Bacalhau com todos: Pai Natal, Dwight Howard e Super-Homem
Querido Pai Natal,
Bem sei que o mais provável é nem leres esta carta. Mas, se porventura a senhora ou o senhor dos correios t’a entregar e não inventar que não estavas em casa, quero que saibas que é com muito entusiasmo que te escrevo. Não é a primeira carta que te endereço; já deves ter apanhado esta caligrafia noutras sete (talvez dez, já não sei bem) que escrevi em nome dos meus filhos. Não sei onde arranjei a coragem para te escrever, mas estava a ficar difícil aguentar muito mais tempo em silêncio enquanto outros enchem a barriga de sonhos, retweets (sigam a borracha) e gostos no Instagram (bora somar corações cor de laranja).
Nem sei por onde começar, querido Pai Natal. Mas venho por este meio pedir que não te esqueças de mim. E que não permitas que os outros se esqueçam. Durante uns seis anos fui um dos melhores jogadores da liga; durante quatro temporadas surgi nos cinco melhores nas votações para MVP da fase regular. E, não me leves a mal, se calhar o troféu do Derrick Rose até podia ter sido para mim. Carreguei, às costas, a minha equipa até às finais da NBA, em 2009. Carreguei tanto que me parti todo, Pai Natal. Registei duplo-duplo (17 pontos, 13 ressaltos; e, já agora, 2 desarmes de lançamento) durante 14 anos. Em toda a história da NBA, só Kareem Abdul-Jabbar e Elvin Hayes registaram números iguais ou melhores do que os meus nas primeiras 14 temporadas. E fui eleito, por três ocasiões, o melhor jogador defensivo da prova. Só Dikembe Mutombo e Ben Wallace, com quatro cada, têm melhores marcas.
E, muito recentemente, até me sagrei campeão da NBA, assumindo um papel secundário mas determinante. Pai Natal, eu fui figurão na competição durante uma década. Quantos atletas de topo aguentariam o tombo que a lesão nas costas me obrigou a dar? Quantos teriam a força mental para aturar uma década e meia de gozo por parte do Shaq e outras figuras altamente populares? Quantos, com os vários problemas que fui tendo fora dos pavilhões, resistiriam a tudo com um sorriso na cara? Pai Natal, aos 25 anos eu era um dos cinco melhores jogadores da liga e estava no caminho para me candidatar a ganhar vários campeonatos e a assumir-me facilmente como um dos 20 ou 30 melhores de sempre. E, em 12 ou 24 meses, vi tudo isto a desvanecer-se. Aquilo a que agora se chama prime, eu atingi aos 23, 24 e 25 anos de idade. Como é que eu teria sido aos 27, aos 28, aos 29, aos 30 ou aos 31?
Pai Natal, a forma como se conta a história da NBA é tramada. Eu até estou bem resolvido. Mas não deixes que me tramem mais.
Dwight Howard
Qual é o interesse de trazer Dwight Howard para uma conversa de consoada? Provavelmente nenhum, mas dêem-me uma oportunidade de vos demonstrar que há por aqui um bom par de meias para se dar. Aqui há umas semanas, o João André Oliveira, uma das três vozes mais sexy da rádio nacional, partilhou comigo uma sequência de tweets que me fez pensar no quão exemplar é a segunda fase da carreira de Howard.
Vamos recuar até aos anos do poste em Orlando, quando era apontado como um dos mais dominantes da liga. Poderoso no ataque e dominante na defesa, não só pela capacidade física ímpar – especialmente no contexto da sua geração – mas também pelos óptimos instintos e inteligência. Vinha de um par de temporadas com números individuais e colectivos de candidato a MVP. Carregou os Magic a uma final, impedindo o confronto entre LeBron e Kobe. Parece que foi há uma eternidade, mas aquela NBA ainda não era bem como esta, com muito mais espaço e tiros de três a torto e a direito. À data, não havia – tal como hoje também não há – mais do que cinco ou seis jogadores com impacto tão grande nos dois lados do cesto. Howard deixou de ser isto tudo aos 25 ou aos 26 anos de idade.
Dwight deixou de ser um jogador candidato a MVP com a idade com que está Giannis. Podíamos discutir também a forma como o próprio respondeu aos vários desafios que lhe foram colocados, mas alguém algum dia estará preparado para, quando tem o claro potencial para dominar e ser um dos rostos da NBA durante largos anos, ser subitamente arredado para uma posição de menor destaque? Não faltam, infelizmente, casos de jogadores (Hill, Roy, Rose, etc.) com carreiras terminadas demasiado cedo ou desviadas para caminhos secundários devido a lesões. Mas poucos casos são como o de Dwight Howard, que, em poucos meses, passou de jogador transcendental a figura quase descartável. Durante anos foi gozado e apelidado de palhaço. Criticavam o facto de se rir enquanto jogava. Ou de se envolver demasiado em coisas extrajogo. Duvidava-se da sua competitividade. Não é de todo impossível que algumas das críticas até tivessem um ponto de verdade. Parece que Howard nunca se levou muito a sério. E, se esta (vamos chamar-lhe) característica ou forma de estar até pode ter levado a que, em determinada altura da carreira, Dwight não tivesse sido capaz de dar respostas mais afirmativas, hoje também me parece que isto é, em simultâneo, o maior legado que o jogador deixa para todos os que seguem a liga ou sonham em chegar até ela.
Numa fase em que tanto se fala e escreve (e bem, tal como é exemplo, há umas semanas, o texto do Lucas nesta mesma newsletter) sobre a saúde mental, nunca pensei – e isto sou eu a fazer uma confissão – encontrar em Dwight Howard, e mais precisamente no rumo que deu à sua carreira, um exemplo a seguir nestes contextos. Estes atletas, sobretudo quando têm acesso a plataformas globais, podem ser muito mais do que os seus registos em lançamentos, ressaltos ou campeonatos. Em igual medida é injusto cobrar a A ou a B que seja a cara desta ou daquela causa. Por vezes, somos nós, os que estamos por fora, que temos de ser capazes de procurar ver as coisas com outros olhos. Friamente, talvez Dwight Howard tenha feito apenas o necessário para sobreviver na liga – alterar as suas expectativas em toda a linha. Contudo, e em particular pelas várias intervenções nos últimos dois ou três anos, parece-me mesmo que há em Dwight Howard mais do que instinto de sobrevivência.
Não sei se o Pai Natal lhe fará a vontade, mas, se na minha mesa da consoada se falar de Dwight Howard, eu serei o primeiro a sacar da banda-desenhada que conta a história de origem do Super-Homem.