Altura de decisões para Neemias Queta
O próximo dia 20 de janeiro é a primeira data de decisões contratuais que afetam Neemias Queta. É a data em que os contratos two-way, a modalidade pela qual Neemias está ligado profissionalmente aos Sacramento Kings, se tornam garantidos até final da época. Isto se a equipa não dispensar o jogador até lá. E os Kings não vão dispensar Neemias.
Contrato two-way
A figura do contrato two-way foi introduzida na NBA em 2017/18 para dar oportunidade aos franchises de apostar em jovens jogadores que possam desenvolver-se e integrar o plantel principal, sem a obrigatoriedade de pagar mais um salário inteiro. Ou seja, foram criadas mais duas vagas nos plantéis sem o serem verdadeiramente.
Muitos jogadores escolhidos na ponta final do draft, ou mesmo não draftados, raramente tinham oportunidade de mostrar-se aos franchises. A aposta futura nestes jogadores tornava-se onerosa e castradora de lugares no plantel, valiosos no momento de fazer ajustes ao longo da época. A figura do two-way colocou à disposição das equipas dois lugares extra para este propósito específico.
Sem correr o risco de me tornar aborrecido com pormenores, os contratos two-way, de forma muito redutora, estabelecem uma ligação entre o franchise e um jogador que, não estando verdadeiramente no plantel, pode ser utilizado como se estivesse, caso seja necessário, e fazer o seu percurso formativo no afiliado da G League quando a sua presença na equipa principal não é precisa.
Há vários exemplos de sucesso de jogadores que iniciaram a carreira na NBA com contratos two-way e hoje são peças importantes nas rotações das respetivas equipas, com contratos bem mais lucrativos. A título de exemplo: os bases Alex Caruso e Monte Morris, o sharpshooter Duncan Robinson, o poste Chris Boucher ou o irrequieto Lu Dort. Casos de sucesso que inspiram muitos jogadores a aceitar esta modalidade contratual, inclusive o nosso Neemias Queta.
Neemias deve ver o seu contrato ficar garantido até final da época, mas são os próximos passos que tornam a coisa verdadeiramente interessante. Sobretudo se continuar a mostrar-se uma opção fiável tão cedo na carreira.
Opções
Com um contrato garantido até julho (que, sem futurologia, antecipo que seja o que vai acontecer), o que será feito para a nova época é o que vale a pena discutir. Há várias opções à disposição dos Sacramento Kings e de Neemias. A primeira é “obrigar” o franchise a converter o contrato two-way num contrato regular de NBA, através de boas exibições até final da época. Aí, a qualifying offer torna-se mais elevada (já explico).
Neemias termina em julho o contrato two-way assinado com os Kings e o franchise deve torná-lo free agent restrito, oferecendo-lhe uma qualifying offer. A qualifying offer é uma proposta de um ano que pode ser apresentada em certas circunstâncias e que dá condições especiais ao franchise do jogador no momento de definir um novo contrato.
Este mecanismo, previsto no Acordo Coletivo de Trabalho (CBA) da NBA, permite ao franchise igualar qualquer proposta que o jogador receba de outras equipas. Essa qualifying offer está definida no CBA como sendo no valor de um contrato normal de two-way, definido para 2022/23 em cerca de 75 mil euros, com 44 mil euros garantidos, embora estes valores possam ser diferentes se a Liga e a Associação de Jogadores mantiverem as regras excecionais.
Isto porque o contrato two-way “normal”, esta época, foi diferente dos valores tabelados no CBA. Durante 2021/22, e perante a situação pandémica, foi acordado que, em vez do habitual two-way ponderado consoante o tempo na G League ou na NBA, os jogadores receberiam um valor fixo de metade do salário mínimo de um jogador com zero anos de experiência (cerca de 400 mil euros). Verdade seja dita, ainda não sabemos com que linhas nos vamos coser quanto a isto.
Apesar da incerteza, a partir da qualifying offer o Neemias pode escolher assinar novo contrato com os Kings ou aceitar uma proposta de outra equipa, que pode sempre ser igualada pelos Kings, mantendo o jogador no franchise.
Mas então, o que vai acontecer?
O cenário mais previsível é Neemias manter-se em Sacramento. Resta saber em que condições.
Os Kings certamente preferem (e este cenário é altamente provável) mantê-lo em novo contrato two-way. Mas se, daqui até final da fase regular, os minutos e as oportunidades aumentarem, Neemias pode conquistar, dentro de campo, vantagem negocial para conseguir algo mais.
O melhor cenário para o atleta seria assinar um contrato regular de maior duração, que lhe dê segurança para abordar esta fase crucial de adaptação à liga. Caso os Kings queiram seguir este caminho, tenderão a propor um valor baixo, ao estilo do acordo que os Thunder acertaram com Lu Dort. E Neemias pode transformar esse contrato numa pechincha para os Kings. É um cenário de segurança profissional que pode render dividendos a médio prazo.
Se fosse homem de apostas, diria que Neemias continua nos Kings com novo two-way, para prosseguir o desenvolvimento enquanto acumula minutos e oportunidades na primeira equipa. E depois, no verão de 2023, negociar um contrato regular de NBA e estabelecer definitivamente o seu lugar na liga.
Este artigo foi escrito com contribuições de Anil Gogna e Yossi Gozlan.
por João Costa [@JoaoPGCosta]