
Quando chega a altura de declarar vencedores/derrotados do trade deadline, qualquer opinião é sempre um exercício especulativo que só será definitivamente desvendado no médio-longo prazo. Ou seja, nunca sabemos realmente no imediato quem foram os vencedores/perdedores…
… a não ser este ano.
Este ano existem vencedores bem identificados que passo a nomear: Derrick Favors, Josh Giddey, Shai Gilgeous-Alexander, Mike Muscala, Aleksej Pokuševski, Tre Mann, Darius Bazley, Ty Jerome, Théo Maledon, Jeremiah Robinson-Earl, Kenrich Williams, Luguentz Dort, Isaiah Roby, Aaron Wiggins e Vít Krejčí.
Estão certamente a perguntar-se porque estou a declarar o roster dos Oklahoma City Thunder (carinhosamente apelidados de Oklahoma City Draft Picks) como os vencedores do trade deadline, e a razão é muito simples e nasce da distribuição das receitas geradas pela NBA entre jogadores e donos dos franchises. No contrato coletivo de trabalho da NBA, as receitas relacionadas com as operações resultantes do basquetebol são divididas sensivelmente a meio entre franchises e jogadores. A parte dos jogadores é paga através dos salários. E é com base nessa parte que é calculado o teto salarial com que as equipas têm de operar na construção de um plantel.
Tendo em conta que está contratualizada uma percentagem devida aos jogadores, há um mínimo contratual que os franchises são obrigados a gastar no seu plantel todos os anos. Esse mínimo é de 90% do teto salarial. Se uma equipa não chegar a esse mínimo, a diferença entre a folha salarial e o mínimo obrigatório é na mesma paga pelo franchise em forma de bónus. Já estão a ver onde quero chegar, certo?
O teto salarial da NBA em 2021/22 está fixado em 98,93 M€, pelo que o mínimo salarial que um franchise é obrigado a despender é de 89,42 M€. Ora, os Thunder, neste momento, têm uma folha salarial de 70,94 M€. O que estabelece uma diferença de cerca de 18,5 M€ que o franchise terá de pagar no final da época.
E esse bónus é pago a quem? Exatamente. Ao plantel atual. A forma como esse dinheiro é distribuído é definida pela Associação de Jogadores da NBA (NBPA), mas, independentemente do critério, estamos a falar de um cheque extra chorudo para 15 jogadores. Muitos deles com a oportunidade de praticamente dobrar o seu salário. Se isto não é ganhar, não sei o que é ganhar.
Nota: para cálculo dos 90% mínimos conta a folha salarial no dia do último jogo da fase regular e, por isso, teoricamente, Sam Presti ainda pode reduzir a diferença para o mínimo salarial. Mas, mesmo que reduza, através de uma renovação salarial ou similar, o bónus deverá ser chorudo para os jogadores dos Thunder.
por João Costa [@JoaoPGCosta]