O desporto é, habitualmente, uma reflexão imperfeita da nossa sociedade. Tal como na vida, também no basquetebol o inesperado bate à porta de todos, por boas e más razões, alterando drasticamente um caminho que parecia certo. Devido a problemas pessoais, lesões, falta de motivação, entre outros fatores, ficamos privados de vislumbrar a grandeza contínua daqueles que, durante a sua vida, mostraram que eram capazes de o fazer.
A 3.ª edição do What if conta a história de Reggie Lewis, o sucessor de Larry Bird como líder e catalisador dos Boston Celtics que, aos 27 anos, perdeu a vida, deixando diversos capítulos da sua história basquetebolística e humana por escrever.
O encanto de Boston antes da NBA
Reginald C. Lewis nasceu a 21 de novembro de 1965, em Baltimore, no estado de Maryland, e foi em Dunbar High School que deu os primeiros passos no basquetebol. No início dos anos 80, os Dunbar “Poets” tinham uma das melhores equipas juvenis do país, com quatro futuros jogadores da NBA: David Wingate, Reggie Williams, Muggsy Bogues e Reggie Lewis.
De 1981 a 1983, os “Poets” apresentaram um registo 100% vitorioso, com 60 vitórias no palmarés da escola de Baltimore, e vários atletas despertaram o interesse de muitas universidades norte-americanas.
Depois do sucesso em Dunbar, Lewis embarcou numa viagem até ao estado de Massachusetts, mais concretamente até à Northeastern University, em Boston. Os Huskies saíram beneficiados com a chegada de Reggie Lewis, vivendo quatro anos de relativo sucesso.
Inseridos na Eastern College Athletic Conference-North (ECAC North), hoje America East Conference, e suportados pelo talento do jovem de Baltimore, os Huskies venceram a conferência por quatro ocasiões consecutivas, garantindo bilhete anual para a March Madness.
As capacidades atléticas e de lançamento eram evidentes em Reggie Lewis que, nos quatro anos em Northeastern, contabilizou 2 708 pontos, marca que o coloca no topo dos melhores marcadores de sempre da universidade, lugar que ainda hoje ocupa.
Entre os diversos prémios individuais conquistados por Reggie Lewis, destacam-se: ECAC North Rookie of the Year (1984), 3× ECAC North Player of the Year (1985–1987) e 2× ECAC North Tournament MVP (1985 e 1987).
O número 35 levava ao rubro a Matthews Arena (antiga Boston Arena), casa da Northeastern University e primeiro pavilhão utilizado pelos Boston Celtics (1946–1955). Parecia escrito: o “verde” estava destinado ao jovem de Baltimore.
Dos poucos minutos de rookie ao All-Star Game
Concluída a carreira universitária, o sonho da NBA tornou-se realidade em 1987. Declarando-se para o Draft e apesar de todo o potencial reconhecido, o facto de jogar numa universidade menos cotada dificultou uma escolha no top 10. Foi a 22.ª escolha do Draft de 1987, atrás de dois ex-colegas de Dunbar: Reggie Williams (4.ª; Los Angeles Clippers) e Muggsy Bogues (12.ª; Washington Bullets).
Destino de Reggie Lewis? Manter-se em Boston, agora para representar a franchise com mais títulos na história da NBA, os Boston Celtics. Com o objetivo de renovar o plantel e após a morte trágica de Len Bias (2.ª escolha no Draft de 1986), os Celtics procuravam acrescentar juventude ao Big Three envelhecido de Larry Bird, Kevin McHale e Robert Parish.
Depois de dominar o Este nos anos 80 e conquistar três campeonatos (1981, 1984 e 1986), o crescimento de Detroit Pistons, Cleveland Cavaliers, New York Knicks e Chicago Bulls trazia incerteza a Boston. Red Auerbach, presidente da franchise, procurava recolocar os verdes no topo do Este e da NBA.
O início de carreira de Reggie Lewis não foi o que esperava. Habitualmente utilizado como small forward, mas com capacidade para jogar na posição dois, passou a época de rookie no banco, tapado por Larry Bird, estrela principal da equipa.
Em declarações à jornalista Jackie MacMullan, Bird falou das dificuldades de Lewis no primeiro ano: “Quando o Reggie chegou à liga, ele não sabia como jogar. Sabia lançar, ponto. Mas era um trabalhador nato, passava imenso tempo a procurar melhorar o jogo. Ele adorava isso.”
Com 8,3 minutos por jogo em apenas 49 jogos, Lewis continuou a fazer o que melhor sabia: trabalhar à espera da oportunidade de ajudar os Celtics.
Na temporada seguinte (1988/89), a troca de treinador principal (saída de K.C. Jones e entrada de Jimmy Rodgers) e uma lesão de Larry Bird levaram Reggie Lewis ao centro das atenções, passando a ocupar um lugar no cinco inicial veterano dos Celtics.
Como sophomore, a história do “Poet” passou a contar com o capítulo NBA. O atleta começou a mostrar o talento que já brilhara em Boston.
Uma média de 32,8 minutos por jogo permitiu a Reggie Lewis subir todos os números: de 4,5 para 18,5 pontos, mais 4,7 ressaltos, 2,7 assistências e 1,5 roubos por jogo.
