Beatriz Jordão: «Cheguei a odiar basquetebol»
Entrevista exclusiva da poste ao zerozero sobre uma década a jogar com dores, oito operações às pernas, e uma pré-convocatória improvável para a Seleção Nacional.
Aos 22 anos, Beatriz Jordão anunciou o fim da carreira.
Internacional pelas seleções jovens, tinha o caminho traçado para jogar como profissional, mas o corpo traiu-a. Deixou os Estados Unidos, mudou-se para o Luxemburgo, e durante meses não conseguiu ver um único jogo de basquetebol. Hoje, aos 27 anos, joga no T71 Dudelange, fez 12 abafos numa meia-final da Taça, e integrou a última pré-convocatória da Seleção Nacional Sénior.
Em entrevista exclusiva ao zerozero, a poste fala do momento em que teve coragem de dizer “basta”, das pequenas vitórias de voltar a andar sem dor, e dos medos da possível estreia pela equipa das quinas.
«Chorava antes de ir para o treino, no meio do treino, no fim do treino. Todos os dias, basicamente. Foi muito complicado. Estive muito tempo em negação. Às vezes dou por mim a pensar: não sei se era eu que estava a pôr esta coisa em mim, ou se era eu a pensar naquilo que os outros vão pensar se eu deixar de jogar. ‘Beatriz Jordão é suposta fazer isto e aquilo’. Mas isso é a expectativa dos outros. Como é que eu me sinto? Como é que eu estou fisicamente? Desde os 14 anos fui formatada para fazer isto, programada para isto. Só sei fazer isto. E depois há aquela parte em que o meu corpo não me deixa. Tu lutas, lutas, lutas, e o corpo não deixa.»
«A primeira vez que fiz uma caminhada de 5 km: ‘Oi, o que é que se passa? Não senti uma dor!’ Cheguei a pôr um vídeo no Instagram de eu a correr pela primeira vez após a cirurgia, sem dores. Parecia um trambolho a correr, mas estava toda contente porque não tinha dores. Foi quando percebi: acho que resultou, finalmente. Cheguei ao ponto de odiar o basquetebol. O meu último ano nos Estados Unidos, não vi um jogo da liga. Um. Não conseguia ver, não conseguia olhar para nada. E lentamente vai-se superando isso. Agora adoro basquetebol outra vez.»
«Fico muito feliz por estar na pré-convocatória porque há uma coisa que nunca fiz e gostava muito de ter feito: ter uma internacionalização pela Seleção Nacional sénior. Quero ir, quero estar, quero fazer parte. Mas também sei que já passei por muito e há muita coisa em causa. Já estou a jogar, sim, mas treino três vezes por semana, hora e meia, e faço um jogo ao fim de semana. Então a pergunta é: isto é real? Tenho medos, como é lógico. Tenho muitos medos. Tenho que ser inteligente e olhar por mim, não pelas expectativas dos outros. Tenho medo, não vou mentir.»