De um momento para o outro, Red Auerbach tinha encontrado o líder da nova geração vencedora dos Celtics, o sucessor do legado de Bill Russell e Larry Bird, para capitanear uma franchise habituada a vencer e sedenta por novas conquistas.
Apesar do sucesso individual, os primeiros playoffs de Lewis não foram os melhores: “varridos” na 1.ª ronda de 1989 pelos eventuais campeões, os Bad Boys Detroit Pistons, dominadores do Este entre 1988 e 1990.
A época seguinte (1989/90) foi similar: Lewis manteve os registos, mas o sucesso coletivo continuou longe, com nova saída prematura nos playoffs, novamente na 1.ª ronda, desta vez frente aos New York Knicks por 3-2.
Com o fim à vista para as lendas do passado recente, 1990/91 surgia como uma das últimas hipóteses daquela geração conquistar mais um título. A época, porém, consagrou a nova dinastia da NBA, os Chicago Bulls de Michael Jordan. Os Celtics caíram na 2.ª ronda dos playoffs, perdendo novamente com os Bad Boys de Detroit.
Apesar do desalento coletivo, Reggie Lewis ia-se estabelecendo como estrela em ascensão. Em março de 1991, no Boston Garden, protagonizou uma das exibições mais marcantes da carreira: frente aos eventuais campeões Chicago Bulls, desarmou o lançamento de Michael Jordan por quatro ocasiões, feito único.
Em 1991/92, Lewis era, indiscutivelmente, o líder dos Celtics, naquela que viria a ser a última temporada de Larry Bird. Na quinta época como profissional, foi escolhido pela primeira vez para o All-Star Game, com médias de 20,8 pontos, 4,8 ressaltos, 2,3 assistências, 1,5 roubos e 1,3 desarmes de lançamento.
Com 2,01 m e apelidado por alguns de “Silent Assassin”, pela personalidade reservada e versatilidade ofensiva, o crescimento defensivo era evidente: um two-way player de alto nível, capaz de jogar como shooting guard ou small forward, a deliciar não só o Boston Garden como toda a NBA.
Acompanhado por jovens como Brian Shaw e Dee Brown e veteranos como Kevin McHale, os Celtics voltaram a cair na 2.ª ronda dos playoffs, desta feita frente aos New York Knicks, numa série a sete jogos, vencida por 4-3 pela equipa de Pat Riley.
Rivalidade com Michael Jordan, múltiplas futuras presenças no All-Star Game: em 1992, era assim que se falava de Reggie Lewis, a esperança dos Celtics para os anos 90.
O final triste de um capítulo por escrever
Em 1992/93, esperava-se mais do mesmo. Já sem Larry Bird, o Boston Garden agarrava-se aos movimentos do 35 e à esperança de uma cidade habituada a vencer, agora nos ombros do jovem que crescera em Baltimore, mas já pertencia a Boston.
Com números similares aos da época transata e apesar de não ter sido escolhido para o All-Star Game (concorrência de Scottie Pippen e Dominique Wilkins), os Celtics terminaram a fase regular na 4.ª posição e defrontaram na 1.ª ronda dos playoffs os Charlotte Hornets, equipa do amigo de infância Muggsy Bogues.
A 29 de abril de 1993, no Boston Garden, o Jogo 1 prometia. Reggie Lewis marcou 17 pontos naqueles que seriam os últimos 13 minutos da carreira.
De repente, enquanto corria para o meio-campo adversário, a fragilidade e o cansaço eram evidentes. Lewis caiu desamparado. Sem aparentemente perder os sentidos, levantou-se, visivelmente exausto e sem perceber o que se passava. Foi substituído e não voltou a jogar nos playoffs. Os Celtics perderam a série por 3-1.
No dia seguinte, Reggie Lewis foi ao New England Baptist Hospital para perceber o que acontecera, acompanhado por vários médicos da confiança da equipa. Após diversos testes, foi-lhe diagnosticada uma cardiomiopatia focal, problema no miocárdio que pode causar batimentos irregulares e paragens cardíacas.
A carreira estava em risco, mas, após segunda opinião, foi diagnosticada síncope reflexa, condição considerada não letal e que devolveu esperança ao regresso de Lewis aos pavilhões.
Infelizmente, a 27 de julho de 1993, durante um treino de pré-temporada na Brandeis University, Reggie Lewis sofreu uma paragem cardíaca e faleceu, aos 27 anos, enquanto fazia o que mais gostava.
Um final trágico para uma história que ainda tinha tanto por contar. O fim da carreira era uma possibilidade; o fim de uma vida tão jovem expõe a efemeridade que comanda o dia a dia.
Entre 1988 e 1993, Reggie Lewis foi um de apenas seis jogadores a registar, pelo menos, 7 500 pontos, 1 500 ressaltos, 1 000 assistências e 500 roubos de bola, juntamente com cinco Hall of Famers: Michael Jordan, Charles Barkley, Clyde Drexler, Karl Malone e Chris Mullin.
O número 35 foi retirado pela Northeastern University e pelos Boston Celtics, homenagem merecida a um homem adorado por muitos, um basquetebolista venerado por uma cidade inteira e que fica para sempre na memória dos adeptos.
Já passaram mais de 29 anos desde a sua morte, mas o legado deixado em tão curto espaço de tempo permanecerá para sempre.